
Nota prévia
“Algumas reflexões ainda em torno do Joaquim Feio e da NOVA FEUC” é o terceiro texto de uma série de três dedicados à crise na Universidade. Trata-se de uma reflexão desencadeada a partir do meu corte umbilical com a FEUC feito em 28 de dezembro, dia de em que Joaquim Feio faria anos se estivesse entre nós.
Peço aos nossos leitores que vejam estes textos apenas como uma crítica ao sistema de ensino universitário em Portugal e nunca, mas nunca mesmo, como uma crítica pessoal contra alguém.
São textos que me foram muito difíceis de escrever, de reviver enquanto os escrevia, são textos que refletem uma realidade com a qual teremos que nos habituar a conviver, dada a incapacidade de a podermos esquecer. E fazer como o poeta Jacques Brel:
On n’oublie rien de rien
On n’oublie rien du tout
On n’oublie rien de rien
On s’habitue c’est tout
Como nota final devo agradecer aos meus revisores António Manuel Martins, Fernando Ribeiro, António Gomes Marques, Francisco Tavares, a enorme paciência havida em lerem e relerem mais do que uma vez os textos que agora editamos e a quem agradecemos as sugestões feitas.
JM
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Nota de editor: em virtude da extensão deste texto, o mesmo é publicado em quatro partes, hoje a segunda.
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20 min de leitura
2ª parte
O plano do curso de Economia foi agora conhecido pelo público, no qual me incluo, e tomo a liberdade de afirmar que, na minha opinião, desceu-se muito mais baixo do que aquilo que eu esperava com esse novo plano do curso para uma NOVA FEUC. Penso não me vou demorar sobre este tema. Vejo uma cadeira-chave a desaparecer do grupo das disciplinas obrigatórias e passada a disciplina de opção: a disciplina de Política Económica. Ian Tinbergen, prémio Nobel da Economia em 1969, deve estar a dar saltos no seu túmulo. O mesmo se passará com James Meade, prémio Nobel em 1977, para não falar de todo o grupo de Keynes ou de muitos outros como Stiglitz, prémio Nobel em 2001, Marriner Eccles, considerado o mais relevante banqueiro central americano de todos os tempos, assim como Brad De Long, Krugman, Michael Pettis, sendo este último considerado pelo Financial Times como um dos mais relevantes macroeconomistas da economia aberta no mundo de hoje. A terminar este conjunto de nomes, mesmo homens do sistema, como Olivier Blanchard e Lawrence H. Summers, rejeitariam liminarmente um plano de curso deste tipo como licenciatura em Economia. Disso não tenho dúvidas e basta-nos relembrar aqui a intervenção de Blanchard, na Fundação Feltrinelli num debate com Emiliano Brancaccio ou o texto conjunto de Blanchard e Summers publicado num simpósio que surge depois, na sequência deste debate.
A passagem de Política Económica de disciplina obrigatória a disciplina de opção traduz uma opção ideológica pura, representação da conceção de ensino em que se deve ensinar aos alunos que o Estado deve ter um papel mínimo na Economia. Curiosamente, é uma opção oposta à dos atuais dois gurus da macroeconomia, Olivier Blanchard, Lawrence Summers ou até mesmo de Piketty!
Mas sendo Política Económica uma disciplina de opção, por melhor que seja o professor, esta disciplina está condenada a ser um fiasco. É uma cadeira difícil para os níveis lowbrow em que querem que os estudantes se situem, se esta for ensinada com dignidade, com uma enorme carga de esforço, para estudantes a quem se faz tudo para se lhes reduzir a carga de esforço. Assim, ou o professor reduz a carga de esforço, facilitando, e dá notas muito altas para os compensar da sua opção, segunda exigência para uma disciplina de opção sobreviver, ou, se o não faz, os alunos debandam e procuram outras disciplinas mais fáceis e de notas mais elevadas. Neste último caso, o professor deixa de ter alunos e é colocado noutra disciplina e todo o trabalho feito e investido pelo docente no estudo daquelas matérias, e falo de um trabalho feito ao longo de muitos anos, reduz-se a uma fina camada de ar!
Mas há aqui um duplo revés científico. A disciplina Política Económica fica opcional, o que não era, o mesmo acontecendo à disciplina História do Pensamento Económico [2], duas cadeiras nobres que deviam ser de cunho obrigatório. Estarão ambas condenadas ao mesmo destino da disciplina de Finanças Internacionais, que lecionei durante vários anos, e da disciplina que lhe sucedeu, uma disciplina na área da macroeconomia que tinha as mesmas características de Finanças Internacionais. Olhe-se para a seriedade dos programas daquelas duas disciplinas e percebe-se esta minha crítica. Têm-se professores com perfil para as lecionar e desperdiçam-se! Foi isto que fiz, olhei cuidadosamente, e pensei com os meus botões: estarão os alunos desta NOVA FEUC à altura de programas tão sérios como estes? E isto para além da pergunta mais clássica: como é possível dar este programa com 3 horas por semana? Só por um verdadeiro milagre dos respetivos docentes, mas em milagres eu não acredito. Relegadas ao nível de opção, só lhes resta competirem pela baixa de qualidade e com notas altas para captar alunos. Triste destino quando se trabalha com seriedade, é a conclusão a que temos de chegar.
A propósito deste triste destino, deixe-me contar o que se passou comigo na disciplina de Finanças Internacionais, uma disciplina que nos jogos de Bolonha foi colocada em opção quando deveria ser obrigatória, e onde a qualidade e o nível de exigência se mantiveram e que eu saiba mantiveram-se mesmo depois do seu desaparecimento com a disciplina que lhe sucedeu. O nível da licenciatura ia baixando, estamos a falar pós-Bolonha, e o número de alunos que escolhiam esta disciplina ia também ele baixando, ano após ano. De perto de 50 chegou um momento em que eram 12 ou 13. Houve quem nessa altura quisesse encerrar a disciplina, mas a oposição foi frontal e a disciplina desta área foi-se mantendo com as características de sempre, mas continuando a ser de opção, até que chegou o Álvaro Garrido e a sua REFORMA. Mesmo antes desta sua reforma ter sido aprovada, mesmo antes disso, a disciplina que lhe sucedeu foi fechada. Tinha apenas 11 alunos, foi dito. Ninguém questionou porque é que tinha só 11 alunos. É de opção, tem poucos alunos, fecha-se. Fez-se não o que devia ser feito, fez-se o mais fácil, evitando-se a pergunta de fundo: se as matérias selecionadas tinham interesse no plano da licenciatura em Economia (e tinham) e se estavam pedagogicamente adequadas (e estavam), porque é que havia então poucos alunos inscritos? Esta era a pergunta que devia ter sido feita e não o foi.
Acabou-se com a disciplina e esta não aparece mais na sua licenciatura. A existência de poucos alunos é bem representativa do regime de facilitismo que se instalou e contra o qual sempre me bati. Cadeiras com razoável grau de complexidade e de relativa exigência, por muito bem organizadas que possam estar pedagogicamente, quando as notas não fazem parte do campo visual dos nossos estudantes de agora, são preteridas, eliminadas, pura e simplesmente. Simples a explicação. Foi isso que se fez.
Do meu ponto de vista, este é o destino que se espera para as disciplinas de Política Económica ou de História do Pensamento Económico. Estas, ou são uma pálida ideia do que deve ser cada uma delas, se passam aí a ser atribuídas notas elevadas aos seus alunos, e não merecem então os nomes que têm, ou, caso contrário, vão ter o mesmo destino de Finanças Internacionais: encerram-se. O meu amigo José Soares da Fonseca diz-me com alguma ironia: os alunos são agentes racionais em termos de curto prazo, escolhem o mais fácil e de mais rendimento (de nota mais alta). E o Soares da Fonseca tem razão, exceto no termo racionais, que corrigido do seu engano daria o que dá quanto às suas escolhas: os alunos nas suas opções são irracionais.
Mas deixemos este pormenor e olhemos agora para o plano do último ano da nova licenciatura em Economia:
Como obrigatórias temos no primeiro semestre Economia Internacional (6 créditos), Responsabilidade Ética e Sustentabilidade (6 créditos) e no segundo semestre Projeto Integrador (12 créditos!) O total das disciplinas obrigatórias representam então 24 créditos em 60. Soma-se uma disciplina gratuita para as gentes do meu tempo, a disciplina FEUC Skills [3], de que voltaremos a falar, que vale 6 créditos, como qualquer outra disciplina verdadeiramente lecionada, e ficamos com 30 créditos obtidos. Temos agora a obrigação de escolher duas disciplinas opcionais de Economia (12 créditos no total). Total de 42 créditos. Somemos agora uma disciplina de opção em Gestão (6 créditos), uma outra dita multidisciplinar (ou seja, uma disciplina à escolha de um grande leque de entre os cursos de Sociologia, ou de Gestão ou de Relações Internacionais) com 6 créditos e ficamos com 54 créditos. Faltam-nos 6 créditos para completar a sua licenciatura em Economia. Magnanimamente, a Faculdade disponibiliza a inscrição na FEUC Free, uma disciplina do 1º Ciclo que o estudante escolhe livremente, incluindo as definidas nos grupos de opções nos 2.º e 3.º anos da licenciatura em Economia que ainda não tenha escolhido.
Obtemos o valor mágico de 60 créditos que é necessário perfazer, sem adicionar mais nenhuma disciplina. A moral disto é que se pode terminar o último ano da licenciatura em Economia apenas com 3 disciplinas de economia em 10 disciplinas possíveis! Quando qualquer economista sério sabe que faltam espaços letivos em economia, mas na FEUC a resplandecer de nova, oferecem-se de barato disciplinas avulso, traduzindo uma licenciatura numa verdadeira manta de retalhos.
Mas olhando para o plano da licenciatura em Economia, da Nova Faculdade de Economia, vejo ainda cinco pormenores que penso valer a pena sublinhar:
- Discrepâncias entre horas letivas e créditos;
- Há disciplinas lecionadas durante a hora de almoço;
- Uma disciplina de Responsabilidade Ética e Sustentabilidade;
- A existência de uma disciplina, a valer por duas, dita Projeto Integrador;
- Há disciplinas que são apenas lecionadas em inglês. Que eu saiba, na Universidade de Leipzig, por exemplo, quem não souber alemão não a pode frequentar.
a) DISCREPÂNCIAS ENTRE HORAS LETIVAS E CRÉDITOS
A maioria das disciplinas tem como carga letiva 2h de Teórica + 2h de Práticas, ou 4 horas de Teórico-Práticas, com um total de 6 créditos, cada uma delas. Ficamos a saber que todas têm a mesma carga de esforço, o que é estranho, dando continuidade ao que já estava mal no curso anterior. Todos sabemos que isso não é verdade, exceto para os autores da reforma. Porém, fiquei pasmado quando olhei atentamente para as opções. As disciplinas de opção têm 3 horas de carga horária e não 4 e reparo que a estas 3 horas é atribuído o mesmo número de créditos que às disciplinas de 4 horas. O mesmo se passa com outras disciplinas de 3 horas, como Responsabilidade e Ética que não é de opção. Imagine-se alguém dizer que a disciplina Responsabilidade e Ética, ou qualquer outra de opção de 3 horas, têm a mesma carga de esforço que as Matemáticas, a Estatística, a Economia Internacional, para não me alongar em nomes de disciplinas de 4 horas. Como todas as disciplinas valem 6 créditos, isso equivale a dizer que 4 horas em disciplinas obrigatórias valem o mesmo que 3 horas nas outras disciplinas,Daqui se tira que:
44h = 33 h ou ainda
14h= 13h ou
13h=14h
Pura e simplesmente ficamos a saber que uma hora de Ética vale de uma hora em Matemática! Puro delírio dos seus reformadores, senhor diretor. Mas uma pergunta surge a este nível: será delírio ou incompetência em fazer um novo plano de curso? José Almeida Serra dá-me uma explicação curiosa: Júlio Mota, diz-me ele, ”peça a um qualquer destes jovens turcos que organize um curso articulado de 5 anos e verá a resposta. Simplesmente não sabem e não sabem porque não aprenderam para isso”.
