
Não se trata do sorriso histórico da Gioconda que, imperturbavelmente, dentro da sua moldura do Louvre, propõe às gerações que passam o enigma do rictus amável da sua face. Não me refiro tão pouco ao daquela arquiduquesa das Recepções da embaixada, que sorria, tão branca e tão decotada…
Quero celebrar, enquanto é tempo e neste modesto cantinho de prosa, que é bem meu e só meu, o sorriso que deve a estas horas pairar nos lábios do sr. de Rosen, ministro da Alemanha em Portugal.
Meus valorosos irmãos de armas chacinados em África pelos soldados do Kaiser, esse homem sorri e tem todo o direito de sorrir! Oficiais, que, de espada erguida caminhastes sem hesitação para a morte, lembrando a Pátria distante e dando por ela, com as vossas vidas, o luto dos que hoje vos choram, soldados, que, ao gesto de quem vos mandava, carregastes sem vacilar o inimigo que afrontava a vossa terra e pôde suster o vosso arranco de vindicta, há um homem em Portugal o qual sorri, recordando-se que, a milhares de léguas, ainda há portugueses sacrificando-se pelos mais nobres e levantados deveres.
O direito de sorrir deram-lho aqueles que, nesta hora cruel e dolorosa para todos os que estimam a sua Pátria e quando atracam aos cais os vapores para conduzir a longínquas paragens os reforços das tropas cujo primeiro esforço foi vencido, acabam de depositar nas suas mãos o cartão de felicitações da nação portuguesa pelo aniversário do seu amo imperial, aquele bárbaro contra o qual se concitam os ódios e o rancor do mundo inteiro civilizado.
Com esse cartão foram depostas aos pés do Teutão, que armou os vândalos do Cuangar e de Naulila, as lágrimas das vossas mães, das vossas viúvas, dos vossos órfãos. Que belo presente de aniversário e como não há de sorrir o representante entre nós desse homem que vestiu de luto algumas dezenas de famílias portuguesas!
Que pena que não possais erguer-vos das vossas covas, ó mortos gloriosos, para virdes resgatar esta nova humilhação e levantar da lama essas lágrimas sacrossantas!
29 de Janeiro de 1915
In Sumário de Várias Crónicas. Factos e Momentos (à memória de Paulo Barreto). Guimarães & C.ª Lisboa, 1923.
