CARTA DE BRAGA – “da comunicação e do medo” por António Oliveira

 

A mentira, a injúria, as fakes news, o lamaçal em que se tornaram alguma imprensa e as redes sociais, quase obrigando a abrir, muitas delas, com máscara e luvas. O marketing político ou do espectáculo, a emoção, a linguagem simples e, muitas vezes primária, ali usada, a curta duração das mensagens, apelando a valores e instintos primários também, curvam-se perante a linguagem e ideologia do meio usado para a transmissão.

Mas não podemos nem devemos esquecer a importância que a comunicação (independentemente dos meios usados), tem no espaço político e, consequentemente social, nos nossos dias e em qualquer parte do mundo, por toda a gente saber dos despenteados mentais que estão, ou estiveram à frente de muitos países, da orelha do trumpa, da moto-serra do milei, ou da naifada e roubo de jóias do boçalnaro; talvez seja melhor parar por aqui, por serem os mais badalados e, se assim não fosse, esta Carta iria ter vários capítulos com emoções diversas.

Junte-se a profissionalização dos comunicadores (nem sempre jornalistas, mas profissionais a viver bem do seu ofício!), e até poderemos entrar em questões de ética, de gestão da comunicação, de estratégia e abrangência sociais, dos claros/escuros e segredos da comunicação, obviamente com reflexos poderosos na orientação política, de uma qualquer região ou país.

Um problema que já foi usado por Mozart em 1791, no Primeiro Acto, da ‘Flauta Mágica’, em que o caçador de pássaros Papageno, foi apanhado a mentir e, as Três Damas da Rainha da Noite, lhe colocaram um cadeado na boca. Mas transcrevo, do Acto I, a Cena VIII:

As Três Damas tiram o cadeado da boca de Papageno, que promete não mentir mais e todos os que estão em cena cantam:

Se todo mentiroso tivesse um cadeado assim como esse, sobre o ódio, a calúnia e a maldade, reinariam o amor e a amizade”.

Tudo isto para dizer que a trapaça, a mentira, e os embusteiros que as criam e disseminam, não são só de agora, pois não há muitos anos, os ‘spin doctors’ dos republicanos norte-americanos, puseram em prática um conceito novo naqueles lados, ‘Num debate eleitoral, é mais importante fazer perder adversário, do que impor-se pelos seus princípios e valores’. É fundamental ridicularizar, diminui-lo e falar apenas dos seus defeitos ou menos-valias. Temos visto, lido e ouvido muitas destes princípios, e não só nos states.

E, se dermos a atenção devida a tudo o que se vai passando pelo mundo, a norte, a sul a leste e a oeste, não é difícil concordarmos com o que o Prémio Nobel Albert Camus, deixou escrito ‘Não há nada mais desprezível que o respeito baseado no medo’. A grandeza do respeito vai do medo à reverência. Nunca se podem confundir nem misturar, porque o medo se impõe e a reverência se conquista com o contacto e estima entre as pessoas.

Para amenizar de algum modo o teor desta Carta, parece que o ‘reviver’ dos mamutes será um êxito dos cientistas, por terem refeito em 3D o genoma deste animalzinho, desaparecido há 52.000 anos. Mas não podemos esquecer, escreve Carol, o antigo director do ‘La Vanguardia’, que o da extrema direita nunca despareceu da Europa, apesar de ser um ADN antigo. Um constitui uma curiosidade científica e o outro uma ameaça real.

Recordemos as palavras de Camus, sobre o medo e a reverência.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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