Talvez José Almeida Serra tenha razão. Mais de vinte anos após Bolonha – e à medida que o volume dos saberes foi aumentando quase que exponencialmente – a caixa dos saberes destes jovens turcos foi ficando em franca contração, mesmo que aumentando a profundidade dos saberes que permanecem na referida caixa [4]. Por outro lado, os velhos foram-se reformando e os de meia-idade, agora à frente das Instituições, adaptam-se, por um lado, à agressividade dos colegas mais novos, dos jovens turcos, dos jovens docentes que têm como única bandeira, pior que a sua carreira o seu “canudo” e, por outro, aos efeitos dos rumores e atitudes criados e ampliados por quem quer um diploma ao preço mais baixo possível. Nesta bipolaridade vivem a conviver com um e outro lado, dos professores jovens turcos ou dos jovens estudantes que só pretendem o diploma, ou até a conviverem com os dois em simultâneo, numa estranha coligação e num constante viajar entre os dois pólos. Assim, nessa estafante ocupação, põem de lado, tendo como pano de fundo as suas múltiplas concessões que vão fazendo, o dever de salvaguardar a Universidade dos ataques de uns e de outros e de a levar a bom porto. Pior, desta forma não se formam profissionais que verdadeiramente sirvam para as necessidades mais exigentes das empresas atuais.
Sobre o que me dizia José Almeida Serra, talvez, estranhamente, tenha mais razão no caso de uma licenciatura de 3 anos! Aqui a “expertise” tem de ser muito maior. Com este tipo de créditos por disciplina perfazem-se os 180 créditos exigidos para se ter o grau de licenciado. Se estas disciplinas de 3 horas tivessem os créditos correspondentes ao tempo de lecionação valeriam 4,5 créditos e não seis créditos. Seriam então necessárias mais disciplinas para perfazer os 180 créditos exigidos.
Mas podemos ir um pouco mais longe e deixemos a disciplina de Responsabilidade Ética e Sustentabilidade de lado, pois uma Faculdade não é uma catequese, e falemos das outras disciplinas que são opcionais, mesmo que falemos apenas rapidamente delas. Não têm as disciplinas de Política Económica, História do Pensamento Económico e Economia Europeia e da Integração a mesma dignidade e importância que as outras disciplinas de carga horária de 4 horas [5]? Não terão estas disciplinas matéria útil e necessária num curso de Economia para serem ensinadas em carga horária de 4 horas e isto quando são disciplinas únicas num curso sobre as matérias a que se referem? Mas aqui impõe-se um esclarecimento importante. Tendo em conta que são disciplinas específicas, isto é, sem nenhum suporte especial de disciplinas lecionadas em anos anteriores, deveria ser imposta a sua obrigatoriedade e, mais ainda, com uma carga de 4 horas. Em face do caminho que este plano de curso me permite, pois, vislumbrar, sinto-me levado a perguntar: será que mais uma vez, depois da miséria que já se fez com Bolonha e até mesmo depois de Bolonha, ainda se quer abastardar mais o ensino universitário, fazendo aquilo a que os anglo-saxónicos chamam de ensino simplificado dito ‘lowbrow’, ensino simplificado [6], dito também ensino de baixo nível? Esta é uma pergunta que lhe deixo no ar.
E deixo aqui uma questão fundamental. Todos sabemos que o mundo de amanhã será muito diferente do mundo de hoje. Se não os ensinamos sequer a pensar o mundo de hoje, que preparação/interrogação se deixa aos alunos relativamente ao mundo de amanhã? Nisso, nem sequer se fala.
b) HÁ DISCIPLINAS LECIONADAS DURANTE A HORA DE ALMOÇO
Olhei com cuidado para o mapa de afetação dos docentes e vejo uma coisa espantosa: aulas a decorrerem na hora de almoço, e muitas. Vejamos alguns exemplos:
- Cálculo e Instrumentos Financeiros – TP1: Terça-Feira e Quinta-Feira, 13:30. Uma cadeira de Cálculo e Instrumentos Financeiros na hora do almoço, que dizer disto?
- Informática para Economia e Gestão – Quinta-Feira, 13:00, 3h (o sublinhado é meu)
- R (é o nome da disciplina!) para Economia e Gestão – Terça-Feira, 13:00, 3h (o sublinhado é meu)
- Direito Económico e Empresarial – TP1: Terça-Feira e Quinta-Feira, 13:00, 2h (o sublinhado é meu)
- Matemática para Economia e Gestão I – TP1: Segunda-Feira, 13:00, 2h (o sublinhado é meu)
Uma pequena história pessoal sobre aulas à hora de almoço:
Quase no fim da minha vida profissional colocaram-me a dar aulas como aqui está indicado, na hora do almoço. Em cada tarde que isso acontecia, eu ficava meio tonto, sem capacidade de discernimento e com dores de cabeça durante toda a tarde. Uma das vezes tive até uma ”branca”: fiquei cerca de dois minutos parado a olhar para o quadro. Só um aluno deu por isso, o Hugo Tavares, um aluno brilhante que raramente brilhava nas notas alcançadas porque era aluno que trabalhava de noite. Depois deste pequeno acidente informei os serviços que se me dessem o mesmo tipo de horário solicitaria a passagem à reforma e deixaria de dar aulas.
