Pintor e poeta maior da cultura e literatura espanholas e mundiais, Rafael Alberti, autoexilado no México, Argentina e depois em Itália, deixou uma obra extensa e premiada mundialmente, onde manifestou uma oposição frontal a Franco e aos malefícios de um regime que manchou a história da humanidade entre 1936 e 1977.
Conhecedor dos malefícios da guerra e do problemas que gerava entre as populações devido à propaganda de um lado e de outro, em plena guerra civil, Alberti deixou escrito um fantástico e aterrador poema, ‘Nocturno’, cujo alcance pode e deve chegar aos nossos dias e aos nossos ‘mentores’, sejam eles quem forem, porque as palavras parece já não contarem para coisa alguma.
E, por não querer aviltar as suas, com uma tradução deficiente, aqui fica o poema, na escrita original
Cuando tanto se sufre sin sueño y por la sangre
se escucha que transita solamente la rabia,
que en los tuétanos tiembla despabilado el odio
y en las médulas arde continua la venganza,
las palabras entonces no sirven: son palabras.
Balas. Balas.
Manifiestos, artículos, comentarios, discursos,
humaredas perdidas, neblinas estampadas.
¡qué dolor de papeles que ha de barrer el viento,
qué tristeza de tinta que ha de borrar el agua!
Balas. Balas.
Ahora sufro lo pobre, lo mezquino, lo triste,
lo desgraciado y muerto que tiene una garganta
cuando desde el abismo de su idioma quisiera
gritar lo que no puede por imposible, y calla.
Balas. Balas.
Siento esta noche heridas de muerte las palabras
É a voz ‘autorizada’ pelo sofrimento e pela dor, seja qual o lado em que se estiver, porque é só a do pobre, do mesquinho, do triste, do desgraçado e morto que até tem garganta, e desde o abismo da sua impotência, até quer gritar e cala, por as palavras estarem feridas de morte. Os outros estão sempre ao lado dos poderosos!
E, até por isso, é um tormento e uma tortura, que também nos leva a Wilson, a personagem de ‘1984’ de Georges Orwell, ‘Da dor só se podia desejar uma coisa: que parasse. Não há nada no mundo como a dor física. Frente à dor, não há heróis, nenhum herói’.
A terminar, também para aqui transcrevo uma opinião de Viriato Soromenho Marques, numa das crónicas semanais do ‘DN’ deste mês, ‘Quem considere ser de esperar que esta guerra tenha de seguir o seu curso de destruição até que uma nova ordem se possa reerguer, está a esquecer que uma guerra central entre potências nucleares apenas trará consigo a paz eterna dos cemitérios’.
A confirmação plena de como a guerra é o fracasso absoluto da civilização, porque, ‘Siento esta noche heridas de muerte las palabras’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor