CARTA DE BRAGA – “conversas apanhadas no café” por António Oliveira
clara castilho
Começámos a conversar, eu e um amigo, sobre o grande tema do momento, mas logo decidimos ficar calados ao ouvir o que se dizia numa mesa próxima, de um modo suficientemente alto para não parecermos metediços nem indelicados.
E aqui deixo o resumo possível, tirado do depósito da memória, entre os lugares-comuns e pensamentos respeitáveis, com a devida vénia a cinco desconhecidos, breve companhia entre as mesas da esplanada de uma pastelaria desta cidade.
O ponto de partida foi o repisar de um deles ‘o isolamento do senhor da guerra’ destes tempos, para a qual se estava a preparar há muitos anos, enquanto o ocidente entre trumpadas e outros faits divers que não tardarão a desaparecer da cabeça das pessoas, afastados por outros feitos de gente especialmente colocada, com ou sem penteados esquisitos e mais ou menos chapadas em público, não arranjava tempo para pensar em niquices.
E depois, todos falaram do bicho, das máscaras, pandemias, vacinas, da crise das austeridades, provocada por ‘Todos os que viviam acima das suas possibilidades’, principalmente os reformados e trabalhadores da função pública, dos telemóveis, dos bancos e centros de saúde a desistir das vilas mais pequenas, a juntar aos dramas em volta dos cromos que os media fornecem para entretimento colectivo, que não nos permitiam olhar para lá da rua vizinha, quanto mais para ‘O gajo que até está longe’.
Mas ‘Os jornais e as televisões dizem que também vamos amargar’ porque as sanções também se vão fazer sentir por cá, basta pensar que ‘O gás que gastamos vem de lá por um tubo que foi pago pelos alemães’, e ‘Vamos ter de cozinhar e tomar banho às prestações’, trigo e milho vinham quase todo da Ucrânia e, também muito do óleo de girassol! ‘Os russos vão ter uma vida complicada, mas nós também’.
É verdade que as imagens que vemos da Ucrânia revoltam toda a gente, ‘Aquilo é coisa que ninguém pode fazer, seja ele quem for, cidades completamente destruídas com gente a viver nas caves e nos túneis que conseguem apanhar, só porque um o gajo tem a mania de querer ser imperador!’, nem ninguém pode falar do que está a acontecer como sendo uma guerra, apenas uma mera operação de desnazificação, ‘Como é que o gajo inventou isto?!’, senão vai dentro.
‘Tenho a impressão de que isto não vai durar muito’ dizia um deles, voz mais grossa a impor respeito a todos os outros, ‘Mas também vai mudar o que se passa no mundo, a ter em atenção que os chineses não são parvos e ainda não se meteram!’ continuou o da voz grossa e logo o que estava ao lado, ‘A mim cheira-me que tudo isto vai sobrar para a Europa, como foi nas duas guerras mundiais’.
E o da voz grossa volta a falar, calma e cuidadosamente ‘Vamos passar a ser e estar apertados pela pressão política e populacional do norte de África, pela pressão da Europa do lado de lá e pela da América do Sul, que até já cá tem gente em grande quantidade e não só neste país!’
Os outros calam-se como se ele fosse o dono da verdade e ele acrescenta, falando agora mais baixo, o que nos deixa, aos dois, admirados, ‘E os populistas estão a crescer por toda a Europa, a ganhar destaque nos órgãos de comunicação social que parecem sem força para os combater e, é conveniente lembrarmo-nos que oito em cada dez habitantes da Terra vive em regimes autoritários ou muito próximos disso. E, só para terminar esta conversa que tenho a mulher à espera, também temos estado a ser bem treinados para isso, por um regime liberal e financeiro que sabia tudo de nós, servindo-se e ajudado por muitas porcarias, disfarçadas de tecnologias’.
Faz sinal para lhe trazerem a conta, paga e levantam-se todos, ainda conversam um pouco no passeio e desandam, cada um à sua vida.
Mas também me lembrei –para terminar e até por nem imaginar um fim para toda esta questão-, de uma afirmação do filósofo, químico e poeta francês Gaston Bachelard, desaparecido há sessenta anos, bem conhecido pela introdução do conceito de ruptura e da descontinuidade histórica que ela acarreta, afirmação que talvez aqui caiba bem e até a propósito, ‘Se tudo o que muda lentamente se explica pela vida, tudo o que muda depressa se explica pelo fogo’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor