CARTA DE BRAGA – “I did it my way” – por António Oliveira

Procrusto é um dos muitos mitos enriquecedores do teatro grego, onde as tragédias se constituem como a melhor e mais vasta das enciclopédias, pelo valor do conjunto de paradigmas e modelos ali aprofundados, para documentar uma qualquer lição sobre os desafios e contradições que a vida individual ou colectiva nos propõe em continuum.

Procrusto atacava e aprisionava os transeuntes. Dava aos maiores uma cama pequena e ia cortando-lhes os pés até caberem; os mais pequenos deitava-os em camas grandes e esticava-os até atingirem o tamanho da cama.

A questão era reduzir cada um dos prisioneiros para atingir o tamanho desejado por Procrusto, um dos mais perfeitos símbolos de todo e qualquer tirano, para quem contam apenas as próprias ideias e não suporta nem tolera quem possa exprimir as que lhes são contrárias.

O exagero da simbologia serve cabalmente para nos mostrar a dimensão trágica do conformismo e do ‘deixadismo’ que a ignorância e a incultura sempre arrastam, fruto da preocupação aberrante e única com o presente e, muito mais, ao reduzi-lo a um modestíssimo ‘agora’!

Um conformismo aproveitado sobremaneira por quem tem acesso às novas tecnologias e aos media, para construir um mundo onde o histórico não cabe, a não ser pelo vocabulário usado, cortado e reduzido, mas esticado e bem cheio com lugares comuns.

Daí que, assistir aos espectáculos diários das notícias acaba por ser deprimente por me sentir às vezes com pernas compridas e outras com elas bem curtas. Sinto não poder encaixar-me nas coisas afirmadas com enlevo mas parcamente explicadas, longínquas que estão dos problemas da minha casa, da minha rua, do meu bairro, da minha cidade e muito do meu país, por interessarem apenas àquele senhor ou àquela senhora bem vestidos, lustrosos, iluminados e aumentados a preceito.

É óbvio termos à frente alguns Procrustos no seu melhor, mostrando saber aproveitar muito bem os espaços onde rareia a razão, em benefício das crenças e do instinto!

A investigadora e socióloga sueca Anna Rosling deixa tudo isto bem explicado, numa entrevista com poucos dias:

‘- Por que somos ainda comandados pelo instinto?

Por ser como o açúcar, não precisamos mas gostamos dele! E vocês, jornalistas, são os primeiros a usar os instintos primários para obterem a máxima atenção.

– Como usar mais a razão que o instinto?

Desconfie das histórias emocionantes e dos relatos dramáticos de jornalistas, activistas e políticos: costumam ser interessantes, mas também interessados. Analise os dados e as estatísticas antes de dar a sua opinião, mas nunca para confirmar aquilo em que já acreditava!

A maioria dos acontecimentos do último ano, aqui e no resto do planeta, parecem dar razão a Anna Rosling, quando já vemos extremistas a caminho do poder à custa da mentira e de dizerem apenas o que as pessoas querem ouvir. Em muitos casos, até os afogados em miséria os seguem, por serem levados a acreditar no que dizem.

Note-se como insultar e apoucar os votantes do trumpa não serviu de nada e o Brasil também se entregou a outro igual. As crenças avançam e progridem e a razão está a perder no confronto! O ‘Penso, logo existo’ de Descartes está hoje muito distante de atingir o mesmo valor (até na bolsa!) do actual ‘Acredito, logo penso’ pois, mesmo ignorando quem foi o Procrusto que o ditou, bem o vejo e sinto em todo o lado!

Mas hoje também lembro muitas vezes as palavras com que Frank Sinatra termina ‘My way’, salientando ‘o homem é homem só pelo que tem, pois se não é ele mesmo, então não tem nada para dizer do que sente de verdade, não a de alguém que se ajoelha, and did it my way!

Bom Ano, à maneira real de cada um!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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