Seleção e tradução de Francisco Tavares
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Os avanços russos na frente de combate e as dúvidas dos EUA empurram a Ucrânia na direção da negociação
As novas vitórias russas no leste da Ucrânia e as dúvidas sobre o apoio dos EUA deixam Kiev sem capacidade de manobra faca à aproximação do inverno
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Nem na sede da NATO em Bruxelas nem em Washington se fala já de uma factível vitória ucraniana sobre a Rússia, mas sim de salvar os móveis, se possível, num conflito que avança para o seu terceiro ano sem que esteja à vista uma solução favorável a Kiev e com um crescente número de dúvidas sobre a atuação do presidente Volodímir Zelenski, empenhado numa participação total do Ocidente na guerra.
Com o inverno ao virar da esquina e grande parte dos sistemas energéticos danificados, sucedem-se as derrotas ucranianas na frente oriental, os Estados Unidos perdem o interesse no conflito, condicionado pelas suas eleições presidenciais em novembro e a imparável crise do Médio Oriente, e a NATO começa a tocar no tema das negociações como única saída para a disputa ucraniana.
O novo Secretário-Geral da NATO, Mark Rutte, disse-o nesta terça-feira em Bruxelas. A Ucrânia pode ter de enfrentar o pior inverno da guerra. Os ataques russos para deixar milhões de ucranianos às escuras, sem água e sem aquecimento aumentaram. E essa estratégia desmoralizadora só pode ser combatida multiplicando as defesas antiaéreas da Ucrânia, algo que os aliados de Kiev não estão a conseguir.
Rutte coloca no horizonte as negociações com a Rússia
Rutte sucedeu à frente da Aliança em 1 de outubro o belicista Jens Stoltenberg, sempre confiante numa vitória ucraniana que o tempo e o curso da guerra se encarregaram de mostrar como improvável. O político holandês demorou pouco em pôr sobre a mesa o tema das negociações para deter a sangria.
Nas declarações junto ao presidente finlandês, Alexander Stubb, o máximo responsável da NATO insistiu na necessidade de entregar mais armas à Ucrânia, mas já não ressaltou que o fim da guerra passa por derrotar os russos.
“Por que é tão importante que façamos mais para fortalecer a Ucrânia? Porque é o único caminho para um acordo negociado e para convencer (o presidente russo, Vladimir) Putin de que não vai ganhar no campo de batalha”, afirmou Rutte.
Segundo o chefe da NATO, “depende da Ucrânia decidir quais são as condições aceitáveis para uma solução negociada e também quais são as condições para iniciar conversas com os russos”. A NATO, insistiu, “o que pode fazer é ajudar a fortalecer os trunfos da Ucrânia fornecendo suficiente apoio militar”.
Por enquanto, o compromisso formal com a Ucrânia aguenta, mas as dúvidas crescem e esta guerra começa a deixar de ser uma prioridade na política externa dos Estados Unidos.
Os EUA suspendem uma reunião chave para a entrega de armas à Ucrânia
Neste sábado estava prevista uma cimeira de meia centena de países que apoiam a Ucrânia na base americana de Ramstein, na Alemanha. A convocação foi do presidente Joe Biden e era esperada com muita expectativa por Kiev, especialmente após os últimos reveses na frente bélica.
Zelenski queria ressaltar em Ramstein a importância dessa ajuda, agora que as guerras em Gaza e no Líbano, e uma possível disputa entre Israel e Irão, com participação dos EUA, estão a desviar a atenção internacional do conflito ucraniano.
Mas Biden indicou repentinamente que não iria a Ramstein, pelo que o encontro do Grupo de contato para a defesa da Ucrânia acabou por ser adiado.
Biden afirmou que também não viajará até à Alemanha, na qual se esperava que fosse a primeira visita a este país de um presidente americano em quatro décadas. O presidente alegou que os preparativos ante o iminente embate do furacão Milton e a organização da ajuda pelos efeitos devastadores que teve outro ciclone, o Helena, que deixou 200 mortos nesse país, exigem a sua presença nos Estados Unidos.
Embora não tenha sido incluída pela Casa Branca a explicação do cancelamento da viagem de Biden, está no ar a iminente represália israelita contra o Irão, após a chuva de mísseis lançada por Teerão na semana passada. Os EUA cerraram fileiras com Israel e poderiam participar no contra-ataque ou pelo menos contrariar uma retaliação iraniana.
Mas a Casa Branca não deseja uma conflagração em grande escala com Teerão neste momento. A menos de um mês das eleições presidenciais, tal conflito poderia derivar num maior descontentamento da população muçulmana dos Estados Unidos.
Além disso, o setor de armas dos EUA poderia ver-se forçado a cortar os seus abastecimentos para Kiev para se concentrar em Israel e no forte contingente dos EUA já implantado no Médio Oriente.
De qualquer forma, ficou claro para o presidente ucraniano, Volodímir Zelenski, que a guerra contra a Rússia já não está entre as prioridades de Washington. Assim, o candidato republicano a suceder a Biden na Casa Branca, o ex-presidente Donald Trump, insistiu que uma das primeiras coisas que fará se chegar ao poder será pôr fim a essa guerra.
