CARTA DE BRAGA – “da palavra e da língua” por António Oliveira
clara castilho
Na passada sexta feira, dia 5, assinalou-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Um bom amigo avisou-me disso em cima do acontecimento e, nesse mesmo dia, escrevi este texto para sair nesta quarta feira dia 10, na quase certeza de que os eventuais leitores me irão perdoar.
E começo com as palavras que se seguem, ditas por um dos homens mais sábios que li em toda a minha vida, José Saramago, usando, quase da mesma maneira, as que ele proferiu no discurso de aceitação do Prémio Nobel, em 7 de Dezembro de 1998.
“O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha por terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando até ao pasto a meia dezena de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a sua mulher.
Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinho da aldeia. Azinhaga era o seu nome, na província do Ribatejo. Chamavam-se Jerónimo Meirinho e Josefa Caixinha esses avós, analfabetos um e outro. No inverno, quando o frio da noite apertava até ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro de casa, iam buscar às pocilgas os leitões mais débeis e levavam-nos para a sua cama.
Algumas vezes, nas noites quentes do verão, depois da ceia, o meu avô dizia ‘José, hoje vamos os dois dormir debaixo da figueira’. Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para todas as pessoas da casa, a figueira.
Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer a saber o que significava… No meio da paz noturna, entre os ramos altos da árvore, aparecia-me uma estrela, e depois, lentamente, escondia-se atrás de uma folha, e, olhando eu noutra direcção, tal como um rio correndo em silêncio no céu côncavo, surgia a claridade translúcida da Via Láctea, o ‘Caminho da Santiago’, como assim ainda lhe chamamos na aldeia”
Mas estas curtas frases são suficientes para mostrar como a língua é um património único e íntimo, por pertencer a um mundo que inclui o despertar do homem, o mundo da cultura, que afasta da moleza e da modorra das convenções e megalomanias sociais, as que paralisam gentes pela banalização do presente e do politicamente correcto.
É a consequência da biografia de um povo que gravou no seu íntimo as formas e os jeitos de dizer e escrever as coisas, as que trocou e cambiou nas fronteiras com os povos seus vizinhos, mas criando uma individualidade única, que normas, decretos e editoras não ‘deviam’ mudar, porque, como todos os descobrimentos científicos ou não, todas as obras de arte e até revoluções, mesmo humanitárias e afirmativas, está também ligada à consciência desse mesmo povo.
E mantêm-se termos e hábitos que sempre ‘estacam’ se confrontados com pressões políticas ou mercantis, porque tal consciência não é nunca uma coisa em desuso ou antiquada, mas o sinal e cunho de origem, a garantia de ser uma cultura viva, a base da eternidade humana.
É aos homens que todos os dias a exercem entre os outros homens seus iguais, amparados pela pertença e pelo sentido ético, que compete mostrar como a gramática é apenas uma ferramenta, nunca uma lei.
Lembro-me de um escrito de Eduardo Prado Coelho, saído no ‘Público’ a quando do seu passamento em 2007, a dizer da variadíssima matéria prima que se precisava para construir um país, e dentre toda ela, afirmava pertencer a um –Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é “muito chato ter que ler”) e não há consciência nem memória política, histórica nem económica–.
E, umas linhas mais abaixo, acrescenta –Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa ‘outra coisa’ não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados… igualmente abusados!–
–Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias–
E as palavras há que conquistá-las, mas vivendo-as, garantiu Borges, como se depreende de um dos seus textos mais antigos, ‘Tamanho da minha esperança’ pois já disse alguém também, são milagre pré-histórico feito quotidiano e sagrado, a precisar de ser preservado de todas as vulgaridades.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor