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Espuma dos dias… Quatro democracias em crise profunda: ainda os EUA — “Gatos e Cães”. Por John Ganz

 

Seleção e tradução de Francisco Tavares

5 min de leitura

Gatos e Cães. Não consigo acreditar que vi tudo isto !

 Por John Ganz

Publicado por Unpopular Front em 11 de setembro de 2024 (original aqui)

 

 

Um combate de boxe é um dos clichés mais banais disponíveis para descrever um debate político, mas encaixa-se muito bem no debate de ontem à noite. Quando o debate começou ontem à noite, pensei que teria de escrever sobre como Trump arrasou Harris e também sobre como os Democratas teriam de enfrentar seriamente a possibilidade de uma segunda presidência de Trump. Ao sinal da campainha, Trump aparece como balanceando, parecia recitar de memória alguns golpes de tipo de arte marcial enquanto Harris estava igual a si própria mesma, calma, rígida. Ela parecia até um pouco atordoada. Então Harris recompôs-se e começou a disparar golpes sólidos: ela lidou com a questão do aborto com maestria; é uma verdadeira fraqueza para Trump e ela realmente fê-lo mostrar isso mesmo. O rosto de Trump mostrava o impacto desses golpes quando estes eram disparados e o atingiam: ele até parecia contorcer-se às vezes. E Harris também fez algo que deveria ser fácil de fazer, mas que os adversários de Trump têm tido dificuldade em gerir:  ela colocou-lhe o isco e ele agarrou-o. O facto de as pessoas abandonarem os comícios irritam-no fortemente e ele começou a barafustar e a delirar incontrolavelmente. Trump perdeu o seu autocontrolo. Depois disso, ele nunca realmente parecia estar bem, era apenas palavreado e patetices o que dizia, incluindo coisas absurdas como pessoas a comerem cães e gatos em Springfield, Ohio [1]. Surpreendeu-me que ele tenha trazido isso à tona, embora realmente não me devesse surpreender. A preparação de promotora de Kamala , que parecia no início estar a limitá-la, acabou por valer a pena. Trump foi incapaz de fazer o mesmo e tenta então apoiar-se em pura fanfarronice.

Não nos enganemos: Trump ainda tem capacidades consideráveis de autoexpressão, que muitas vezes são subestimadas pelos liberais, mas também não devem ser sobrestimadas. Ele tem um vocabulário muito limitado e isso limita a medida em que ele pode articular respostas sobre quaisquer questões. Então, ele cai novamente nas situações hiperbólicas. Cada coisa é o pior, o melhor, o maior. Isso pode ser eficaz, mas muitas vezes, como ontem à noite, parecia repetitivo e, sim, meio cansativo. Se o americano simples se cansar das suas palhaçadas, isso realmente acabará com ele. A mensagem de Harris de “vamos virar a página” é boa porque apresenta Trump tanto cansativo quanto assustador.

Então, ela ganhou. Mas será que alguma coisa disto é realmente importante? É muito difícil dizer. O eleitorado está tão polarizado que é difícil mudar de ideias nesta data tardia. Mas ainda há eleitores indecisos. Infelizmente, acredito que eles são mais propensos a responder ao estilo de retórica de Trump do que ao de Harris. Na verdade, estão a falar com dois eleitorados diferentes: não estão muitas vezes a competir pelos mesmos eleitores. Uma pesquisa recente mostrou que Trump estava a ganhar entre quase todos, exceto naqueles com maior probabilidade de votar. Ele é o candidato da alienação e da raiva, de pessoas que podem expressar a sua vontade política com um voto de protesto ou podem simplesmente armarem broncas em casa.

Trump precisa de irritar essas pessoas. Pode ser que o desempenho da noite passada ainda tenha feito um bom trabalho nesse campo. Por outro lado, Harris ganhou por não deprimir totalmente os seus simpatizantes. Mostrou  que levava a sério a luta até o fim e a manter o rumo. Mais uma metáfora melosa, se quiserem.

