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CARTA DE BRAGA – “dos states e da vida como um rio” por António Oliveira

Escrevo esta Carta antes do ‘Midterm’, as eleições intercalares para as Câmaras dos EUA, eleições que podem marcar o final da democracia nos States, se os apaniguados do trumpa ganharem, um resultado que também arrastará consequências dramáticas para a Europa e o resto do mundo. 

Terão sido ontem, terça feira, mas ainda quero acreditar que o trumpa não se vai apresentar às eleições presidenciais em 2024 porque, como afirma o cronista John Carlin, neste sábado dia 6, ‘Si la panda de ignorantes, cínicos y lunáticos que cuentan con su apoyo triunfan el martes, se presentará seguro’.

(…)

Não há muito tempo, li uma crónica de um jornalista desencantado que partia de um mote, transformado numa afirmação cínica, ‘Já não existe política. Os partidos são agora como alimentação para crianças. Os sociais democratas são cúmplices no aumento dos cortes e taxas. Os comunistas viram-se reduzidos à antessala do nada’. Creio mesmo que este mote, esta afirmação quase demolidora, terá sido dada por um escritor desiludido com o ‘andar da carruagem’, que o cronista aproveitou para ‘cilindrar’ os políticos e a política, vista apenas como mera gestão do acontecido diariamente. 

Acontecido e a acontecer, como o avanço da tecnocracia, as mudanças nos meios de produção e a inerente mudança nas classes média e trabalhadora, as mais penalizadas por tais cortes e taxas, lado a lado com a relevância dada pelos media ao crescimento dos populismos, conservadorismos e outros valores autoritários, que quase fazem da esquerda um conceito remetido para as páginas dos livros de memórias e das fotos e preto e branco, a salientar a perda da sua valia política. 

Repare-se mesmo no mundo da cultura, aquele que poderia permanecer também como o campo onde crescem ideias, projectos e debates para se conseguir determinar e estabelecer caminhos futuros, com todas as limitações que os ‘poderes do mundo recortam e taxam’, por ser essa a função que se atribuíram para maior satisfação dos seus bancos, os únicos a celebrar tais corte e taxas, juntamente com os amigos e sócios das energéticas e matérias primas. 

A tal crónica do desencantado jornalista que deu origem a esta Carta, também me levou a uma outra afirmação de Klausewitz, o general prussiano e estrategista teórico e militar da guerra, ‘A guerra é a continuação da política por outros meios’, embora a minha opinião, sedimentada pelos últimos tempos, a guerra ser a substituição da política, por há muito também terem desaparecido os políticos, homens para quem a política era uma Arte, algo que os últimos abencerragens que enchem páginas e ecrãs, desconhecem totalmente, como demonstram o trumpa, o boçalnaro, o coronaboris, a Truss e mais uns tantos que não quero nomear, lá fora ou cá dentro,  para não manchar mais o texto. 

E é aqui exactamente que se vê o BCE a estender a mão, mas para agarrar pelo pescoço a classe média e os trabalhadores, porque as consequências de tais cortes e taxas vai ser um golpe mortal para milhões de famílias europeias endividadas pelas hipotecas que lhes permitiram aceder a alguns e modestos apartamento, negócio, carrito, por tudo ir sair dos bolsos dessa gente, pois o melhor dinheiro, está também nas arcas e bolsos das grandes entidades financeiras.

Um cenário que se pode imaginar, sem grandes esforços, porque a subida de tais taxas, aliada aos cortes, arrastará a subida da inflação que, no arrasto, apanhará nesta Europa a que pertencemos, alguns milhões de empregos, mais e muitas pequenas e médias empresas e, até os biscateiros, porque os pequenos arranjos também ficarão à espera de melhores dias. 

O político franco-suíço Benjamim Constant, citado por Viriato Soromenho Marques, numa das crónicas habituais no DN, afirmava há já duzentos anos, ‘Nos nossos dias, os particulares são mais fortes do que os poderes políticos; a riqueza é uma potência mais rapidamente disponível, mais aplicável para todos os interesses, e consequentemente mais real e mais bem obedecida’.

Frase que, pela sua idade, demonstra bem como a História sempre regressa ao seu erro primário e fundamental, a desigualdade. Sempre haverá ganhadores e perdedores, mas também e como sempre, serão os mesmos, quer se fale de guerra ou de política. 

E também haverá sempre maneiras diferentes de analisar esta ambiguidade: Luz Gabás, última vencedora do Prémio Planeta afirma ‘Os acontecimentos históricos condicionam a vida e as decisões dos personagens; a vida é como um rio que às vezes corre mansamente e às vezes se desborda’, uma maneira mais suave para explicar o que Bertolt Brecht afirmou de outra maneira ‘Do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem’. 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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