A REVOLTA DOS FUNCIONÁRIOS, por André Brun

1881 – 1926

II

Vesti-me à moda do país e, de sorriso nos lábios, trauteando a Ave Maria de Gounod em fox trott, fui para a paragem esperar um descendente. Quando lá cheguei, encontrei um casal que, pela rotundidade da esposa, já esperava descendente há mais de seis meses.

Chegou enfim o almejado carro e para ele trepámos airosamente.

Em todo o percurso saudei com alegria os recantos que me aproximavam da Baixa. Disse adeus com os olhos à tabacaria da menina gorda, à sapataria subterrânea, ao quiosque de Santa Maria e, logo adiante, à loja de enterros do sr. Magno que vende caixões de mogno. Na volta pisquei o olho à salsicharia e avistei enfim a Avenida, onde o carro deu entrada depois de ter sacudido o seu conteúdo como se tencionasse apresentar para o almoço dos directores da Companhia uma pequena mayonnaise de passageiros.

Ao penetrar na artéria da Liberdade senti-me novamente cidadão. Com que satisfação tornei a ver as árvores suando em bica o resto das suas folhas, o grande cinema ainda por baptizar, a porta do teatro Avenida, a velha que pede esmola à esquina da rua das Pretas, a loja dos Citroëns, o Vigia sempre alerta não vá entrar algum freguês, o largo da Anunciada com a taboleta dos T. T., a Companhia da Falta de Águas, o animatógrafo do Condes!…

E, enquanto todas estas paisagens familiares acordavam diante dos meus olhos e se espreguiçavam, pois tinham acabado a sesta, eis-me de súbito na estação dos Restauradores e, mal ponho pé no cais, logo avisto o Procópio Baeta.

― Que há de novo, meu velho? Indaguei eu ansioso.

― Vamos tomar qualquer coisa fresca, propôs ele, pagando tu, é claro.

(continua no próximo sábado)

In Procópio Baeta – Ditos e Feitos de um Burguês Lusitano do Primeiro Trinténio do Século XX. Primeira edição, 1927, Livraria Editora Guimarães & C.ª.

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