CARTA DE BRAGA – “mas…”por António Oliveira

 

Às vezes ‘passeio’ mentalmente até lá atrás, ao tempo em que nos sentávamos em volta da mesa de uma esplanada em tardes ou noites de Verão, só para conversar e beber um fino, ou em volta de outra onde houvesse qualquer coisa para petiscar, enquanto a chuva encharcava folgas e descansos!

Aprendi e aprendíamos ali, sem ser aos gritos nem a olhar ecrãs, fossem quais fossem, grandes ou pequenos, como a conversar (às vezes a discutir!) se podiam resolver os maiores problemas do mundo, ou aprendíamos de outra gente que publicava, alguns diziam e até cantavam assuntos a circular só em cassetes e folhas de stencil, coisa que a maioria da juventude já nem sabe nem quer saber o que é (conversar, não o stencil!)

Mãos agasalhadas nos bolsos quando a friagem o exigia mas, mal assomava a Primavera, a desenhar gestos e jeitos no ar para fazer companhia às palavras, a maneira mais fácil de garantir veracidade ao que se dizia.

Exercitávamos assim, as respostas às pequeninas coisas do dia-a-dia, mas também às maiores, as das matérias mais complicadas das aulas ou da vida e, tantas vezes! se auxiliava ou animava um amigo mais atarantado.

Também se discutiam futebóis e outras minorações, quando a conversa descambava por via de gente a sentar-se à volta de ouvido bem atento, por não serem bons aqueles tempos para se conversarem ‘libertinadas’ (a palavra não existe mas qualquer a pode perceber!)

Eram reuniões e relações de reciprocidade, onde se olhava de frente e se viam olhos e atitudes, os elementos da notável linguagem corporal, sempre tão explícita como a oral.

Já lá vão muitos anos, Abril foi há quarenta e cinco! mas já não vejo um qualquer resquício daquele ‘estar’ pois agora, só devo ter cuidado para não atropelar nem tropeçar em gente, novos e menos novos, pendurados e enganchados nos seus aparelhos para olhar e ouvir, com ou sem auscultadores!

E lá, nas outras mesas próximas daquelas onde por vezes ainda me sento, há mais gente a ignorar o mundo para entrar na virtualidade de um qualquer contacto, por considerar, com toda a certeza, haver uma prioridade maior naquela relação virtual para minorar as reais que tem ao lado.

E há uns dias, num corredor num nível superior ao da ‘praça da alimentação’ de um centro comercial, tive oportunidade de ver a multidão de solitários convictos, isolados mental e fisicamente, mas a verter as afincadas solitudes polegares, nos inseparáveis prolongamentos digitais.

E tive pena das palavras, daquelas milhentas palavras que vi e senti perderem-se, durante os poucos minutos ali parado a olhar.

Palavras que podiam ser de emoção, de amparo ou de carinho, de só serem e estarem, de dizer das tristezas, dos sonhos e das utopias, como das piadas de se contarem e de se ouvirem, afinal o conversar sobre a vida a percorrer irremediavelmente a estrada do tempo.

Testemunhei e comprovei ali, como o telemóvel as comeu e as mandou para o caixote das inutilidades e, julgo mesmo muito mais importante, estão a levar atrás também as amizades, aquelas pessoas de sempre serem e estarem, as mesmas pessoas que não querem nem aceitam ser trocadas por likes!

Naqueles poucos minutos e com aquelas atitudes, confirmei ainda como a leitura também está a ser forçada a acompanhar a triste viagem das amizades e das palavras, já anunciada há uns tempos, com todas as notícias sobre a ‘morte lenta’ das livrarias.

Mas o meu receio é poder alguma vez confirmar o apontamento lido uma vez ‘Utilizamos poucas palavras. E sendo mais curto o léxico, também é mais curto o pensamento

Talvez por isso, o escritor Javier Marias, da Real Academia Espanhola, escreveu há pouco ‘Por culpa de las redes sociales, que por supuesto tienen mil cosas ventajosas, se produce un fenómeno nuevo, muy preocupante: que la imbecilidad está organizada por primera vez en la historia

Será duro e brutal mas…

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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