Este tipo de horário significa um total desrespeito pelo ato de ensinar, pela pessoa de muitos dos professores dedicados seriamente ao ensino [7] e de quem está na sala de aula a ser ensinado. Não esqueçamos que os alunos estão sujeitos a filas de espera nas cantinas e que muitos terão de comer à pressa para conseguir chegar às aulas e que, por outro lado, existem condicionantes físicas e mentais para lecionar nestas condições, tanto para professores (alguns) como para alunos. Já alguma vez se levou o corpo docente e discente a refletir nisso?
c) DISCIPLINA DE RESPONSABILIDADE ÉTICA E SUSTENTABILIDADE
Utilizando a linguagem de senso-comum, diria que Ética só se ensina nas Igrejas e pratica-se na sociedade. Mas pretende-se falar de ética na atividade económica, nos negócios em geral, ou talvez e sobretudo, nos mercados financeiros e bolsas de mercadorias, em particular?
Quanto à ética na atividade económica, diria que uma disciplina deste tipo só teria sentido se a massa de conhecimentos sobre a atividade económica fosse suficiente para poder justificar uma disciplina deste tipo, mas uma massa de conhecimentos suficiente para justificar a existência de uma tal disciplina não se adquire em nenhuma licenciatura sob o regime de Bolonha. Só muito depois.
Dou um exemplo: há ainda muito pouco tempo, um génio da finança, Bill Hwang, fez apostas de muitos milhares de milhões nas bolsas, com swaps de retorno total. Fez disparar um conjunto de títulos e era esse o objetivo, mas não se libertou a tempo desses swaps. Algumas empresas cujos títulos tinham subido assustadoramente, por escassearem perante as apostas feitas por Hwuang, aproveitaram a embalagem e fizeram novas emissões. Os títulos desceram e Hwang faliu, os bancos que enfiaram o dinheiro nos swaps ficaram a arder com essa falência e as grandes empresas emitentes ganharam. A vida é um jogo, a finança é um seu exemplo maior, e discutir isto é discutir o que é especulação, onde, em quê e como. Não é possível problematizar este instrumento financeiro com essa base de conhecimentos, a menos que, e mais uma vez, não nos situemos no ensino tipo ‘lowbrow’! Talvez um outro exemplo, mas ainda mais contundente, seja o dos fundos de pensões sustentados por estratégias LDI [Liability Driven Investment]. LDI- é o nome dado a investimentos cujo direcionamento é feito pelos passivos (valores devidos). Para discutir estes instrumentos em termos de ética, veja-se a massa de conhecimentos, inclusive de macroeconomia e de política económica, que previamente deveria existir e que não pode existir neste plano de curso, por falta de espaço de lecionação adequado para o aluno poder fazer uma análise crítica do sistema! Ficará antes pela “demonstração” (não demonstrada) de que o pilar das pensões de reforma via solidariedade intergeracional é um fiasco relativamente ao sistema de pensões por capitalização. Lamento dizer isto: para mim este tema não merece mais nenhuma linha; até porque é fundamental nas sociedades modernas e levantará imensos problemas brevemente.
d) A EXISTÊNCIA DE UMA DISCIPLINA, A VALER POR DUAS, DITA PROJETO INTEGRADOR.
Diz-nos a FEUC:
“Projeto Integrador: trabalho aplicado, realizado em grupo, que permite um contacto com a realidade profissional, promovendo o desenvolvimento de competências transversais e a integração de conhecimentos.”
A FEUC esclarece ainda melhor sobre este projeto que vale por duas disciplinas, pois vale 12 créditos:
“Métodos de Ensino
Tendo em conta a promoção da autonomia no desenvolvimento do Projeto, o trabalho do grupo desenvolve-se enquadrado por reuniões regulares de discussão e acompanhamento com o docente responsável. O estudante será orientado para a realização de ações de formação/ workshops, e assistir a palestras que contribuam para o desenvolvimento do seu projeto. O progresso do projeto (plano de trabalho, relatório intercalar, relatório final e apresentação final) é acompanhado de acordo com um calendário pré-definido e comunicado no início do semestre.
Programa
O projeto integrador desenvolve-se no âmbito de um tema geral definido anualmente pela Faculdade de Economia e concretizado em projetos definidos com a colaboração de entidades externas. Os projetos podem ser executados numa de três modalidades: i) Projeto empresarial (PE) – resolução de um problema real ou realista de uma organização; ii) Projeto Aplicado (PA) – análise de um problema relativo ao contexto económico nas usuais múltiplas vertentes (ex: territórios, setores, instituições, políticas …); iii) Projeto de investigação (PI) – participação num projeto de iniciação à investigação. Os conteúdos de cada projeto serão definidos de acordo com a modalidade e a temática definida.”
Avaliação
Tendo em conta a natureza da unidade curricular e a diversidade dos projetos a desenvolver, a bibliografia é variável e está a cargo do docente responsável por cada projeto” Fim de citação
Cai-se na mesma crítica da alínea anterior, não há base de conhecimentos pela parte dos alunos para se poder fazer alguma coisa de jeito ao nível que é aqui pressuposto, integrar conhecimentos, mas aqui deve-se ir criticamente mais longe.
É uma disciplina sem programa de conteúdos, o que faz logo desconfiar. Faz-se um forte apelo aos parcos conhecimentos adquiridos no pressuposto que estes são suficientes para constituírem a base de qualquer projeto com os objetivos deste, em vez de se ter pensado num projeto criador de conhecimentos para os alunos.
Pessoalmente não quereria estar no papel dos responsáveis a estabelecer um programa ano após ano. É de doidos, diria eu. Neste caso, penso que só há aqui duas saídas possíveis: ou se finge que tudo corre bem, e não vejo os responsáveis do dito projeto a assumirem este papel ou terão depois de assumir que isto é um fiasco e que é necessário mudar de modelo ou de poiso. Neste último cenário, teremos todo o seu trabalho intelectual em torno do projeto a transformar-se numa finíssima camada de nada.
