CARTA DE BRAGA – “das Olimpíadas a Miguel Torga” por António Oliveira

Agora tudo parece estar suspenso no ar, e nalguns lugares desta mísera, esburacada e arrombada Terra, por tudo se passar e divulgar nos ecrãs, nas paredes, à mesa e nas mãos, e até a olharem as Olimpíadas, onde umas largas centenas de jovens procuraram atingir sonhos e glórias em volta de um poluído Sena.

Nem isto nos desvia a atenção para governos autocratas, comandados por gente que tem enorme dificuldade em distinguir o verdadeiro do falso, que se serve de tudo para conservar o poder que atingiram ‘sabe-se lá como’, para manterem as desigualdades que transformaram gentes e povos, em lugares de depressão permanente.

Desigualdades aumentadas com os abalos das bolsas na segunda semana de Agosto, com a ansiedade a aumentar em volta da Ucrânia e Gaza, e com as afirmações sempre polémicas de Musk, tanto sobre a vida familiar como sobre a sua actividade política onde, o seu poderio tecnológico influencia –e de que maneira– a geoestratégia mundial.

Mas, passando a um nível mais popular, mais geral e vulgar, li há dias no ‘El País’, uma afirmação de Mar Benegas, a escritora que ganhou o Prémio Cervantes Infantil de 2022, ‘Lembro-me de um a menina me dizer, Quero ser um telefone para a minha mãe olhar para mim’.

Não quero ser um desmancha-prazeres, mas tudo parece apontar para uma realidade, outra e diversa: até agora, a tecnologia tem estado às ordens das pessoas, mas tenho sérias dúvidas se continuará a ser assim nos próximos anos, até por a IA já saber programar; e há pensadores a dar opiniões de que a perda do domínio humano sobre as tecnologias, implicará uma mudança de hegemonia que poderá levar a um controlo do mundo pelos ‘donos’ das tecnologias, mormente da IA.

Aliás já se nota muito bem como a devoção por essas ‘figuras’, é um culto em crescimento ‘fantabulástico’, bastando aprontar os mais de 180 milhões de seguidores desse Musk, além dos quase 60 mil milhões que a Tesla lhe vai pagar. Para Marc Murta, presidente da empresa central do ecossistema daqui ao lado, a chave para enfrentar tal poder, estará nas instituições, mas acima de tais timoneiros, por serem as únicas que podem governar, assegurando que a tecnologia continue ao serviço dos humanos.

Fala quem sabe e estará dentro dos sistemas, podendo juntar-lhe ainda as palavras do sociólogo e psicólogo David Le Breton, na sua obra ‘O fim da conversação’, porque, ao falar das novas tecnologias, assume em tom trágico, ‘os nossos corpos estão à beira da morte’. Falta de sono, distúrbios da atenção, o fim das conversas da família à mesa, com a vizinhança, ou na rua, isolamento e atrasos cognitivos. Naquele curto ensaio, cuja crítica foi publicada no ‘Philosophie Magazine’, de Junho passado, apontam-se as suas palavras ‘Curvados permanentemente sobre o ecrã, não olhamos em volta, a começar no ‘outro’ e na sua face, a presença que dá ao ‘outro’ a sua consistência ontológica, que fundamenta a ética e torna possível um relacionamento escolhido, gratuito e livre’.

Le Breton termina por preconizar uma resistência mínima e também uma higiene simples com vista ao futuro: conversar com o ‘outro’ o mais possível, de preferência cara a cara e olhos nos olhos. E ao recordar a menina que queria ser telefone, não posso deixar de lhe juntar uma outra, do poeta e escritor Miguel Torga, ‘O universal é o local sem paredes’, sejam elas quais forem, acrescento eu!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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