CARTA DE BRAGA – “Avé Zapata” por António Oliveira
clara castilho
Quem viu, no tempo em que ainda não havia mastigadores do pipocas e se podiam ver filmes sem ‘barulhos’ colaterais, recordar-se-á de um deles, rodado em 1952 e reexibido montes de vezes, o ‘Viva Zapata’ dirigido por Elia Kazan, com guião de John Steinbeck e desempenho a condizer de Marlon Brando, que interpretava a figura de Emiliano Zapata na revolução mexicana de 1910, e até lhe valeu o Óscar de melhor actor em 1953.
Guardei durante anos um resumo das palavras de Zapata aos agricultores, para lhes ganhar o apoio e os convencer a lutar; palavras recuperadas muitos anos depois numa revista, quando elas já podiam circular à vontade por cá, –Esta terra é vossa e deveis defendê-la, ou deixará de o ser num instante. Defendei-a com a vida e os vossos filhos com a sua; não menosprezem os inimigos, porque voltarão; se vos queimarem a casa, construam outra, se vos queimarem as colheitas plantai outra vez, se os vossos filhos morrerem fazei mais, se vos expulsarem dos vales tendes as encostas! Vocês sempre procuraram chefes, mas não os há! Só há homens como vós! Os únicos chefes são vocês mesmos! Um povo que sabe ser forte é igual a uma fortaleza inconquistável–
Vem isto a propósito de uma declaração de Gilbert Houngbo, Director geral da Organização Internacional de Trabalho, tirada do DN do Primeiro de Maio, ‘As promessas feitas durante a pandemia, de “reconstruir melhor”, não foram até agora cumpridas e, globalmente, os salários reais diminuíram, a pobreza está a aumentar e as desigualdades parecem estar mais enraizadas do que nunca’. E Houngbo acrescenta ‘Precisamos de reavaliar e reformular a arquitetura dos nossos sistemas sociais e económicos, para que apoiem esta mudança de rumo no sentido da justiça social, em vez de continuarem a canalizar-nos para uma “espiral fatal” de desigualdade e instabilidade’.
Repare-se bem nessa situação, mas aproveitando as palavras de gente sabedora destas coisas, a começar por Eva Maldonado, assessora da presidência da Conferência Eurocentroamericana, ‘O BCE prevê voltar a subir a taxa de juro em Julho, e Lagarde diz ser improvável que tenham atingido o máximo. Estamos a caminho de um mundo de taxas cada vez mais altas, pelo incremento provável da despesa pública, na defesa e transição ecológica e energética, com taxas elevadas para conter a inflação’.
Esta afirmação, bem como outras recentes da presidente do BCE é comentada assim pela jornalista Ana Sá Lopes, ‘A frase em que Lagarde pede que não haja aumento de salários, e apela ao fim do apoio dos governos às famílias, é todo um tratado sobre a tirania europeia’ e o economista João Rodrigues, escreve no blogue ‘Ladrões de bicicletas’ nos últimos dias de Junho, ‘O euro foi feito para isto, da proibição do financiamento directo dos Estados pelo Banco Central, à grosseria ineficiente e injusta de tentar estabilizar preços através da recessão. A “independência” do Banco Central é a independência em relação aos interesses da maioria e a dependência em relação aos interesses de uma minoria endinheirada’.
E também aqui, neste blogue, o economista Eugénio Rosa, já tinha advertido em meados de Junho, ‘Há que resolver o que parece ser insolúvel,uma política efetiva de melhoria da qualidade do emprego, de aumentos salariais que melhorem as condições de vida dos trabalhadores, e uma política de remunerações que permita atrair e reter os trabalhadores mais qualificados e com maior competências, na Administração Pública e nas empresas, o que devia ser iniciado/implementado pelo Estado para dar o exemplo. Com o baixíssimo investimento que se tem verificado tudo isto é impossível’.
Outro conhecido economista, Ricardo Pais Mamede, deixou escrito também nos últimos dias de Junho, ‘Em 2011 havia um primeiro-ministro que queria ir –e foi– além da troika. Hoje temos um ministro das Finanças que quer forçar a redução da dívida e do défice, para lá do que as regras europeias obrigam. Isto mostra que a troika saiu do país, mas ficou nos corações de alguns portugueses. Incluindo alguns membros deste Governo’.
Está bem claro que não se podem comparar todas as situações citadas atrás, nem os tempos em que ocorreram e ocorrem, mas o poeta Luís Castro Mendes explica tudo isto bem melhor e simplesmente, numa das suas crónicas no DN, já nos primeiros dias de Maio, ‘A realidade das coisas e o próprio modo das opressões mudou de tal maneira, que por vezes é difícil reconhecer as “solicitações e emboscadas“ do nosso tempo. Se a linguagem de alguns inimigos da liberdade pouco ou nada mudou (penso na nossa extrema direita), outros modos de opressão mais sofisticados e hábeis persistem, pretendendo pertencer à ordem natural das coisas’.
Li algures, já não sei onde, nem se serão estas as palavras exactas, que o primeiro acto da persuasão é identificar o mal ou o prejuízo; sobre eles até se conseguem salvar nação, classe social e mesmo a pátria, porque o ingrediente comum do mal ou do prejuízo, é a falta de respeito e a arbitrariedade social inerente ao sistema, qualquer que ele seja; têm sempre raízes históricas e um tronco económico.
Avé Zapata!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor