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Quatro democracias em crise profunda: França, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos — Alemanha – Texto 7. “Os conspiradores alemães anseiam por um rei”. Por Maurice Frank

Nota prévia:

Continuamos a fazer circular textos sobre as Democracias em profunda crise.

Hoje o sétimo texto da série de textos sobre a Alemanha.

 

Júlio Mota


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

6 min de leitura

Alemanha – Texto 7. Os conspiradores alemães anseiam por um rei

A ascensão do Reichsburgers [1] conta uma história alarmante

 Por Maurice Frank

Publicado por em 11 de Julho de 2024 (original aqui)

 

Manifestante anti-vacinas em Dusseldorf em 2022 (Photo by Ying Tang/NurPhoto via Getty Images)

 

“As meias e os carros não cheiravam mal / todas as manhãs, eu bebia champanhe / eu era mais esperto do que Schmidt, e mais gordo do que Strauss/ e os meus discos esgotavam-se!” Em 1987, o cantor punk de Berlim Ocidental Rio Reiser cantou estas palavras sobre tornar-se rei da Alemanha. Uma brincadeira e uma maneira de zombar dos sufocantes líderes da república Federal na época.

Heinrich XIII Prinz Reuss também sonha em ser rei da Alemanha. Apesar do seu senso de moda de tweed e lenços de seda, o aristocrata menor de 72 anos e promotor imobiliário da Turíngia compartilha o desdém de Reiser pelos poderes constituídos. A única diferença é que Heinrich é muito sério sobre isso. Tão sério que, há dois anos, milhares de polícias invadiram dezenas de locais e prenderam-no a ele e a outros 26 que alegadamente conspiravam para derrubar o governo de Scholz e instalar Heinrich como monarca. O príncipe idoso e os seus apoiantes, que incluem um diretor de televisão, um juiz, um médico e alguns ex-militares que deixaram crescer o cabelo até ficar comprido, estão agora a ser julgados por criarem uma organização terrorista e conspirarem contra o Govereno, o que é crime de alta traição. O caso é tão extenso que foi tratado por três tribunais distintos em Frankfurt, Stuttgart e Munique. As provas ocupam vários quilómetros de pastas.

Esta tripulação heterogénea pertence à cena do Reichsburger, um termo genérico para as dezenas de milhares de pessoas que rejeitam a legitimidade da república Federal. E para eles, os governos democraticamente eleitos da Alemanha moderna são vassalos instalados pelas potências ocupantes do pós-guerra. Nenhum tratado de paz foi assinado entre o Terceiro Reich e os Aliados, dizem eles. E assim o Reich, para eles, continua a ser o Estado legítimo, embora para eles isso geralmente signifique passar por cima do desagradável do regime de Hitler para o Segundo Reich, a era de Bismarck, os Kaisers e os capacetes pontiagudos — ainda à espreita, intactos na parte de trás.

O Reichsburger acredita que a república Federal é uma corporação que canaliza dinheiro para o governo dos EUA e pra os Rothschilds —  o leitor imagina onde se pretende chegar. Tal como acontece com muitos movimentos conspirativos, uma grande pitada de antissemitismo parece ser um ingrediente essencial. De facto, existe uma agência financeira estatal em Frankfurt, mas gere apenas a dívida e os investimentos do Estado, explica a Associação Alemã de advogados, que diz receber um número surpreendente de perguntas de cidadãos interessados sobre o tema.

Embora as coisas bizarras correntes da anglosfera se misturem frequentemente – QAnon, Bill Gates é o diabo, etc. – o Reichsburger são, no fundo, um fenómeno exclusivamente alemão. Um dos seus aspetos é o seu ódio ao estado tecnocrático moderno. Como alguém que aqui dirigiu uma pequena empresa, tenho uma certa simpatia. A burocracia alemã — os seus infinitos formulários de papel, os seus procedimentos hiper-complexos, as suas inúmeras taxas e impostos — podem embotar a sua alma, deixá-lo louco e fazer você gritar “chega!” Vários grupos Reichsburger imprimem os seus próprios passaportes e notas do Reich alemão e recusam-se a pagar impostos e contribuições para a segurança social. Não é de admirar que esses grupos sejam fundados e seguidos por alemães que se sentiram fortemente atingidos pelo que consideram um estado opressivo e corrupto que não protege o seu bem-estar, como na vasta turbulência económica no leste da Alemanha após a unificação.