Deixo-lhe aqui, senhor diretor, a minha experiência pessoal e com ela vou ser muito rápido. Em Economia Internacional e em Finanças Internacionais, utilizámos muito a realização de trabalhos, trabalhos por nós selecionados -imagine-se o trabalho que isto dava anualmente, pois não havia repetições de temas de trabalho durante dois anos -, o que implicava uma renovação constante dos temas. Na primeira aula, explicavam-se os esquemas de avaliação. Depois de explicar aos estudantes o sistema de avaliação associado à elaboração de trabalho, propunha-se que os estudantes se organizassem em grupos de 3. Depois, marcava-se uma entrevista com todos os elementos de cada grupo com a qual se pretendia obter uma ideia dos conhecimentos obtidos e das motivações dos respetivos alunos. Um dos esquemas consistia em dar, a cada grupo de trabalho, um manual de referência de Economia Internacional como, por exemplo, o manual de Peter Kenen. Indicavam-se-lhes dois capítulos seguidos, referentes apenas à matéria lecionada na disciplina e adicionava-se um terceiro capítulo do mesmo manual, mas que não era de matéria lecionada. Pedia-se um trabalho de síntese das ideias explicadas por Kenen de forma articulada e em aproximadamente 5 páginas por capítulo [8]. O texto do terceiro capítulo, aquele que incidia sobre matéria NÃO lecionada, raramente era um texto entendível. Era impressionante a diferença. Os meus colegas Margarida Antunes e Luís Peres Lopes, este implicado pelas funções que exerce atualmente na reforma do Plano de Curso de Economia, poderão confirmar o que acabo de referir.
Podíamos encontrar aqui várias explicações para esta abissal diferença, mas a mais simples, mais direta e mais óbvia é de que os estudantes não estavam ainda em condições de estudar sozinhos, mesmo em textos que eram feitos para o seu nível: textos de um manual. Refira-se que estamos a falar de cursos que eram de 4 ou 5 anos, portanto para estudantes de maturidade necessariamente superior aos de agora, e estas duas disciplinas estavam situadas no quarto ano. Hoje, o curso é de três anos. A diferença parece pequena, mas um ano representa hoje (1/3) da vida ativa como estudante a tempo pleno! Adicionalmente, os estudantes de hoje não dispõem de melhor formação do que os do meu tempo de final de carreira, antes pelo contrário, e, sendo assim, é para mim óbvio que a unidade Projeto Integrador está condenada a ser um fiasco, o que não posso nem devo acreditar dada a idoneidade dos seus responsáveis, mas não tenho outra saída senão pensar que vai ser um enorme fiasco. Sinceramente creio nesta hipótese.
Este princípio de presunção de autonomia do estudante subjacente à disciplina dita Projeto Integrador é o culminar de práticas pedagógicas em crescendo a que assisti quando saí da FEUC: os alunos a ocuparem o espaço de lecionação em substituição do professor. Hoje, mais ainda, penso que, com a degradação do ensino, um drama geral de que ninguém quer falar pois é politicamente incorreto, só há um tipo de aulas que se deve realizar: aulas em que a figura central volte a ser o professor, dialogante e mestre, e não basicamente o aluno, aulas clássicas, teóricas, práticas e teórico-práticas, mas aulas lecionadas com o cérebro, com a alma, com o giz e, de vez em quando, com o apoio de “powerpoints” ou ainda de qualquer outro meio de multimédia, desde que não se abuse destes. Falo aqui de aulas que não sejam meras reproduções de manuais, obviamente de qualidade, ou de outro tipo de textos, digitais ou não, mas sejam antes uma reconstrução pessoal do professor desses conteúdos, adaptando-os aos alunos que se têm e a pensar no que se pretende que eles devem ser [9]. Uma prática letiva como esta, significa uma outra visão do espaço de aula e da posição do professor dentro dela, em que se interage com a sala, via perguntas e respostas (ou contra a ausência destas) em oposição ao que se assiste hoje: alunos passivos, ou mentalmente ausentes, professores leitores de “powerpoints” e de costas voltadas para os alunos, e assim nos adaptamos aos alunos que temos.
O que acabo de afirmar constitui hoje a inovação pedagógica necessária ao ensino e a substituir as recentes inovações pedagógicas que só têm conduzido à incapacidade do aluno em suportar com concentração uma aula, uma conferência de uma hora, um debate seja em que Faculdade for. Ter Faculdades cheias de gente que é incapaz de assistir a aulas que não sejam ficar a olhar passivamente para “powerpoints” é, simplesmente, um verdadeiro drama e, os responsáveis não são os alunos, são aqueles que os preparam para que sejam assim. Falo de uma realidade que por via familiar conheço bem e não tem nada especificamente a ver com a FEUC, com a Faculdade de Ciências ou outra, pois é um problema geral. Esta é a realidade em geral e, reconhecê-la, é fazer um mea culpa perante o que hoje já se sabe sobre o nível dos recém-licenciados em Portugal e de que as entidades empregadoras já começam, silenciosamente, a ganhar consciência (simples exemplo, procurem saber que habilitações têm muitas das caixas de supermercados). Lamento dizer-lhe, caro diretor, eliminar esta realidade é bem mais importante do que a pressa tida com a atual Reforma e, isto, independentemente da qualidade que esta possa ou não ter.
Sejamos frontais: o que acabo de expor significa que o caminho a seguir não é o do facilitismo que me parece implícito nesta lógica de cadeiras de 3 horas, de Projeto Integrador, e de outras práticas pedagógicas, outrora passíveis de serem tomadas como inovadoras, e muitas foram-no, mas que agora representam pura e simplesmente uma regressão na aprendizagem e um aprofundar no mercado subterrâneo dos trabalhos e teses feitas em nome dos alunos e pagas enquanto tal. A experiência do Covid demonstrou-o para quem ainda teima em ter dúvidas…
e) HÁ DISCIPLINAS QUE SÃO APENAS LECIONADAS EM INGLÊS
O meu texto vai longo e não estou muito interessado em continuar a falar do plano de curso. Quanto à questão do inglês, recomendo a leitura dos artigos de Bacelar Gouveia publicados no jornal Público, e recomendo ainda que tentem saber quais são as tendências que se desenham nos outros países da Europa quanto à utilização de línguas estrangeiras no ensino em Universidades nacionais. Também era bom publicitar nas disciplinas de economia lecionadas em inglês quantos alunos nacionais optam pela lecionação nesta língua, quantos iniciam esse ensino e quantos o concluem. E conviria refletir, depois do francês, a seguir do inglês, que outras línguas serão dominantes no Planeta daqui a 20 anos.
Uma coisa afirmo e muito seguro do que estou a dizer: é um nonsense fazer o ensino em inglês. No caso português, não temos alunos portugueses em número suficiente e com conhecimentos suficientes para aulas em inglês, para ouvir e pensar numa língua que não é a nossa. Ouvir uma aula e pensar em termos científicos na língua estrangeira em que essa aula foi ouvida não é a mesma coisa que trautear uma canção, seja ela dos Doors, de Bob Dylan, de Tracy Chapman, de Ani DiFranco, ou de um outro qualquer artista songwriter de qualidade, compreenda-se isso [10]. A agravar a situação, no meu tempo de professor, a maioria dos estrangeiros de Erasmus que chegavam à FEUC sabiam menos inglês do que eu e eu praticamente não sei falar e ouvir em inglês, apesar de saber ler mais ou menos bem em inglês. Em face de tudo isto, não entendo essa loucura pelo inglês. Se fosse no meu tempo e me obrigassem a dar aulas em inglês eu poria a Faculdade em tribunal, não tenha dúvidas, mas acrescente-se que eu seria incapaz de lecionar em inglês.
Talvez a explicação de tudo isto passe pela pressão sentida pelos atuais responsáveis em optar pela internacionalização, com o consequente efeito da baixa de qualidade, em vez de uma diferenciação pela qualidade. Sobre isto em tempos escrevi o que abaixo reproduzo:
“No caso português, a internacionalização do ensino superior terá sido acelerada, por um lado, pelo programa Erasmus e pela máquina administrativa para esse efeito criada, e, por outro lado, por uma trajetória ostensivamente virada para o exterior, e independente do programa Erasmus, que se terá iniciado com a Universidade Nova de Lisboa e os seus cursos na variante em inglês. Duas vias de expansão que se dinamizam entre si e cujo efeito foi o aprofundamento da internacionalização do ensino superior. Um processo que lentamente se foi depois espalhando no imaginário dos estudantes e das suas famílias, um pouco como a nódoa de azeite em pano de linho branco. Mas fala-se mal português nas nossas Universidades e será que nelas se irá falar melhor em inglês, nestes cursos de variante em inglês?
Um exemplo das Faculdades abertamente chegadas a este processo de internacionalização é-nos dado agora pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, FEUC. Com efeito, diz-nos o diretor da FEUC, no Diário das Beiras, de 2 de dezembro de 2021:
“No ano letivo de 2022-23, no primeiro semestre, daremos início a um curso de pós-graduação em Relações Económicas Internacionais, lecionado em língua inglesa, que construímos em parceria com a City University de Macau, na sequência de negociações estabelecidas com apoio da Reitoria da UC. Além disso, estamos a preparar um curso de mestrado, também em inglês, na área das Relações Internacionais (um Erasmus+) e vamos renovar os planos de estudos das licenciaturas e mestrados em Economia e Gestão no sentido da sua acreditação internacional, que é muito exigente e supõe um claro aumento das dinâmicas de mobilidade internacional dos estudantes. Além destes processos de renovação, estamos a concluir a acreditação internacional do MBA Executivos, cuja qualidade é cada vez mais reconhecida, e vamos criar, já em setembro de 2022, uma Pós-Graduação em Marketing Digital no âmbito do Mestrado em Marketing, que está a ser renovado para esse fim. Em breve, teremos também um salto de renovação da oferta formativa numa área em que a FEUC tem um fortíssimo reconhecimento, a Economia Social.
A via da internacionalização desejada é aqui mais que evidente na esteira do que outros também já fizeram. Nada a dizer deste ponto de vista quanto à FEUC em particular. ”Fim de citação deste meu texto enviado em março de 2023.
Ainda quanto ao ensino em inglês, um amigo meu de longa data teve a filha na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa na versão com aulas em inglês. O que ele me dizia era que se falava aí, um lugar de elite e para as elites, um inglês macarrónico. E como é que se ensina em inglês macarrónico? Como será nos outros lugares? Bom, em tempos muito recentes contaram-me uma história curiosa. Alguém concorreu para lecionar numa Faculdade deste país. Informaram a candidata que tinha sido aceite e disseram-lhe ainda que teria de lecionar em inglês e a candidata reagiu, dizendo que não aceitava o lugar. Explicaram-lhe: a senhora faz os “powerpoints” em português, nós traduzimo-los e a senhora lê-os nas aulas. Se não ler muito bem, não há problema, eles também não entendem bem o inglês. Talvez seja inventada esta história, talvez, mas verdadeira ou imaginada, representa bem os tempos de aulas em que a ”alma” do Professor desapareceu na maior parte das aulas que se lecionam nas Universidades e que é substituída por um ecrã, mas não se perde nada em relembrar Bacelar Gouveia. Ele conta outra história não menos curiosa: uma aula de Direito num Mestrado em Portugal é lecionada em inglês por um professor português, para estudantes portugueses. Ridículo!
Aqui, quanto ao inglês, dou uma explicação possível. Existem pelo menos cinco línguas de inglês, o inglês original, com as suas variantes históricas, há o inglês falado da União Europeia, repleto de neologismos de difícil entendimento, há o inglês irlandês, bem difícil, há o inglês americano e alguma da sua linguagem figurada e há o inglês macarrónico de múltiplas variantes, de múltiplas docas, de muitas canções trauteadas, de muitos filmes legendados ou ainda de muitos espaços em que continuamente se simula estar a trabalhar para se poder viver continuamente em festa.
Serão as Universidades portuguesas clones das docas ou de outros lugares no que se refere ao inglês e ao seu modo de encarar o mundo ou, alternativamente, clones dos parques de estacionamento social onde jovens universitários adultos à espera de empregos precários pretendem continuamente viver em festa, enquanto se lhes vai vendendo cursos de pós-graduação [‘lowbrow’] numa massificação crescente do ensino?
(continua)
Notas
[2] Curiosamente a perda de estatuto de uma disciplina como História do Pensamento Económico não acontece só aqui. Como assinala Ben Fine em: “ a história do pensamento económico, como um campo dentro da ciência económica, oferecia muito poucas respostas, uma vez que se tornou mais ou menos marginalizada e a tal ponto que, posteriormente, os seus profissionais a deixaram institucionalmente e mudaram-se – de forma total – deslocando-se para a história da ciência, a fim de obterem uma audiência e algum status.” (Ben Fine Economics Imperialism and Interdisciplinarity: Before the Watershed Critical Reconstructions of Political Economy volume 1, cap. 1. ed Brill, Leiden-Boston)
[3] Segundo a FEUC, a disciplina de ”FEUC Skills: atividades de soft skills adquiridas ao longo da licenciatura que reconhecem um conjunto de competências técnicas, pessoais, interpessoais e linguísticas, num total de 6 ECTS. Dentro destas o requisito de Língua Inglesa é obrigatório, devendo os/as estudantes fazer prova em como possuem as competências necessárias, apresentando certificado nível B2 ou realizando exame. A avaliação final será Aprovado / Reprovado. ”O que dantes faria parte do curriculum pessoal de cada estudante e quando muito estaria em anexo a um diploma universitário, a apresentar em qualquer candidatura de emprego, equivale agora ao ensino formal, avaliado em ECTS, mas que dispensa a frequência de aulas! Dispensam-se comentários, apesar de para muitos isto ser considerado um avanço na estrutura curricular!
[4] O físico Niels Bohr explicou isto de uma outra forma: saber cada vez mais de cada vez menos até saber quase tudo de quase nada (Cito de memória).
[5] Ao terem apenas uma carga de 3 horas digam o que é que de sério se pode lecionar nelas, dada a importância curricular destas disciplinas.
[6] Sou levado a crer que na criação da NOVA FEUC houve disciplinas intencionalmente a desvalorizar e entre elas esteve a área de Macroeconomia com a disciplina de Finanças Internacionais (nome antigo) e depois Macroeconomia Internacional, que em vez de se tornar uma disciplina obrigatória, foi eliminada e agora claramente com a disciplina de Política Económica colocada com uma carga de 3 horas semanal e optativa! Mais ainda, considero que este é o exemplo mais contundente da viragem neoliberal da Nova FEUC. Porque no plano dos factos representa a minimização do Estado em Política Económica, à boa maneira de Alan Greenspan e no plano teórico representa a subalternização da Macroeconomia à Microeconomia. Aqui, e aqui mais uma vez, cito Ben Fine de uma obra a ser publicada em 2024 quando nos diz: “ Mas a estagflação da década de 1970 deu origem à contra-revolução monetarista mais estreitamente associada a Milton Friedman. No entanto, em última análise, de modo igual mas intelectualmente muito mais importante ou abrangente, algo mais estava a ganhar força, possivelmente menos suscetível de ser reconhecido devido ao dramático desaparecimento do keynesianismo anteriormente hegemónico, tanto como campo de estudos macroeconómicos como sendo o fundamento para um intervencionismo muito mais abrangente. De um modo geral, a contra-revolução monetarista assinalou também um ponto de viragem para a inversão da hierarquia macroeconómica/microeconómica no seio da disciplina. Por sua vez, esteve associada a dois efeitos importantes para a nossa narrativa. Em primeiro lugar, os campos aplicados ficaram sujeitos à “teoria”, isto é, à microeconomia, e foram excluídos como alternativas, sobretudo na apropriadamente designada Nova Economia do Desenvolvimento e no Consenso de Washington, exemplos da primeira fase do imperialismo da economia (tratar tudo como se, e para ser transformado em mercados perfeitamente funcionais) por excelência. Isto significava até que ponto o imperialismo da economia estava a colonizar internamente a disciplina da economia, sobretudo a própria macroeconomia, com a sua redução à microeconomia. Com a Nova Economia Clássica (NEC), e a emergência das expectativas racionais, dos indivíduos representativos, etc., a macroeconomia foi cada vez mais levada aos extremos da microeconomia, e as hipóteses assumidas passaram a adequar-se mais à teoria económica do que ao tema da economia que estava a ser objeto de análise.
Em segundo lugar, e subsequentemente, deu-se a restauração do keynesianismo (hidráulico) através da informação assimétrica, da economia das imperfeições de mercado, consolidando-se (em vez de romper com) a dependência em termos da microeconomia e muitos dos pressupostos extremos associados à Nova Economia Clássica, tais como expectativas racionais, indivíduos representativos e redução das finanças à oferta e procura de moeda. Entretanto emergiu o Novo Consenso Macroeconómico, que se tornou hegemónico até ser brutalmente abalado pela crise financeira global, expondo, mesmo para os seus defensores acérrimos, o quão empobrecida a macroeconomia se tinha tornado em termos de conteúdo e de âmbito. Com ciclos económicos reais e mudanças nas tecnologias a serem tratadas como choques aleatórios, o Nova Economia Clássica é a macroeconomia tratada como sendo microeconomia, e não só levada a extremos, mas também de formas extremas. Lucas (2003) declara que a microeconomia tem a perspetiva de tornar a macroeconomia supérflua, possivelmente ao definir como economia apenas o que pode ser feito pela microeconomia”, em Ben Fine, Economics Imperialism and Interdisciplinarity: Before the Watershed Critical Reconstructions of Political Economy volume 2, Capítulo 10. ed Brill, Leiden-Boston, ainda no prelo e com publicação prevista para 2024.
Um exemplo de tudo isto: um aluno pode sair da FEUC sem saber sequer o que é uma taxa de câmbio efetiva (multilateral) nominal ou real e não poderá sequer entender decentemente um relatório do BCE!
[7] Para uns tantos convém-lhes particularmente a hora de almoço, para terem menos quebras na preparação e/ou elaboração dos seus trabalhos tomados como de investigação, uma vez estes são sempre hipervalorizados face ao ensino que se assume institucionalmente como uma atividade menor.
[8] Nem sempre foi este o tipo de trabalhos. Noutros tempos e com bons alunos sugeriam-se livros de leitura para sintetizarem. Três exemplos, o de José Reis, Pimpão e de uma colega, talvez de nome Edite, sobre Troca Desigual, o de Pedro Pinto, empresário desta cidade, e de um seu colega sobre International Countertradeou menos longinquamente o trabalho de Rita Martins e da Carlota Quintal sobre um livro de Bourguinat, se nestas coisas a minha memória ainda não me falha. Curiosamente, esta última é hoje uma das pessoas responsáveis pelo novo curso de Economia, segundo consta no sítio FEUC. Em Gestão, onde os alunos de referência não abundaram, refiro-me ao meu tempo, posso aqui referiras duas Patrícia, Moura e Sá, da atual direção da FEUC, e Pereira e Silva, da atual equipa reitoral da UC. Devo, de igual modo, referir os dois Filipe, Soveral e Almeida. O Filipe Soveral é hoje professor associado numa das mais prestigiadas Universidades brasileiras, a Getúlio Vargas, e o Filipe Almeida é atualmente Presidente da Estrutura de Missão Portugal Inovação Social. Tudo dito quanto à qualidade de todos estes alunos.
Dois detalhes sobre os últimos alunos de Gestão aqui referidos:
a) com as duas Patrícia deu-se uma história curiosa. Dada a nota alta que lhes ia dar, conferi alguma solenidade ao final da discussão do trabalho, o que as fez recear uma reprovação, mas isto, isto é passado, quando é sobre o presente que nos devemos preocupar.
b) com o Filipe Soveral devo referir o orgulho que qualquer professor deve sentir em ter um aluno seu como professor numa tal Universidade, quanto mais eu que fui seu professor e me considero amigo destes dois antigos alunos e, com o Filipe Almeida, devo aqui salientar também a frontalidade com que criticou publicamente a trajetória da FEUC e os seus novos planos de curso. Uma atitude tanto mais relevante quanto, que eu saiba, é uma posição única, tão única que pode ser encarda como um cântico de vida num mundo de silêncios.
[9] Qualquer antigo aluno meu sabe bem que esta foi sempre a minha prática como docente, ou seja, lecionei sempre com o cérebro, com o giz, com a alma, ou, dito de outro modo, sem “powerpoints”. Direi assim que lecionei sempre com uma posição tão “dadivosa” quanto exigente face à ignorância dos alunos. Era, e ainda hoje é, a melhor forma de os respeitarmos. Este comportamento tem um nome: espírito de missão, em contraponto com o espírito de hoje que tem outro nome: espírito de carreira. E é com este último que se podem ter hoje muitos catedráticos com uma idade abaixo dos 50 anos.
Curiosamente, esta minha posição foi há tempos bem referenciada por um colega de grupo de trabalho em que estava uma outra das minhas alunas brilhantes, a ministra Ana Abrunhosa, aluna de licenciatura, de mestrado e minha orientada em tese de mestrado, quando, numa conversa com o Soares da Fonseca, se referiu à preocupação que eu tinha com o nível de cultura económica dos meus estudantes. Era simples o exemplo que o aluno referia: eu comprava o jornal Le Monde e, se achava que era importante que os meus alunos tivessem conhecimento de dado artigo, traduzia-o, não havia “internet” nem tradutores automáticos, pagava muitas vezes as fotocópias e distribuía-as gratuitamente nas aulas. Isto não se inscreve, naturalmente, em nenhuma linha de curriculum para progressão de carreira.
Ainda a propósito de Ana Abrunhosa, refiro aqui uma situação curiosa. Depois de ter passado a Economia Internacional (creio ter sido com 17 valores para o máximo dado até à minha saída que era 18) ela, que era a autora dos melhores apontamentos que já vi, foi à minha aula de apresentação da disciplina no ano seguinte falar do seu método de estudo e tornar disponíveis os seus apontamentos para todos os meus alunos, o que também não é habitual, mesmo naquele tempo, que ainda era um tempo de solidariedades.
[10] Não faço ironia com a questão linguística. Em tempos que já lá vão, tive uma aluna alemã que vinha a Portugal fazer um ano híbrido: Letras, diversas literaturas, e Economia. De Economia matriculou-se apenas em Economia Marxista e em Economia Internacional. Como alemã, chegou a Portugal a saber português. O problema colocou-se quando a bibliografia para ela era toda em inglês e não era bibliografia fácil. Tinha que ser lida em inglês e pensada em alemão. Na discussão do trabalho utilizaram-se três línguas: o alemão só ela e para ela, pensava em alemão, o inglês entre ela, eu e o Joaquim Feio, e o português entre mim, o Joaquim Feio, ela e a Maria João Oliveiros. O papel do Joaquim Feio era também a de apoiar a estudante nas questões linguísticas. Teve, creio, 17 valores, o máximo que dei na vida foi 18! E ainda hoje me lembro: impressionou-me a solenidade que ela própria conferiu ao exame.
