Site icon A Viagem dos Argonautas

CARTA DE BRAGA – “o sheriff de Nottingham e sapatilhas” por António Oliveira

Sir Walter Scott, foi um baronete escocês, que adorava história, poesia e literatura, o que o levou a escrever variadíssimas obras, a mais conhecida das quais foi o romance histórico. ‘Ivanhoe’, uma estória de cavalaria, em que dois cruzados, um normando e outro saxão, se vêem em campos opostos, quando regressaram, apesar de terem lutado lado a lado, em terras do Médio Oriente.

Mas os ‘lugares’ mais importantes da estória acabam por ser ocupados por duas figuras secundárias à partida, Robin Wood, ‘o chefe de um grupo bandidos que roubava aos ricos para dar aos pobres’ e o sheriff de Nottingham, que cobra impostos excessivos aos mais pobres, sempre em nome do príncipe João, irmão de Ricardo Coração de Leão, ido também na mesma cruzada, mas com o regresso atrasado, o que permitia que João pensasse mais em enriquecer à custa dos seus sheriffs.

Este curioso e ficcionado conjunto de pessoas, embora algumas com existência histórica real, levou o advogado Josep Jover, gestor de conflitos e jornalista, a servir-se de alguns deles para caracterizar, de algum modo, os tempos que atravessamos, principalmente no campo económico.

Transcrevo, traduzindo, algumas afirmações de um seu artigo no ‘Diario16’ daqui ao lado, que tem por título ‘A síndrome do sheriff de Nottingham; e explica Jover, ‘Definiríamos este sintoma como a acção de roubar os mais desprotegidos, para beneficiar os mais afortunados’, tal qual a lenda de Robin dos Bosques, ‘Aquela figura mítica que rouba aos ricos para dar aos pobres’.

Lembrei-me de juntar esta estória de um cronista, a um parágrafo que li no DN de 20 do mês passado que também transcrevo, ‘As mexidas nos escalões mais baixos serão ténues e reflectem poupanças anuais que vão dos 51,22 euros no caso de um contribuinte solteiro e com um rendimento mensal bruto de 1300 euros, aos 102,45 euros para um casal com dois titulares e 1 filho com o mesmo rendimento, de acordo com as simulações da EY para o DN / Dinheiro Vivo’, isto a propósito do futuro do IRS.

O economista João Rodrigues, no blog ‘Ladrões de bicicletas’ refere nove dias depois e, a propósito, o agora senador Mario Draghi, um dos rostos das troikas e da desvalorização interna, que terá de elaborar um relatório sobre competitividade para a UE, até final de Junho, reconhece, tarde e a más horas, a perversidade dessa opção de classe, numa intervenção onde antecipa os principais pontos do tal relatório: ‘Prosseguimos uma estratégia deliberada para tentar diminuir os custos salariais uns em relação aos outros, combinando isso com uma política orçamental pró-cíclica [de austeridade], o que teve como efeito líquido enfraquecer a nossa procura interna e minar o nosso modelo social’.

Por cá só temos, diz João Rodrigues, ‘Centenas de milhares de postos de trabalho destruídos em Portugal e centenas de milhares de compatriotas compelidos a emigrar, (fugir diria eu) devido a esta opção evitável. Na realidade, não há um modelo social europeu, existindo, isso sim, Estado sociais nacionais, desde há décadas expostos à máquina liberalizadora e austeritária da UE, em geral, e do euro, em particular’.

Não me canso de dizer que estes meandros das Economias, me continuam a ser bem estranhos e, por vezes, só me apetece ter umas boas sapatilhas, por pensar a mesma coisa que o herói desta pequena estória que voltei a ler há dias, ‘Duas pessoas correm a fugir de um leão; uma pára para calçar sapatilhas e a outra pergunta porquê, se nunca será mais rápida que o leão; não tenho de ser mais rápido que o leão, só quero ser mais rápido que tu, responde já de sapatilhas nos pés’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

Exit mobile version