ADÃO CRUZ – ALGUMAS PALAVRAS SOBRE FERREIRA DE CASTRO
joaompmachado
Há uns anos atrás, pediram-me para dizer algumas palavras sobre Ferreira de Castro. Por que me atrevi a aceitar o convite?
Por várias razões:
Eu nasci em Vale de Cambra, ali abaixo das Baralhas, a três ou quatro quilómetros dos Salgueiros, terra onde nasceu Ferreira de Castro. Ali, em Vale de Cambra, onde, como ele diz, de manhã é o milagre, todos os dias há um milagre de luz sobre a terra, quando o sol nasce em Vale de Cambra.
Era eu criança ainda, quando comecei a sentir dentro de mim uma certa atracção pela literatura, eu diria mesmo uma necessidade imperiosa de descobrir todos aqueles mistérios contidos dentro das capas dos livros que existiam lá por casa e que pertenceram a um tio meu que era padre, ao mesmo tempo que em mim despertava, também, a paixão de escrever.
Pelos meus dezasseis, dezoito anos, eu lia numa noite, à luz de um foco olho de boi, debaixo dos lençóis, para que minha mãe não visse, quase um livro inteiro, fosse de Eça, Camilo, Garrett, Antero, Dumas, Lamartine, Balzac, Voltaire, Victor Hugo, Shakespeare, Stefan Zweig, Tolstoi, Dostoievsky etc.
Por essa altura, eu ouvia falar de Ferreira de Castro como escritor, nascido ali ao lado, mas mais como parente de um casal de irmãos, a Odete e o Artur Ferreira de Castro, meus amigos e colegas de colégio. Impressionava-me, sobretudo, a sua origem humilde, a sua aventura em princípios de adolescência, pelas florestas da Amazónia, as tremendas vicissitudes por que passou, sempre com amor àquilo que, como ele, eu tanto amava, a literatura.
Todos os dias, durante anos, eu passei de camioneta, a caminho do colégio de Oliveira de Azeméis, diante da casa de Ferreira de Castro em Ossela. Muitas vezes o meu olhar perpassava por aquelas janelas, e um inexplicável sentimento de nostalgia abria o meu jovem espírito a um mundo de fantasia que me ocupava o pensamento durante o resto da viagem.
Um dia, a mãe desses meus amigos, a D. Tininha, emprestou-me o livro A Missão, com dedicatória do autor, livro editado mais ou menos por essa altura. A partir daí procurei ler o maior número possível de livros de Ferreira de Castro, começando, obviamente pela Selva.
Nada vou dizer sobre a sua obra. Não me compete, não fiz sobre ela qualquer estudo, e outras pessoas muito mais capacitadas sobre ela falarão.
Eu era rapaz novo, um dos poucos clínicos gerais de Vale de Cambra e também um dos poucos jovens ditos, na altura, do contra. Na verdade, sempre fora da oposição à ditadura de Salazar, e era mais por esse lado que Ferreira de Castro me conhecia.
Quando eu regressava de alguma visita médica naqueles inóspitos lugarejos da serra, e sobretudo quando sabia que Ferreira de Castro se encontrava de férias na Pensão Suíça, aí parava e lanchava com ele, onde conversávamos um pouco sobre tudo, especialmente sobre a situação política e a censura.
Recordo apenas algumas das impressões que me ficaram dos curtos convívios que tive com esse grande homem. Tudo o que dele li e ouvi me pareceu simples, claro e transparente, mas também pedaços de carne viva, de uma autenticidade inquestionável, de uma sombria realidade que ele conseguia preencher de luz brilhante. Em tudo o que dele li, nunca descortinei qualquer artifício literário que roubasse a naturalidade e a espontaneidade. Em todo ele, homem conversado, nunca vislumbrei vaidades, desapego à verdade ou ausência de preocupação pela dignidade do ser humano. Era um homem bom e generoso, um verdadeiro cidadão de profundo ideal humanista, inegavelmente comprometido com a causa da liberdade e da justiça social.