CARTA DE BRAGA – “dos tiros às palavras” por António Oliveira
clara castilho
Hoje até poderia começar pelo ‘atentado’ contra o trumpa, mas apesar do risco evidente de um tiro a 120 mts, há muito quem o considere do mesmo tipo do que foi feito ao boçalnaro, para o relançar nas eleições. Mas penso que o não devo fazer, pelo facto de o autor do disparo já cá não estar e, como em todos estes acontecimentos, haver por lá demasiadas coisas em jogo, tanto a nível interno, como externo, muitas entidades envolvidas, umas com nome grande e outras também não, que levarão as investigações a arrastarem-se durante anos; veja-se o caso de John Fitzgerald Kennedy.
Mas este acontecimento, diferencia-se dos outros semelhantes que o antecederam, por vivermos tempos dominados pelos exageros e outras dimensões quase paranóicas, potenciadas pelos algoritmos das redes sociais e pelos ‘manhas de todas as manhãs’, a partir do idadismo de um dos concorrentes, e do agir estúrdio do outro, a que se juntam todas as fakes –com ou sem fotos– que nunca esquecem de juntar ou referir.
Assim, prefiro ficar cá, por este cantinho e, aqui sim, tenho uma questão em aberto –porque razão quiseram “imolar” Aquilino?– Não encontraram alguém que soubesse ler, e tivesse entendido o que terá lido?
Tudo porque, de acordo com Paulo Neto no ‘Descendências Magazine’, Aquilino escreveu no Brasil, onde não era censurado, quando lhe retiraram das bancas a edição toda de ‘Quando os lobos uivam’, ‘Nunca soube o que era servidão aos preconceitos, ao poder, às classes, nem mesmo ao gosto do público. Se pequei, pequei por conta própria, exclusivamente. Em todos os meus livros, se pode verificar mais ou menos esta rebeldia de carácter, desde as Terras do Demo ao Quando os Lobos Uivam. (…) apenas cumpri o dever contraído para comigo mesmo desde que aprendi a pensar’.
Não acredito que a pessoa que pronunciou estas palavras ‘Nunca me engano e raramente tenho dúvidas’, tenha lido isto (se leu!?!) e não tenha sentido doer-lhe qualquer coisa, no sítio onde elas doem aos homens de bem fazer e bem dizer.
Tudo porque a linguagem é a base da comunicação entre os humanos, para se expressar e serem entendidos, como para poderem interpretar e construir a realidade de maneiras diferentes, mas sem pensarem só neles, mas em todos os que ouviram e até disseram ter entendido. Só que a literatura e o indispensável exercício da leitura, não deixa ver nada, além das letras. É necessário saber e sentir, que essas letras se juntam em palavras e frases, que levam ao cérebro as imagens mentais que contaram, por essa visão ser um dos objectivos maiores da escrita.
Aliás, acrescenta Paul Éluard, de acordo com ‘Árvore – folhas de poesia’, (publicada por cá entre 1951 e 1953), ‘As palavras dizem o mundo e dizem o homem, o que o homem viu e sente, o que existe, o que existiu, o que existirá, a antiguidade do tempo, o passado, o futuro da idade e do momento, o voluntário e o involuntário, o medo e o desejo do que não existe, do que vai existir’.
E a palavra –esta palavra– pressupõe e exige diálogo, existente apenas ‘Quando desejo escutar o que o outro ou outros podem trazer para eu entender, entrelaçar com as minhas ideias, e contruir algo de novo, por ser uma viagem através da razão ou das razões de um e outros’, afirma a professora de Ética, Sura Abenoza, num ‘La Vanguardia’ de Junho passado.
Termino com algumas frases, penso que a propósito., do próprio Aquilino Ribeiro
‘Grande bicho é o homem! Bate-se e morre de sorriso nos lábios por disparates. Trilha sendas ásperas e espinhosas, atrás de miragens, como se pisasse as mais fofas tapeçarias’.
‘As minhas palavras têm memória das palavras com que me penso, e é sempre tenso o momento do mistério inquietante de me escrever’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor