CARTA DE BRAGA – “Das estórias fantásticas, ‘tiradas’ da História comum” por António Oliveira
clara castilho
A leitura e audição permanente de órgãos de comunicação diversos, e bem longe do tipo tablóide ou do ‘manha de todas as manhãs’, permite chegar a estórias onde a ironia, a zombaria ou até o humor de gente com sentido de responsabilidade, aquela que assume sempre a autoria das suas palavras ou dos seus actos, para não ofender o passado nem o presente, na pessoa que lê ou ouve.
É verdade também que a História depende da interpretação que o historiador faz de cada estória que encontra, lê ou lhe foi contada, mais do relacionamento que faz com outras narrativas coevas e ou lhe estão ligadas, bem como da maneira como depois a escreve ou diz, e nem é preciso citar alguns dos nomes que salientaram nos nossos meios de comunicação, pela simplicidade e colorido das palavras.
Sem me querer comparar ou confrontar com nenhum deles, serve esta Carta para mostrar como aquela ironia ou humor se mantêm nestes dias, apelando ao passado para, de alguma maneira, criticarem situações ou atitudes de alguns dos ‘figurões’ que enchem páginas e ecrãs, principalmente à hora em que as pessoas gostariam de comer e conversar descansadas com o seu entorno.
E a primeira história é de um cronista daqui ao lado, a citar o escritor Rodolfo Serrano (já editado por cá) que conta como Moisés, quando fugia do faraó, chegou à margem do Mar Vermelho e sem saber o que fazer, chamou o seu assessor de imprensa. Este aconselhou-o a dar umas pancadas com o cajado no chão, que o mar se iria abrir, e todos poderiam passar para o outro lado. Quando lá chegassem, que repetisse as pancadas, e o mar voltaria ao normal e engoliria o exército do faraó que vinha atrás deles.
‘Mas tu acreditas que isso vai funcionar?’ perguntou Moisés. ‘Não sei’, respondeu o assessor, ‘mas vais conseguir um par de páginas na Bíblia, garanto eu!’. Ganhar umas páginas nas ‘bíblias’ de referência actuais, com ou sem manhas, é aquela questão entre ‘o ser e o não ser’ de Shakespeare.
Outra figura referida por vários escribas, é a de Alcibíades (450-404 a. C), que Plutarco descrevia como belo, inteligente, volúvel, arrogante e desleal, tendo traído Atenas, Esparta e os persas, apesar de ter sido educado por Sócrates. E Plutarco conta esta pequena estória: o político Alcibíades (já no governo de Atenas), tinha um cão singular, com uma cauda chamativa, que teria comprado por um preço exorbitante. Mas um dia cortou a cauda ao cão e passeou-se por Atenas com o pobre animal mutilado. A cidade logo começou a comentar, indignar-se e a condenar, mas Alcibíades, tranquilo e sorridente, confessou a um amigo, ‘Enquanto os atenienses se preocuparem com a cauda do cão, não pensarão nos problemas do meu governo’.
Onde é que já ouvi, não há muito, uma resposta igual ou muito semelhante a esta?
Vou voltar a estas pequenas estórias da História um dia destes, mas, talvez a propósito, lembro-me de ter lido algures que Luis Buñuel, o realizador de cinema espanhol que trabalhou com Salvador Dali e dele recebeu uma forte influência surrealista, manifestou pouco antes da morte, o desejo de sair da tumba cada dez anos, comprar um jornal, ver um telejornal, saber dos últimos mexericos, beber um Martini e voltar ao cemitério.
Já lá vão 41 anos e quatro martinis! Teria rido ou chorado?
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor