CARTA DE BRAGA – “do tempo e dos ponteiros” por António Oliveira

Deus criou o tempo e o homem inventou a pressa

Este antigo provérbio inglês adapta-se perfeitamente aos tempos actuais, pois ‘O desenvolvimento da tecnologia não está servindo para multiplicar o tempo do ócio e os espaços de liberdade, mas está multiplicando a falta de emprego e semeando o medo’, deixou escrito Eduardo Galeano, no seu livro ‘De pernas para o ar’.

Mas o tempo nem existe’, palavras que o jornalista e escritor Manuel Vicent colocou na boca de um padeiro, ‘porque deixou que nós fabricássemos as horas’ e acrescentou ainda Vicent, ‘Numa hora fez um pão galego, estaladiço e perfumado no forno de lenha e numa hora a professora abriu a mente aos seus alunos e desenhou no quadro o mapa para a ilha do tesouro’. 

Se alguma coisa herdámos da Modernidade, a principal foi a máquina com todas as suas metáforas, bem expostas nos mostradores e na infinidade de ponteiros que nos vão comandando a vida, a começar pelo relógio, já antecipado pelo de sol. 

Como não era transportável, as torres das igrejas inventaram os campanários, onde os sinos marcavam o princípio e o final do dia de trabalho, permitindo aos senhores marcarem os dízimos das colheitas, do cuidar da criação ou do tempo de trabalho, dizendo serem as Horas do Anjo, mas chamando-lhes ‘As trindades’.

Talvez isso tenha levado a que muitas autoridades locais, quando tiveram oportunidade para tal, tratassem de instalar relógios nos seus próprios edifícios, para que o tempo fosse retirado dos campanários, mostrando como o tempo secular nas mãos da Igreja, poderia ter outras medições, avaliações e arbitragens. 

Mas o desenvolvimento da tecnologia e as crises que a acompanham (coronavírus inclusive!) parece ter dado origem a uma celeridade terrível aos acontecimentos, na passagem dos dias, mostrando como a obsolescência programada passou a ser uma instituição, tal como as apps dos aparelhos tecnológicos, se alteram tão depressa e da mesma maneira que mudam as modas (se ainda as há?!?). 

Voltando a Eduardo Galeano, ‘Quem não teme ser um náufrago das novas tecnologias, da globalização, ou de qualquer outro dos muitos mares revoltos do mundo atual? Furiosas, as ondas golpeiam: a ruína ou a fuga das indústrias locais, a concorrência de mão de obra mais barata de outras latitudes, o implacável avanço das máquinas, que não exigem salário, nem férias, nem gratificações, nem aposentadoria, nem indemnização por demissão, nem qualquer coisa além da eletricidade que as nutre’.

Tudo isto leva a termos pressa só quando não temos tempo, sem nos lembrarmos que a Terra está a sofrer as consequências de um processo de alterações ontológicas aceleradas, afirma Viriato Soromenho Marques, porque ‘O planeta não se encontra fisicamente ameaçado, pois continuará a rodar no espaço em torno do Sol, ainda por muitas centenas de milhões de anos. O que corre risco de colapso irreversível, nas próximas décadas, são as miraculosas condições biofísicas do Sistema Terra, que suportam a exuberância de vida no planeta. Condições de que a humanidade moderna se apoderou de modo predatório, irresponsável e potencialmente suicidário’.

Voltamos ainda a Manuel Vicent, para salientar, ‘Deus criou o tempo, disse o canalizador, quando chegou a casa, mas numa hora arranjou a torneira, o aquecedor e o tanque da água e, Otis Redding, sentado no molhe do cais da baía, deixou que passassem as horas, a ver entrar e sair os barcos’.

E alguém disse também num qualquer dia, mesmo sem me lembrar quem foi, nem quando e onde o fez, nem se foram estas as palavras exactas, ‘Só esperamos por sabermos que morreremos. Se fossemos imortais não haveria espera!’.

E creio bem que até nem haveria mostradores nem ponteiros! 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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