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UM SORRISO – de ANDRÉ BRUN

(1881 - 1926)

 

 

(1881 – 1926)

 

Não se trata do sorriso histórico da Gioconda que, imperturbavelmente, dentro da sua moldura do Louvre, propõe às gerações que passam o enigma do rictus amável da sua face. Não me refiro tão pouco ao daquela arquiduquesa  das Recepções da embaixada, que sorria, tão branca e tão decotada…

Quero celebrar, enquanto é tempo e neste modesto cantinho de prosa, que é bem meu e só meu, o sorriso que deve a estas horas pairar nos lábios do sr. de Rosen, ministro da Alemanha em Portugal.

Meus valorosos irmãos de armas chacinados em África pelos soldados do Kaiser, esse homem sorri e tem todo o direito de sorrir! Oficiais, que, de espada erguida caminhastes sem hesitação para a morte, lembrando a Pátria distante e dando por ela, com as vossas vidas, o luto dos que hoje vos choram, soldados, que, ao gesto de quem vos mandava, carregastes sem vacilar o inimigo que afrontava a vossa terra e pôde suster o vosso arranco de vindicta, há um homem em Portugal o qual sorri, recordando-se que, a milhares de léguas, ainda há portugueses sacrificando-se pelos mais nobres e levantados deveres.

O direito de sorrir deram-lho aqueles que, nesta hora cruel e dolorosa para todos os que estimam a sua Pátria e quando atracam aos cais os vapores para conduzir a longínquas paragens os reforços das tropas cujo primeiro esforço foi vencido, acabam de depositar nas suas mãos o cartão de felicitações da nação portuguesa pelo aniversário do seu amo imperial, aquele bárbaro contra o qual se concitam os ódios e o rancor do mundo inteiro civilizado.

Com esse cartão foram depostas aos pés do Teutão, que armou os vândalos do Cuangar e de Naulila, as lágrimas das vossas mães, das vossas viúvas, dos vossos órfãos. Que belo presente de aniversário e como não há de sorrir o representante entre nós desse homem que vestiu de luto algumas dezenas de famílias portuguesas!

Que pena que não possais erguer-vos das vossas covas, ó mortos gloriosos, para virdes resgatar esta nova humilhação e levantar da lama essas lágrimas sacrossantas!

29 de Janeiro de 1915

 

In Sumário de Várias Crónicas. Factos e Momentos (à memória de Paulo Barreto). Guimarães & C.ª Lisboa, 1923.

 

Quando André Brun escreveu este texto acabava de cair em Portugal o governo de Azevedo Coutinho e de tomar posse o de Pimenta de Castro. O massacre de Cuangar e os combates de Naulila, no sul de Angola, desastrosos para os portugueses, que tinham de enfrentar ataques alemães, partidos do chamado Sudoeste Africano, actual Namíbia, tinham ocorrido meses antes. Não será exagero fazer o reparo de que a situação de subjugação perante as grandes potências de mantém cem anos depois, embora com certeza que com algumas alterações conjunturais. Enfim. O que dirá o André Brun, lá no céu, a ver isto tudo…

Quanto à arquiduquesa das Recepções da embaixada, julgamos que Brun se referia a uma passagem da obra poética de António de Macedo Papança, conde de Monsaraz.

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