CARTA DE BRAGA – “de tractores e bobos” por António Oliveira
clara castilho
Entraram roncando motores, conduzindo máquinas de rodas bem grossas, estranhas em cima dos asfaltos lisos que nem sabiam daquelas máquinas, nem de condutores assim, ignorando semáforos e outros veículos, andando lentos e a entupir o trânsito, levantando cartões e cartazes a pedir preços justos, tanto aqui como noutras cidades desta Europa dos dinheiros e muito pouco dos trabalhadores, a começar pelos dos campos, aquele lugar que já foi modo de vida e, agora, dizem eles. nem de sobrevivência.
Protestam contra o oligopólio dos compradores, demasiado poucos para os muitos vendedores, mas que controlam a distribuição bom como a comercialização dos seus produtos, impondo as condições que eles mesmos estabelecem; e, paradoxalmente, os diferentes estados apareceram logo a condenar a União Europeia, ao mesmo tempo que lamentam o antieuropeísmo crescente, com a extrema direita a assistir a tudo, chamando a atenção para o que foi desbaratado pelos governos instalados num centro que, diz, aparentemente democrático.
E de acordo com o catedrático em Direito e Ciência Política Antón Losada, ‘Os dos tractores até têm razão quando reclamam as mesmas exigências de qualidade e controle aos produtos importados, para evitar a concorrência desleal, quando reclamam mais agilidade nas ajudas para atenuar os efeitos da seca, enquanto se rega o sector automóvel com todo o tipo de ajudas, já ajudado por um abrandamento administrativo no campo ecológico, absolutamente contrário à severidade que lhes é imposta’.
Por detrás de tudo isto, deverá estar o mundo ‘tenebroso’ das subvenções, do ‘quem a quem’, de que pouco ou nada se sabe ‘cá fora’, mas que, no fundo, até nem quer dizer ‘dinheiro’, mas sim outra palavra, usada agora a propósito dos mais misteriosos e dificilmente explicáveis programas, ‘liberdade’, ouça-se a tal extrema!
E por me parecer que eles, os dos tractores, só querem ser independentes, usar a propósito essa outra palavra agora também tão malvista, ‘empresário’, mesmo pequeno, mas dono e senhor da sua própria actividade, vendendo os produtos do seu lugar ‘até talvez hipotecado’, fora daquele oligopólio castrador, o que lhe paga o que produziu, a preços por vezes inferiores ao que lhes custou ‘fazê-los’; será para isso que pedem o apoio das várias entidades a caminho ou em frente das quais passeiam as grandes rodas dos seus tractores.
Uma ‘chatice’ nesta época de pressas, com toda a gente citadina sempre a querer chegar ‘ontem’, e barrada por gente que nem entendem, a dos campos, ‘nem temos nada a ver com a vida deles!’, até sem ver, tanto aqui como por essa Europa fora, a enorme lição que eles nos estão a dar, a de se unirem e actuarem sem ser a pedido de sindicatos ou partidos, mas apenas por um problema que os afecta a todos, e este todos representa a eles, a família, actividade, vida presente e futuro, a exigir coisas complicadas, talvez sem as terem planeado com os pormenores que uma qualquer luta, mesmo deste tipo, exige.
O próprio da valentia, dizia Aristóteles, ‘Não é produzir dinheiro, mas confiança’ e, Eduardo Galeano, completa esta afirmação ‘O direito ao trabalho, já se reduz ao direito de trabalhar pelo que te querem pagar e nas condições que te querem impor, e nunca teve tanta actualidade o velho provérbio “o vivo vive do bobo e o bobo do seu trabalho”’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor