Lembrando Carlos Loures, por António Gomes Marques

Lembrando Carlos Loures

por António Gomes Marques

Carlos Loures

Ontem recebi um telefonema do sempre atento João Machado a dizer-me: «Amanhã faz um ano que o Carlos partiu, tens de fazer um texto para o blogue».

Hoje, ao pensar no que escrever, fui inundado de recordações: as nossas muitas viagens por esse Mundo fora, os seus projectos de escrita e de associações políticas, tendo eu participado em algumas, mas também dos projectos teatrais que elaborámos em comum, em que pretendíamos adaptar alguns livros que nos marcaram; no entanto, foram as nossas conversas mais privadas que tivemos ao longo de décadas que me ocuparam —e ainda ocupam neste preciso momento— o cérebro, conversas essas que tinham quase sempre um objectivo e que, no fundo, procuravam resolver a dúvida que quotidianamente nos assaltava: como intervir para mudar este nosso país.

Outras conversas mais íntimas estão hoje apenas na minha memória e daí não sairão.

Nos primeiros anos do nosso convívio, que logo se tornou quase diário, ainda pensávamos que a sociedade socialista não era uma miragem, uma sociedade que não poderia ser semelhante à da URRS que visitámos, que de socialista nada tinha; depois, tomámos consciência de que, se um dia vier a acontecer, nós já cá não estaremos.

Esta última percepção foi por ambos adquirida na nossa visita a Cuba e mesmo antes de termos terminado a nossa deambulação pela ilha, em que completámos de carro mais de 3.000 quilómetros, visitando todos os locais que viveram e marcaram a Revolução, sem mesmo esquecer Moncada (os buracos das balas na parede ainda lá estavam evidentes), a Sierra Maestra e a Baía dos Porcos. Aconteceu precisamente em frente à entrada principal do Mausoléu de Che Guevara, na cidade de Santa Clara, quando as lágrimas me começaram a cair enquanto lia a carta de despedida, gravada numa das paredes com letras de ferro, lágrimas essas que não consegui controlar.

Mausoléu Che Guevara – Santa Clara, Cuba

in: https://www.journeylatinamerica.com/destinations/cuba/places-to-visit/trinidad-and-escambray-mountains/things-to-do/che-guevara-memorial-and-santa-clara-city/

Senti a mão do Carlos Loures no meu ombro, virei-me para ele e, perante o olhar claramente solidário, as lágrimas pararam. Mais tarde, ao jantar ou depois disso, não me lembro, falámos no acontecido e eu disse-lhe: «Não é pelo assassinato de Che Guevara que chorei, pois ele sabia que a escolha que fez teria como resultado a sua morte, mas pelo sonho que sinto perdido, pelo menos em nossa vida». «Eu sei», respondeu-me o Carlos.

De facto, a Revolução Cubana tinha ajudado a criar em nós o sonho de que a sociedade socialista, democrática, seria possível, reforçado esse nosso sonho por sabermos que o Fidel, o Che e os outros companheiros tinham avançado para a luta contra a vontade do Partido Comunista de Cuba, mas não contávamos com a estupidez do imperialismo americano, convencido já de que seria dono do planeta —e não só, provavelmente—, fazendo com que Cuba caísse nos braços da URSS, sem o auxílio da qual, verdade se diga, teria a Revolução Cubana pouco tempo de vida. Naquela visita a Cuba, a realidade que víamos no país, com muitas conversas com populares cubanos, que até as portas das suas pobres casas nos abriam, de braços abertos, muito contribuiu para tomarmos consciência de que tal sonho não seria realizado durante toda a nossa vida.

Outra conversa que não se apaga da minha memória tem a ver com a minha inscrição no Partido Socialista, sendo Jorge Sampaio o seu Secretário-Geral, o que confirmou em mim o quanto me tinha marcado o ter militado no MES – Movimento de Esquerda Socialista.

«Vais dar-te mal, António», disse-me o Carlos. Como ele tinha razão!

Passados uns anos, perante as críticas que eu vinha tecendo acerca das acções do PS, cada vez mais severas, o Carlos comenta: «O que é que estás a fazer nesse partido? Sai quanto antes!» Ainda demorou algum tempo o meu pedido de demissão de militante, mas na minha cabeça ressoam, às vezes como uma forte trovoada que me abana, as palavras do Carlos.

Meu querido amigo, meu irmão, que falta me fazes!

Portela, 2023-01-03

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