

Entraram roncando motores, conduzindo máquinas de rodas bem grossas, estranhas em cima dos asfaltos lisos que nem sabiam daquelas máquinas, nem de condutores assim, ignorando semáforos e outros veículos, andando lentos e a entupir o trânsito, levantando cartões e cartazes a pedir preços justos, tanto aqui como noutras cidades desta Europa dos dinheiros e muito pouco dos trabalhadores, a começar pelos dos campos, aquele lugar que já foi modo de vida e, agora, dizem eles. nem de sobrevivência.
Protestam contra o oligopólio dos compradores, demasiado poucos para os muitos vendedores, mas que controlam a distribuição bom como a comercialização dos seus produtos, impondo as condições que eles mesmos estabelecem; e, paradoxalmente, os diferentes estados apareceram logo a condenar a União Europeia, ao mesmo tempo que lamentam o antieuropeísmo crescente, com a extrema direita a assistir a tudo, chamando a atenção para o que foi desbaratado pelos governos instalados num centro que, diz, aparentemente democrático.
E de acordo com o catedrático em Direito e Ciência Política Antón Losada, ‘Os dos tractores até têm razão quando reclamam as mesmas exigências de qualidade e controle aos produtos importados, para evitar a concorrência desleal, quando reclamam mais agilidade nas ajudas para atenuar os efeitos da seca, enquanto se rega o sector automóvel com todo o tipo de ajudas, já ajudado por um abrandamento administrativo no campo ecológico, absolutamente contrário à severidade que lhes é imposta’.
Por detrás de tudo isto, deverá estar o mundo ‘tenebroso’ das subvenções, do ‘quem a quem’, de que pouco ou nada se sabe ‘cá fora’, mas que, no fundo, até nem quer dizer ‘dinheiro’, mas sim outra palavra, usada agora a propósito dos mais misteriosos e dificilmente explicáveis programas, ‘liberdade’, ouça-se a tal extrema!
E por me parecer que eles, os dos tractores, só querem ser independentes, usar a propósito essa outra palavra agora também tão malvista, ‘empresário’, mesmo pequeno, mas dono e senhor da sua própria actividade, vendendo os produtos do seu lugar ‘até talvez hipotecado’, fora daquele oligopólio castrador, o que lhe paga o que produziu, a preços por vezes inferiores ao que lhes custou ‘fazê-los’; será para isso que pedem o apoio das várias entidades a caminho ou em frente das quais passeiam as grandes rodas dos seus tractores.
Uma ‘chatice’ nesta época de pressas, com toda a gente citadina sempre a querer chegar ‘ontem’, e barrada por gente que nem entendem, a dos campos, ‘nem temos nada a ver com a vida deles!’, até sem ver, tanto aqui como por essa Europa fora, a enorme lição que eles nos estão a dar, a de se unirem e actuarem sem ser a pedido de sindicatos ou partidos, mas apenas por um problema que os afecta a todos, e este todos representa a eles, a família, actividade, vida presente e futuro, a exigir coisas complicadas, talvez sem as terem planeado com os pormenores que uma qualquer luta, mesmo deste tipo, exige.
O próprio da valentia, dizia Aristóteles, ‘Não é produzir dinheiro, mas confiança’ e, Eduardo Galeano, completa esta afirmação ‘O direito ao trabalho, já se reduz ao direito de trabalhar pelo que te querem pagar e nas condições que te querem impor, e nunca teve tanta actualidade o velho provérbio “o vivo vive do bobo e o bobo do seu trabalho”’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor