FRATERNIZAR – TEXTO 2, JANEIRO 2022 – O CÉU OU A TERRA? – por MÁRIO DE OLIVEIRA
joaompmachado
O Céu é a perdição. A Terra, a salvação. Por mim, entre a verticalidade – céu – e a horizontalidade – Terra – escolho sempre a horizontalidade. Só a horizontalidade nos salva, entenda-se, faz-nos progressivamente crescer de dentro para fora em Humano, não em divino. Já que fora da Terra, perdemos o pé e perecemos. Respiramos veneno, bebemos veneno, comemos veneno.
Nos milénios anteriores, como é sabido, as populações foram sistematicamente levadas a pensar que nascer, crescer e viver na Terra era um degredo, uma vez que ela mais não era do que um vale de lágrimas. Onde gemíamos e chorávamos. De pés no chão e cabeça no céu. A lúcida horizontalidade era a perdição. E a demencial verticalidade, a salvação.
São milénios marcados pelo Religioso e pelo seu irmão gémeo, o ateísmo. Este só muito mais recentemente. No passado, declarar-se ateu era candidatar-se às fogueiras da Santa Inquisição, uma espécie de Auschwitz antes do tempo. É por isso um escândalo de todo o tamanho, quando, na minha condição de Presbítero-Jornalista, escrevo e publico um Livro, intitulado, ‘E Deus disse: do que Eu gosto é de Política, não de Religião’, Campo das Letras 2002.
Pessoas há que, graças a este Livro, hoje se declaram abertamente ateias. Não que o Livro em si conduza a essa postura, bem pelo contrário, mas porque os clérigos das religiões e das igrejas não só o não acolheram, como abertamente o criticaram e, autoritariamente, perseguiram quem com a simplicidade de uma menina, de um menino, acolheu o Livro como uma luz no seu caminhar na História.
Sabemos bem que ainda hoje o Religioso faz tudo por tudo para se manter à tona da água e não ir ao fundo. E tem-no conseguido, graças ao seu irmão gémeo, o ateísmo. Trata-se de um Religioso light, feito de fórmulas, rituais e sistemas de doutrina, fundados em livros apresentados como sagrados, com destaque para a Bíblia e o Alcorão, quando, na realidade, são livros mais do que maquiavélicos. Cujo deus todo-poderoso está aí, impunemente, a fazer da Terra um inferno para as maiorias, e um paraíso para as minorias privilegiadas, entre as quais estão, antes de mais, os clérigos e outros gurus, todos especialistas na verticalidade, a negação viva da horizontalidade.
Só a Política praticada que o Poder político odeia e mata, conhece a horizontalidade. Ama a Terra, não o céu. Ama os seres humanos e os povos que constantemente vê, não deus que nunca vê. É que só entre os outros seres humanos como nós, somos e vivemos. Reconhecemo-nos como Terra-Consciência, misteriosamente habitados e portadores de energia-vida que levanta mortos e caídos. Outros Jesus histórico, mas agora séc. XXI. Ontologicamente sempre com Deus. Existencialmente sempre sem deus.