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13 DE MAIO, por DIOGO MARTINS

 

Pobreza extrema. Fome. Escassez de acesso a informação que não fosse o missal debitado em língua desconhecida para quem o ouvia (o latim). Crianças suscetíveis a uma crónica de eventos onde a aparição, o milagre, o pecado e a expiação são omnipresentes. Poderes conservadores assustados com o ateísmo republicano e sempre em busca do ensejo de contra ele virarem o povo que controlavam. Imprensa ultramontana e sensacionalista disposta a amplificar qualquer evento que se opusesse ao republicanismo. Total ausência de escrúpulos. Manipulação de massas pelo castigo e pela salvação divinas.

Cada um crê no que quer. Mas, no caso de Fátima, o que se descreve acima está bem documentado em já extensa investigação histórica. Celebrar o 13 de Maio é glorificar o mais triste uso da religião por parte das elites. Primeiro nos anos finais da República e depois plenamente incorporado na doutrina oficial do Estado Novo com o advento do fascismo.

Sempre usado para preservar o poder de minorias pela força, quando a democracia liberal se mostra incapaz de garantir uma ordem que não lhes ameace o poder, o fascismo precisa sempre de se socorrer de elementos que lhe permitam forjar a popularidade ou, pelo menos, a branda aceitação entre a maioria do povo cujos impulsos teme e a cujos interesses se opõe. Como o fascismo descobriu durante o século XX (e os neofascismos continuam a explorar no século XXI) a religião é talvez um dos mais poderosos entre esses elementos.

Expurgado da religiosidade usada por alguns para limitar o seu escrutínio histórico, Fátima é somente um legado do obscurantismo herdado pelo Portugal democrático.

Celebrá-lo com o fervor e ausência de espírito crítico a que todos os anos se assiste é o retrato do falhanço da trajetória emancipatória de um povo.


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