Um aspeto menos conhecido, mas ainda fundamental, do anseio alemão por um Kaiser é o seu lado religioso tipo Nova Era. Não é por acaso que o grupo Reichsburger incluiu um astrólogo. Durante um protesto contra as políticas restritivas do governo contra o Covid em 2020, centenas de Reichsburger subiram rapidamente os degraus do Reichstag [palácio onde fica o parlamento da Alemanha]. Foi um estranho prenúncio dos acontecimentos no Capitólio dos EUA em janeiro seguinte. Entre as bandeiras do Segundo Reich estavam bandeiras russas, bandeiras de arco-íris, até sinais com o rosto de Donald Trump. E foi uma jovem mulher com rastas – uma auto-proclamada curandeira alternativa – que desencadeou o tumulto espontâneo quando apelou do palco da manifestação para que os manifestantes subissem os degraus do Parlamento e retomassem “a sua casa”.

A pandemia foi um momento unificador para os descontentes da Alemanha. Um novo movimento anti-Covid, os Querdenker (literalmente pensadores laterais), conseguiu reunir todos, desde negacionistas do Holocausto a curandeiros naturais, passando por pessoas normais que sentiam que a sua subsistência tinha sido destruída pela abordagem pesada do governo à pandemia. A aliança entre tipos esotéricos e retro monárquicos apanhou os poderes dominantes desprevenidos – mas talvez não devessem estar desprevenidos. Já há dois séculos, a exploração do oculto – o místico e o irracional – esteve associada a um desejo de consciência nacional alemã. No início do século XIX, o nacionalismo entre as dezenas de pequenos Estados de língua alemã era, em grande parte, uma reação à ocupação napoleónica, com o racionalismo e o universalismo franceses importados, vistos como uma ameaça estranha ao Volksgeist alemão. Em vez disso, os pensadores abraçaram a mitologia germânica, os contos populares e a alquimia medieval. Pintores como o romântico Caspar David Friedrich exploraram paisagens alemãs místicas e sublimes, enquanto o filósofo Johann Gottlieb Fichte incorporou o amor pelo natural e pelo místico no pensamento nacionalista alemão: o “natural” tornou-se sinónimo de “nacional”.

Ao longo do século XIX e início do século XX, esta adoção do “natural” pelas subculturas alemãs representou uma resistência contra várias forças “artificiais”, “estrangeiras” ou “não alemãs”. O nudismo, a agricultura biológica, a homeopatia, o vasto trabalho do filósofo Rudolf Steiner – são alguns dos resultados não tão sinistros desta corrente de pensamento anti-moderno. Mas o anti-modernismo romântico também deu origem à ideologia völkisch dos nazis, que viam os judeus como não-humanos “não naturais” que tinham de ser eliminados do “puro” corpo político alemão.

É estranho ver esta corrente voltar a surgir entre os Reichsbürger e as subculturas conspirativas que lhe estão ligadas e que vão desde os líderes da AfD, que se recusam a apoiar a equipa nacional de futebol alemã por ser demasiado diversificada etnicamente, até aos tipos de extrema-direita que usam casacos de feltro e tentam criar jardins de infância que misturam o pensamento esotérico Waldorf e o pensamento nacionalista.

De facto, é sobretudo fora das grandes cidades cosmopolitas da Alemanha que estes movimentos se enraízam. São os auto-declarados mini-países que acolhem estas ideias, por vezes encabeçados por tipos de meia-idade com crânio rapado. Peter Fitzek é apenas um exemplo – antes de se coroar como Rei Pedro I da Alemanha em 2012, geria uma loja cheia de bugigangas Nova-Era em Wittenberg, coincidentemente onde outro radical alemão, Martinho Lutero, pregou as suas 95 Teses na porta de uma igreja 500 anos antes. O humilde negócio de Fitzek de venda de apanhadores de sonhos há muito que se transformou numa monarquia de culto de faz-de-conta com várias propriedades que se separaram da República e se juntaram ao novo Reich. Financiado por voluntários e crentes ávidos, o Estado de fantasia de Fitzek, “o Reino da Alemanha“, tem a sua própria moeda, o Engel (Anjo). Os euros podem ser trocados por anjos, mas não vice-versa – assegurando uma entrada de moeda forte, um truque que Fitzek certamente copiou dos antigos governantes deste território, a República Democrática Alemã. O “Estado” de Fitzek tem também o seu próprio passaporte, com o qual afirma ter viajado por todo o mundo.

A certa altura, porém, o jogo acaba para tipos como Reuss e Fitzek. O site do “Reino da Alemanha” de Fitzek foi invadido pela polícia e pelas autoridades fiscais em junho. Fitzek é totalmente sincero sobre a sua evasão fiscal. A dada altura, será preso como Reuss, mas talvez o martírio seja o que ele procura.

O ódio aos Estados Unidos e a convicção de que a Rússia é o parceiro natural do povo alemão são aspetos em que todas estas pessoas parecem concordar. Os procuradores alegam que o grupo do príncipe Heinrich tinha contactos com diplomatas russos e com o grupo de motoqueiros russos Night Wolves. Reuss contava com o apoio russo para o seu Reich, enquanto a Rússia talvez considerasse a possibilidade de utilizar o seu bando para fins de sabotagem e desinformação.

A um certo nível, há algo de patético no facto de homens de meia-idade ou idosos usarem coroas feitas em casa e declararem pequenos Estados independentes em edifícios velhos e degradados de aldeias e pequenas cidades esquecidas, muitas vezes no antigo Leste. É um cheiro a perda de objetivo numa sociedade sujeita a rápidas mudanças tecnológicas e económicas – considerada cada vez mais dominada pela tecnologia americana e pelo capitalismo de estilo americano. A ironia escapa a estes grupos: foram as plataformas de Silicon Valley que lhes permitiram difundir a sua mensagem junto do seu rebanho.

Os especialistas em extrema-direita e os analistas dos media alemães alertam para o facto de não devermos simplesmente considerar os Reichsbürger à volta de Reuss como uns velhos loucos e inofensivos. Afinal, eles tinham muitas armas e um punhado de ex-oficiais do exército que sabiam como dispará-las. Se tivessem tido a coragem de o fazer, o alegado plano do grupo de Reuss para raptar Scholz teria certamente falhado.

Para mim, a história dos Reichsbürger conta uma história ainda mais perturbadora. São o canário na mina de carvão que aponta para uma ameaça maior do que um bando individual de aspirantes a golpistas. Aponta para um país cujo tecido civil se está a desgastar nas suas extremidades. Aponta para um sentido de realidade partilhada e que está fragmentado em mil narrativas irracionais, ingénuas e antissemitas. Aponta parta um país que está a perder o rumo, para um país que anseia por um líder forte que reunirá tudo depois do colapso.

Esta manhã, durante a minha corrida ao longo da linha de caminho-de-ferro, no norte de Berlim, encontrei um homem de meia-idade que se aproximou lenta e intencionalmente de uma árvore e a abraçou durante vários minutos. Inofensivo, não é? Nunca se sabe. Talvez ele esteja a sonhar em tornar-se o próximo rei da Alemanha.

 


[1] N.T. Reichsburgers – Movimento de extrema-direita, Cidadãos do Reich, que não reconhece a soberania da Alemanha atual.

 


O autor: Maurice Frank é co-fundador do magazine inglês Exberliner e co-escreve o boletim 20 Percecent Berlin.

 

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