Acaba-se o tempo para a Ucrânia
A suspensão da cimeira de Ramstein caiu como um jarro de água fria para Zelenski, que vê o tempo passar sem o suficiente armamento para sustentar a ofensiva ucraniana de Kursk, no sul da Rússia, defender-se dos ataques aéreos russos contra as infraestruturas críticas e, sobretudo, para deter o imparável avanço russo no leste da Ucrânia, na região de Donetsk.
O próprio secretário-geral da NATO teve que admitir na terça-feira que a situação da Ucrânia no campo de batalha “continua difícil”, pois os russos “estão a fazer avanços lentos, mas constantes, no leste”, apesar da “enorme” magnitude das suas perdas humanas.
Rutte não comentou, claro, a difícil situação do exército ucraniano, sem tropas de reforço e apenas com recrutas para suprir os veteranos da frente, exaustos após mais de dois anos e meio de guerra, o que está a refletir-se na capacidade de resistência na frente do Donbass e, em concreto, nessa região de Donetsk.
Uma vitória russa que passou desapercebida
A invasão israelita do Líbano e o ataque iraniano com mísseis sobre Israel tiraram a atenção daquilo que foi um dos golpes mais duros sofridos pelo exército ucraniano no último meio ano precisamente em Donetsk.
Na semana passada, em 2 de outubro, caiu em mãos russas o até então inexpugnável bastião de Vugledar, o maior triunfo das forças do Kremlin desde a captura de Avdivka, em fevereiro passado. Vugledar, uma cidade mineira que domina a região circundante, é um importante entroncamento ferroviário entre o leste e o sul da Ucrânia e uma encruzilhada chave para as linhas de abastecimento do exército ucraniano.
Agora, o objetivo russo é Pokrovsk, outra localidade muito fortificada que analistas ocidentais consideram que poderia ser conquistada antes da chegada do inverno. Em menos de duas semanas, as forças russas conquistaram oito localidades em Donetsk, imprimindo à ofensiva no Donbass uma rapidez que não se via desde o início da guerra, em 24 de fevereiro de 2022.
Mas os avanços russos não se limitam a Donetsk. Na região sul russa de Kursk, onde no início de agosto entrou um importante contingente ucraniano, o exército do Kremlin recuperou nesta semana duas aldeias, Novaya Sorochina e Pokrovski. Essa ofensiva ucraniana, embora mantenha ocupada uma pequena porção do sul de Kursk, já foi detida pelas forças russas e corre o risco de que as tropas sejam cercadas.
Zelenski insiste que Biden pode inverter a situação
Durante a sua visita a Zagreb nesta quarta-feira, Zelenski confiou que nos próximos três meses, antes que Biden deixe a presidência dos Estados Unidos, a Ucrânia possa com a sua ajuda dar a volta ao conflito e assim avançar para uma paz aceitável para Kiev e impedir que a guerra se prolongue para além de 2025.
Zelenski indicou que conta com “a liderança” de Biden para realizar esse propósito antes do fim do ano. Em setembro, ele apresentou ao presidente americano o seu chamado “Plano da vitória”, destinado a forçar Moscovo a aceitar o plano de paz ucraniano que inclui a retirada completa da Rússia da Ucrânia.
Não foram divulgados os detalhes concretos do plano, mas tudo indica que contempla o bombardeamento de alvos militares e civis (centrais de energia) no coração da Rússia com os mísseis de longo alcance ocidentais, cuja utilização além da fronteira ucraniana foi negado a Kiev por Washington.
Mas estes desejos de Zelenski, que subestimam uma eventual resposta militar russa, também não parecem viáveis se se considerar que pode ser iminente uma guerra de grandes dimensões de Israel contra o Irão, com o envolvimento total americano e com a Rússia por meio pela sua aliança com Teerão.
O falhanço de Ramstein
O presidente ucraniano queria apresentar neste sábado o seu Plano de Vitória aos seus aliados em Ramstein. A anulação do encontro aponta também para a desconfiança de Washington ante um plano que exige ao Ocidente cruzar demasiadas linhas vermelhas e acelerar o seu envolvimento direto na guerra.
Zelenski tenta manobrar e atrair o apoio do maior número de países, como fez nesta quarta-feira na cidade croata de Dubrovnik com os líderes de três países do sudeste da Europa mais a Turquia.
No entanto, desde o momento em que Israel decidiu iniciar a sua guerra no Médio Oriente há um ano, primeiro em Gaza e depois no Líbano, as coisas começaram a mudar. O tabuleiro de jogo é muito maior e a Ucrânia é apenas mais um quadrado. Uma casa na qual ninguém mais acredita que se joga o destino da Europa e menos ainda o do mundo.
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O autor: Juan Antonio Sanz [1966-], é um jornalista espanhol, independente. É especializado em temas internacionais com a maior parte de sua carreira profissional desenvolvida no exterior, na Rússia e na ex-União Soviética (especialmente Ásia Central e Cáucaso), Coreia do Sul, Japão, Uruguai, Bolívia e Cuba. Além disso, exerceu como comunicador no âmbito da cooperação internacional e deu aulas de jornalismo e comunicação na Universidade Católica San Pablo de La Paz e no Estado-Maior do exército boliviano sobre Inteligência estratégica. Autor do livro ” Vampiros, príncipes do abismo. Crônicas de vampiros, nosferatus e outros mortos-vivos”, Editorial Almuzara 2020.

