É chegada uma das épocas do ano em que vários funcionários: carteiros, guardas-nocturnos, etc., começam sentindo um particular interesse pela saúde da nossa ex.ma família, sentimento comovedor que nos enche de gratidão para com as colectividades que o manifestam. Apraz-nos saber quanto essa honrada gente cultiva a solidariedade humana, tão mal cuidada por certas classes superiores. Que admiração, pois, que as pessoas bem educadas, mal sentem na escada uma voz apregoando: ” – Correio!” saltem em ceroulas do leito para irem pressurosamente ao patamar, inquirir do distribuidor de cartas o estado da saúde de sua esposa e filhos! Natural é também que à noite, quando regressam tarde, se demorem um pouco apertando cordialmente as falanges de quem com hábil gazua lhes poupa o cuidado de trazer no bolso uma chave de trinco bem incómoda…
Mal, porém, de quem se supuser em dia para com esses senhores com esta simples troca de bom proceder. Com surpresa verá chegar a sua correspondência fora de horas, de vez em quando as campainhas na porta serão ferozes e, se mudar de residência, as epístolas que lhe sejam dirigidas seguirão recambiadas sem o mínimo interesse para o centro da administração dos correios.
Pela sua parte, o guarda-nocturno deixar-nos-á aplaudi-lo com delírio durante largas horas à chuva ou ao frio e só chegará quando estivermos regelados e numa sopa. E, por falta de vigilância, a escada da casa em que vivermos passará a ser para os tresnoitados uma sucursal de certas carinhosas edificações com que a Câmara acode às mais urgentes necessidades dos seus munícipes.
Se a nossa surpresa quiser, na ânsia perpétua de saber, descobrir o motivo pelo qual certas pessoas, que tanto se interessam por nós em dias certos, deixam de nos conhecer nos dias incertos em que se conhecem os amigos, qualquer nos dirá que, em vez de agradecermos pela forma acima descrita as finezas desses senhores, melhor teríamos feito em meter-lhes simplesmente na palma da mão uma prata luzente de cinquenta centavos.
17 de Dezembro de 1912
(In Sumário de Várias Crónicas – Alfaciadas, 1923, Guimarães & C.ª Editores)
Permitimo-nos actualizar em alguns aspectos a ortografia desta interessantíssima crónica de André Brun, pensando assim tornar mais fácil a sua leitura, e procurando alterar o menos que possível a magnífica escrita e a suave ironia do autor. Este descreve-nos um costume português, de modo nenhum um bom costume, mas que, hoje em dia, parece estar generalizado a outros níveis, bem mais altos do que os referidos nesta crónica com 112 anos. Mas não alterámos o título, sobre o qual nos permitimos transcrever aqui esta entrada do Dicionário Etimológico de Língua Portuguesa, de José Pedro Machado:
Broa, s. Palavra nortenha, provavelmente [proveniente] de *boruna pertencente a idioma pré-romano da Hispânia. Notar, porém, o castelhano borona, o galicismo borroa e o asturiano borrũa; a forma boroa é antiga e dialectal em português; em Leges, p. 401, Boroa e Borona alternam como antropónimo, em texto de 1174.
Nota – Leges = Leges et Consuetudines, in Portugaliæ Monumenta Historica.
O sinal * no Dicionário Etimológico de Língua Portuguesa equivale a hipotético.