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CARTA DE BRAGA – “da mentira a Brecht” por António Oliveira

Dizia Hannah Arendt, qualquer coisa como isto, referindo a política, ‘É um universo de ficção que pressupõe a mentira, o mito, a ilusão, a fantasia e a utopia’, (mesmo sem saber bem se serão estas as palavras exactas), pelo que só a ética poderá fornecer a argumentação necessária para um combate político contra as forças que têm como fim a extinção da máxima ‘Liberdade, Igualdade, Fraternidade’, símbolo de uma sociedade livre, ou do retorno das forças que a anularam durante décadas, e pelas mais diversas formas.

A democracia diz Xavier Mas, um cronista daqui ao lado, ‘Entendida como um mercado político, permite a promoção e venda de todo o tipo de produtos, mas onde a satisfação do consumidor-eleitor baixa, quando a opção política que tinha comprado, não satisfaz os seus desejos. Esse mesmo indivíduo até acredita que pode proteger melhor os seus interesses, adquirindo um produto mais radical’.

Mas também temos de entender como Joseph Goebbels, o maior ‘vendedor de banha da cobra’ do regime nazi, do da mentira que passa a ser verdade se repetida mim vezes, confessou sem se engasgar, ‘A propaganda é como a arte, não tem de respeitar a verdade’ e, até por isso, vemos como nesta Europa nossa, aumenta a preocupação pelo crescimento das políticas que negam o respeito pelo adversário, numa promoção aberta do populismo e radicalismo da extrema-direita. 

Talvez por isso, seja bom recordar um texto Bertolt Brecht, aqui numa versão do professor e poeta Arnaldo Saraiva e que, nos tempos de Abril, ficou famosa, quando dita por Mário Viegas.

Elogio (ou Louvor) da Dialéctica

A injustiça avança hoje a passo firme.

Os tiranos fazem planos para dez mil anos.

O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.

Nenhuma voz além da dos que mandam.

E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o meu começo.

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:

Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.

O que é seguro não é seguro.

As coisas não continuarão a ser como são.

Depois de falarem os dominantes

Falarão os dominados.

Quem, pois, ousa dizer: nunca?

De quem depende que a opressão prossiga? De nós.

De quem depende que ela acabe? Também de nós.

O que é esmagado que se levante!

O que está perdido, lute!

O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?

Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

E nunca será: ainda hoje.

 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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