Carlos Loures, meu irmão por António Gomes Marques
António Gomes Marques
Carlos Loures, meu irmão
Carlos Loures
por António Gomes Marques
Completarias hoje 86 anos se entre nós continuasses, mas tu há já muito que me dizias, de modo a que apenas eu ouvisse, quando nos despedíamos e eu te dizia «Até à próxima»: «Só espero não acordar amanhã». Para mim resultava em mais uma noite quase sem sono, rememorando sempre muito do que vivemos em conjunto.
Essa tua vontade acentuou-se quando já nem ao computador conseguias escrever o muito que tinhas para transmitir, com a tua cabeça a fervilhar de ideias, com uma lucidez que se manteve até ao fim.
Mais uma vez, não vou falar da tua obra, não sou capaz. Sempre que de ti me lembro, o que acontece frequentemente, para além de nas conversas com os amigos o teu nome surgir naturalmente, o que ocupa a minha memória são essas vivências, são as trocas de opinião, sem discordância por pensarmos praticamente o mesmo, não me lembrando eu de alguma vez termos chegado a conclusões diferentes. (Agora, a gargalhada quase saltou, ao lembrar-me de um desacordo que tivemos no Egipto, que já aqui invoquei, quando tu conseguiste mais votos e acabámos por ficar na esplanada do Hotel Sheranton, tendo como resultado tu e a Helena não terem conseguido comer o hambúrguer por as moscas deles se terem apoderado, enquanto eu, a Célia, a Ester e o Arsénio comíamos calmamente o que havíamos pedido. Eram estas as nossas divergências). O nosso amigo Adão Cruz escreve, no belíssimo texto a ti dedicado neste teu aniversário: «Com efeito, tu eras, como eu, um materialista no sentido filosófico do termo, não existindo, para nós, qualquer dualismo corpo-espírito.» Estas palavras, que «roubo» ao Adão, poderiam ter sido escritas por mim, pois elas expressam bem o que somos, os três, já agora.
Na segunda quinzena do mês passado eu e a Célia voltámos a Itália e não deixámos de recordar que fomos os quatro (tu, Helena, Célia e eu) pela primeira vez a Roma. As ruas por onde andámos, os monumentos que visitámos, o restaurante junto ao Vaticano que nos cobrou uma verba pela utilização de guardanapos de pano, de que tu fizeste uma paródia que nos fez dar umas valentes gargalhadas na nocturna Roma, da volta que me deste para eu fazer a vontade ao meu filho António Pedro, que queria comer um hambúrguer e eu lho recusava (ainda hoje me recuso a comer hambúrguer).
Que falta me (nos) fazes, Carlos!
Lembro que uma vez comemorámos o teu aniversário na minha aldeia, na casa que tinha sido a dos meus avós paternos. E sorrio ao lembrar o que a tua Helena dizia: «Que inveja eu tenho de ti quando tu dizes “a minha aldeia”», ela que tinha nascido na grande aldeia que é Lisboa.
No blogue, de que foste o principal criador e animador, procuramos ser fiéis às tuas ideias quanto aos textos a publicar. Muitas vezes, dos poucos textos que escrevo, me pergunto: «Que pensaria o Carlos sobre o conteúdo deste meu texto?»
Temos dedicado muita atenção à desastrosa guerra na Ucrânia, procurando o contraditório nos textos que vamos escrevendo ou que vamos traduzindo, combatendo assim o «pensamento único ocidental, made in USA», como eu costumo dizer, e que tu, estou certo, aprovarias e serias, certamente, um dos que mais textos ao tema dedicarias, com o profundo conhecimento histórico que sempre te caracterizou, com o objectivo de chegar à verdade e de tentar que quem pensasse diferente ao menos lesse algo que o fizesse pensar. Não impunhas nada a ninguém, argumentavas com conhecimento dos factos, com a inteligência aguda e a vivacidade habitual, mas sempre respeitando o outro. Repito: que falta me (nos) fazes; Carlos!
Mas essa falta não a sinto apenas nas discussões que habitualmente tínhamos e que nos levavam a superar dificuldades e a tirar conclusões, muitas delas políticas, sinto-a também na falta das nossas outras conversas, mais íntimas, entre nós dois e só entre nós dois, em que procedíamos como dois irmãos que se tinham escolhido e não por serem descendentes dos mesmos seres. Ah, meu querido irmão, nem imaginas a falta que me fazes.