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Carta aberta ao Presidente da Câmara Municipal do Porto em defesa do Museu Nacional de Imprensa por Luiz Humberto Marcos

Luiz Humberto Marcos

Carta aberta ao Presidente da Câmara Municipal do Porto em defesa do Museu Nacional da Imprensa

por Luiz Humberto Marcos

 

Estimados Diretores / Editores / Amigos
Para conhecimento e eventual uso jornalístico, junto envio a Carta Aberta ao Presidente da CMP sobre as ameaças que recaem sobre o Museu Nacional da Imprensa.
Esta carta foi remetida a todos os partidos que integram o executivo camarário.
Pesa, de facto, um grande risco sobre o Museu.
Saudações do
Luiz Humberto

 

Exmos Senhores
Envio em ANEXO uma carta aberta ao Presidente da Câmara Municipal do Porto, tendo em vista a necessidade de se travar o risco de eventual destruição do Museu Nacional da Imprensa, instalado na freguesia de Campanhã, Freixo.
Esta Carta é remetida a todos os partidos que integram o Executivo Municipal, para que os seus representantes tenham conhecimento real dos factos.
Há uma ameaça que recai sobre o património singular que contem e representa aquele Museu, inaugurado em 1997 pelo presidente Jorge Sampaio.
Fechado em agosto de 2022 com o pretexto da falta de segurança (por avaria de alguns detetores de incêndio), o Museu continua ‘encerrado temporariamento’ 15 meses depois.
Até junho de 2022, altura em que a Presidência da CMP assumiu a direção dos destinos da AMI-Associação Museu da Imprensa, o MUSEU tinha para trás 25 anos de intensa atividade nacional e internacional, de que são exemplo as 750 exposições, o PortoCartoon-World Festival (23 edições), o Concurso de Textos de Amor Manuel António Pina (21 edições), o Projeto País de Gutenberg, a criação de um acervo único composto por dezenas de relíquias tipográficas, etc..
Esta tomada de posição resulta do facto de me parecer que a maioria dos membros do Executivo não tem informação exacta sobre o Museu, como se pode deduzir da aprovação, por unanimidade, de uma decisão de 24 de julho. Sugiro, de resto, que visitem as instalações para se aperceberem do que tem acontecido desde junho de 2022.
O Museu Nacional da Imprensa é um ativo cultural único e pertence à cidade do Porto.
Instalado numa zona que sempre despertou a ‘gula imobiliária’, o segundo museu nacional da cidade está, pois, neste momento ameaçado.
De facto, temo que se esteja a preparar um caminho para justificar a perda de uma instituição cultural que tanto custou a implantar-se no Porto.
Com cordiais saudações,
Luiz Humberto Marcos
(ex-diretor do Museu)

>>> Carta aberta ao Presidente da

Câmara Municipal do Porto em defesa

do Museu Nacional da Imprensa<<<

Senhor Presidente,

Só recentemente conheci a justificação da assunção do poder pela CMP na Associação Museu da Imprensa (AMI), em junho de 2022.

E fiquei atónito.

Lê-se no documento oficial (ata sobre a renúncia do seu representante como Presidente da Direção, Eng.o Nuno Lemos, 24.7.23) que tal decisão resultou do facto de “não existir uma atividade associativa que estivesse ao nível exigido para a missão da AMI”(sic).

E, lê-se, houve unanimidade do Executivo sobre a matéria.

Ora, perante o enviesamento da realidade, temo que esteja a ser preparada a destruição silenciosa do Museu Nacional da Imprensa.

Vamos por partes.

  1. A CMP ajudou a fundar a AMI, em 1989, quando Fernando Cabral estava à frente do município. De facto, foi há 34 anos que se constituiu a Associação Museu da Imprensa (AMI), entidade que gere o Museu Nacional da Imprensa (MNI).

Depois de um longo trabalho de pesquisa pelo país e da preservação de muitas relíquias tipográficas, o museu foi inaugurado (1997) pelo presidente Jorge Sampaio como o primeiro ‘museu vivo’ de Portugal.

Reconhecida como instituição de Utilidade Pública (governo de Cavaco Silva), a AMI obteve também o estatuto de “instituição relevante para o desenvolvimento científico e tecnológico do país” e de Manifesto Interesse Cultural. Com uma pequena equipa de técnicos, múltiplas doações e voluntariado, o museu foi crescendo e transformou-se numa instituição cultural forte, em termos nacionais e internacionais.

  1. Em 25 anos, o MNI montou centenas de exposições (750) em Portugal e no estrangeiro. E passou a ser um ‘ponto irradiador de cultura’ a partir do Porto, para todo o território nacional (do Minho e Trás-os-Montes ao Algarve e regiões autónomas). Com exposições documentais e, sobretudo, com o humor gráfico estabeleceu-se uma dinâmica singular que foi apreciada por diversos ministros e presidentes da Assembleia e da República que visitaram o Museu ao longo dos anos.

  1. Além do acervo singular, o Museu granjeou uma atenção especial a partir da criação do PortoCartoon-World Festival (1998/9), certame que rapidamente passou a ser um dos três principais emblemas do humor gráfico no mundo.

