Às vezes ‘passeio’ mentalmente até lá atrás, ao tempo em que nos sentávamos em volta da mesa de uma esplanada em tardes ou noites de Verão, só para conversar e beber um fino, ou em volta de outra onde houvesse qualquer coisa para petiscar, enquanto a chuva encharcava folgas e descansos!
Aprendi e aprendíamos ali, sem ser aos gritos nem a olhar ecrãs, fossem quais fossem, grandes ou pequenos, como a conversar (às vezes a discutir!) se podiam resolver os maiores problemas do mundo, ou aprendíamos de outra gente que publicava, alguns diziam e até cantavam assuntos a circular só em cassetes e folhas de stencil, coisa que a maioria da juventude já nem sabe nem quer saber o que é (conversar, não o stencil!)
Mãos agasalhadas nos bolsos quando a friagem o exigia mas, mal assomava a Primavera, a desenhar gestos e jeitos no ar para fazer companhia às palavras, a maneira mais fácil de garantir veracidade ao que se dizia.
Exercitávamos assim, as respostas às pequeninas coisas do dia-a-dia, mas também às maiores, as das matérias mais complicadas das aulas ou da vida e, tantas vezes! se auxiliava ou animava um amigo mais atarantado.
Também se discutiam futebóis e outras minorações, quando a conversa descambava por via de gente a sentar-se à volta de ouvido bem atento, por não serem bons aqueles tempos para se conversarem ‘libertinadas’ (a palavra não existe mas qualquer a pode perceber!)
Eram reuniões e relações de reciprocidade, onde se olhava de frente e se viam olhos e atitudes, os elementos da notável linguagem corporal, sempre tão explícita como a oral.
Já lá vão muitos anos, Abril foi há quarenta e cinco! mas já não vejo um qualquer resquício daquele ‘estar’ pois agora, só devo ter cuidado para não atropelar nem tropeçar em gente, novos e menos novos, pendurados e enganchados nos seus aparelhos para olhar e ouvir, com ou sem auscultadores!
E lá, nas outras mesas próximas daquelas onde por vezes ainda me sento, há mais gente a ignorar o mundo para entrar na virtualidade de um qualquer contacto, por considerar, com toda a certeza, haver uma prioridade maior naquela relação virtual para minorar as reais que tem ao lado.
E há uns dias, num corredor num nível superior ao da ‘praça da alimentação’ de um centro comercial, tive oportunidade de ver a multidão de solitários convictos, isolados mental e fisicamente, mas a verter as afincadas solitudes polegares, nos inseparáveis prolongamentos digitais.
E tive pena das palavras, daquelas milhentas palavras que vi e senti perderem-se, durante os poucos minutos ali parado a olhar.
Palavras que podiam ser de emoção, de amparo ou de carinho, de só serem e estarem, de dizer das tristezas, dos sonhos e das utopias, como das piadas de se contarem e de se ouvirem, afinal o conversar sobre a vida a percorrer irremediavelmente a estrada do tempo.
Testemunhei e comprovei ali, como o telemóvel as comeu e as mandou para o caixote das inutilidades e, julgo mesmo muito mais importante, estão a levar atrás também as amizades, aquelas pessoas de sempre serem e estarem, as mesmas pessoas que não querem nem aceitam ser trocadas por likes!
Naqueles poucos minutos e com aquelas atitudes, confirmei ainda como a leitura também está a ser forçada a acompanhar a triste viagem das amizades e das palavras, já anunciada há uns tempos, com todas as notícias sobre a ‘morte lenta’ das livrarias.
Mas o meu receio é poder alguma vez confirmar o apontamento lido uma vez ‘Utilizamos poucas palavras. E sendo mais curto o léxico, também é mais curto o pensamento’
Talvez por isso, o escritor Javier Marias, da Real Academia Espanhola, escreveu há pouco ‘Por culpa de las redes sociales, que por supuesto tienen mil cosas ventajosas, se produce un fenómeno nuevo, muy preocupante: que la imbecilidad está organizada por primera vez en la historia’
Será duro e brutal mas…
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor