CARTA DE BRAGA – “desinformação e pose” por António Oliveira

São difíceis estes tempos que nos confundem, mareiam, ameaçam afogar e fazem estrebuchar, se calhar devido a ‘Não conseguirmos nadar para novos horizontes, por não termos coragem de parar de olhar a costa’, escreveu um dia William Faulkner.

Aumentam as tensões a nível mundial, onde a desestabilização crises diversas, económica, inflacionista, social, climática, pandemias, conflitos e desinformação se vão alargando a todas as regiões deste nosso pequeno mundo, pelos ecrãs grandes ou pequenos jornais ou pasquins, capas ou cartazes, publicidades ou promoções. Tudo se pode trocar e negociar, mesmo nas democracias mais avançadas!

De um lado estão os Estados, a tentar impor um controlo efectivo sobre o mundo digital para comandar o espaço público, tendo do outro lado as gigantescas corporações que dominam o privado e que aumentaram os obscenos dividendos nos últimos dezena e picos de anos, praticamente sem controlo e com impunidade quase total.

Está na desinformação, ou no uso incontrolado e indeterminado dos dados de todo o tipo, o êxito dessa impunidade, por atingir directamente o que resta de afecto no destinatário, a poder travar o sentimento de culpa de quem aceite piamente a mentira, embrulhada no apresentador, na apresentação, no lugar do mostruário ecrã, rádio ou jornal porque a massa, mesmo quando se engana a si mesma, está apenas a mostrar como nada quer saber da realidade dos acontecimentos.

Já o escreveu Lipovetsky no celebrado livro ‘A era do vazio’, editado em 1988, ‘O homem médio, é o mais sensível às mutações determinadas por uma sociedade pós-moderna, porque através do universo dos objectos, da informação e do hedonismo se cultiva a massa e se lhe eleva o nível de vida’, a tornar extremamente complicado determinar onde está a verdade.

Para o, ex-director do ‘Le Monde Diplomatique’, Ignacio Ramonet, ‘Na realidade destes dias, é literalmente impossível, saber se alguma coisa é verdadeira ou falsa. Há uma crise da verdade, uma crise da informação. Parecia que tendo as redes sociais, nos iríamos libertar dos grandes media que pertenciam às corporações ou aos estados. Talvez se possa dizer que informar-se sempre foi difícil, mas havia a esperança de com a tecnologia ficaríamos bem. E vê-se onde estamos, pior do que nunca’.

Para o filósofo e escritor George Steiner, antigo professor em Cambridge, ‘A verdade está condenada a um exílio permanente e é na política, tanto ontem como hoje, onde mais se escondem os factos, se prejudicam um governo ou a oposição. O desprestígio dos políticos, começa basicamente no manejo da mentira ou das meias verdades’.

Tudo isto foi alvo de uma crítica satírica e mordaz, no filme de 1967 ‘Sua Excelência’, onde o humilde cidadão Lopitos (Mário Moreno/Cantinflas), devido a uma série de erros, se torna embaixador da República dos Cocos e com um voto decisivo numa reunião Assembleia Geral das Nações Unidas. E no momento mais importante do seu discurso, Lopitos tem esta tirada única, memorável e irrepetível, ‘Estamos pior, mas estamos melhor, porque antes estávamos bem, mas era mentira. Não como agora, que estamos mal, mas é verdade’.

Alguém que já não sei quem foi, disse um dia ‘Em política podes mudar de posição desde que não mudes a pose!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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