Por isso o Porto acolheu anualmente grandes artistas, designadamente Georges Wolinski (assassinado no Charlie Hebdo, em janeiro de 2015) que presidiu ao Júri do PortoCartoon de 2004 a 2014. Com Wolinski criou-se a Casa do Cartunista, único espaço no mundo destinado a ‘residências artísticas de humor’.

Todos os anos fez-se do Porto a capital do cartoon, com festas da caricatura e ruas do PortoCartoon.

Com este potencial, o Porto foi proclamado, em várias línguas, Capital (Internacional) do Cartoon, numa cerimónia especial que juntou diversos artistas internacionais, além de Wolinski, à volta da escultura de Siza Vieira, na Avenida dos Aliados. Este ato ficou a marcar o início de um Roteiro de Humor, em 2008. De forma inédita, internacionalmente falando, foram-se espalhando, ano a ano, esculturas de humor pela cidade. Ou seja, procurou-se contribuir para fazer brilhar o humor na urbe cinzenta. Paulo Cunha e Silva, o saudoso vereador da cultura, gostava disso, gostou de ser caricaturado, e chegou mesmo a acompanhar o PortoCartoon. Uma das esculturas, na Rua Sá da Bandeira, foi inaugurada por ele.

Aliás, foi Paulo Cunha e Silva quem ‘entronizou’ Wolinski como sócio honorário do Porto-Capital do Cartoon, em 2014. Antes disso, Wolinski apontou o MNI como exemplo para ser seguido em França. Falou dele ao ministro da cultura e disse-o publicamente.

  1. A par da sua atividade expositiva, o Museu foi criando laços internacionais através de protocolos, com instituições europeias e da américa latina. E criou também vários museus/galerias virtuais (24), na linha da singularidade da sua inauguração: Jorge Sampaio lançara na internet o 1o Museu Virtual de Imprensa do mundo.

  1. Por cá, avançou-se, em 2001, com o projeto ‘País de Gutenberg’, criando-se núcleos/museus de imprensa em diferentes cidades. O rico acervo associado à vontade de diversos autarcas permite criar-se uma “rede de museus” única que valoriza o património de imprensa existente em Portugal.

O trabalho do Museu resgatou muita história e maquinaria, relíquias, cuja conservação só foi possível com o grande espaço de armazém existente.

Criou-se um espólio singular, hoje avaliado em mais de três milhões de euros.

  1. Tornou-se público, desde há muito tempo, que o Museu, estando instalado numa ‘pérola ribeirinha’, provocava a gula de muitos pretendentes. Será por isso que o projeto está a ser asfixiado?

Como é sabido, as instalações do Museu são da Associação Museu da Imprensa. ‘Pertencem-lhe’ por mais 40 anos, de acordo com a escritura pública assinada em 1994 com o presidente Fernando Gomes, na presença do então ministro Luís Marques Mendes. Tratou-se de construir um museu sobre as ruínas da antiga fábrica de briquetes, adquirida pela autarquia. Das ruínas nasceu um ‘projeto utópico’ em que poucos acreditavam. E a AMI foi concretizando a sua missão, apesar de muitos entraves.

Quem pode contrariar esta verdade?

  1. O plano que o Sr. Presidente certamente travará – como defensor da cidade e em memória de Paulo Cunha e Silva – pode estar ligado ao fecho «temporário» do museu, decidido em agosto de 2022, com um pretexto singular: avaria de alguns detetores de incêndio!

Este fecho foi assumido pela nova direção da AMI proposta pela presidência da CMP, na qualidade de sócio fundador.

Já lá vão 15 meses e ainda não houve tempo… para consertarem os ditos detetores!!!

Ninguém acreditará noutras razões, conhecendo a premência da situação. Fechado, o museu não cumpre a sua missão, fica asfixiado financeiramente e degrada-se o seu património.

  1. Quando a presidência da CMP assumiu o controlo da AMI/Museu, a instituição continuava na sua linha de mais 30 anos de trabalho: tinha várias exposições e projetos em desenvolvimento, continuava a estar aberto 365 dias e tinha garantido os meios financeiros necessários ao seu regular funcionamento, designadamente com a contratualização de um restaurante panorâmico. O projeto deste restaurante passou por todas as instâncias técnicas e ficou “retido na mesa da presidência”. Na sua mesa. Tal como o processo apresentado na Ágora para a realização do PortoCartoon.

Tudo estava tranquilo e com condições para uma vida institucional progressivamente desafogada…

  1. Com a tomada da presidência da AMI pela CMP (junho de 2022), os resultados estão à vista: museu fechado, sem luz, nem telefone, e com os técnicos abandonados sem saber o que fazer; XXIII PortoCartoon suspenso; XXI Concurso de Textos de Amor Manuel António Pina também suspenso; Projeto País de Gutenberg parado; conservação técnica das máquinas suspensa, etc. Estamos perante uma folha de serviços dourada, ótima para os cartunistas que ainda não receberam informação adequada sobre a suspensão do PortoCartoon.

  1. Afinal, que “nível de missão” não estava a ser cumprido em junho de 2022 e passou a ser satisfeito nos 15 meses seguintes, sob a responsabilidade principal da presidência da CMP?

Porto, 18.11.2023

Luiz Humberto Marcos

(diretor do Museu Nacional da Imprensa até maio de 2022)

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