JD Vance recentemente comparou a eleição à guerra civil com os Democratas como ianques e os Republicanos como Bourbons do Sul com aliados caipiras. Vamos admitir esta premissa imbecil por um momento: naquele caso, Harris era como o Grant dos EUA, metodicamente mantendo a pressão, mantendo um plano até que o inimigo quebrasse, Trump era como um general confederado que tenta aliados audaciosos no lugar de uma estratégia sólida. Ele pode fazer algumas coisas superficialmente espetaculares, mas eventualmente a máquina implacável do esforço de guerra da União irá moê-lo. Espera-se que assim seja.

Quero voltar a este detalhe do debate, sobre migrantes haitianos a comerem gatos, uma ideia chocante que JD Vance lançou e depois encorajou os seus seguidores a disseminar, embora pareça totalmente falso. Ele escreveu no Twitter: “… Não deixem que os chorões nos meios de comunicação vos dissuadam, companheiros patriotas. Mantenham os memes de gato a fluir”. Há uma terrível pegada neste tipo de difamação que tem origem nos recreios das  escolas: esta é a ladainha de um valentão do pátio da escola. Quero dizer isso literalmente: as primeiras menções nas notícias que posso encontrar de “haitianos a comerem  gatos” vêm de histórias sobre crianças refugiadas haitianas nas décadas de 1980 e 90 que enfrentavam o assédio de colegas na escola.

Em geral, os requerentes de asilo haitianos como bode expiatório político vêm diretamente da era de When the Clock Broke [2]. Durante a maior parte da década de 1980, o governo dos EUA tratou os “boat people” haitianos que tentaram chegar aos estados como sendo migrantes económicos – ao contrário dos cubanos que foram tratados como refugiados políticos – e repatriou a grande maioria deles. Isto apesar do facto de que o Haiti também estava sob o governo altamente repressivo dos Duvaliers. Depois que o golpe militar de 1991 que destituiu Jean-Bertrand Aristide, o primeiro presidente democraticamente eleito do Haiti, deu origem a uma enorme onda de refugiados, os EUA montaram um campo em Guantánamo para processar pedidos de asilo. Mas isso criava  questões políticas para a administração Bush que ia entrar em ano eleitoral.

O Departamento de Defesa queixou-se do uso de instalações suas para processamento de imigração. As forças à direita de Bush faziam demagogia em relação à imigração: ele enfrentava os principais desafios vindos de David Duke e Pat Buchanan, que levantaram a questão dos haitianos por razões óbvias. Falando sobre os haitianos em This Week with David Brinkley, Buchanan adotou uma abordagem abertamente racial da questão, opondo-se não apenas à admissão de haitianos, mas de negros em geral: “Acho que Deus fez todas as pessoas boas”, disse ele, “mas se tivéssemos que pegar um milhão de imigrantes de, digamos, Zulus no próximo ano ou ingleses, e colocá-los na Virgínia, que grupo seria mais fácil de assimilar e causaria menos problemas para o povo da Virgínia? Não há nada de errado em nos sentarmos e argumentarmos que somos um país europeu…” David Duke fez um barulho semelhante, dizendo a uma estação de rádio de Miami que, embora os cubanos fossem de “ascendência europeia” e, portanto, deveriam ser bem-vindos, o mesmo não se passa com os haitianos, estes não deveriam ser permitidos. Escrevendo sobre os boat people no final de 1991, Sam Francis recomendou o romance de ficção científica de Jean Raspail sobre hordas de morenos invadindo a Europa branca em The Camp of the Saints:

Hoje o futuro é agora. Os boat people haitianos que procuraram entrar nos Estados Unidos aos milhares nos últimos meses são apenas uma pequena parte da onda. Enquanto os haitianos ainda não chegam aos milhões, outros imigrantes ilegais de culturas do Terceiro Mundo atravessam a fronteira dos EUA em rebanhos humanos que desafiam a contagem. Desde que Genghis Khan saiu das estepes asiáticas, o Ocidente – a Europa e os Estados Unidos – não se deparou com uma invasão alienígena tão grande.

Não à toa, isso soa muito parecido com algo que JD Vance pode dizer hoje.

Os relatos dos meios de comunicação social sobre os elevados incidentes de HIV entre os internados de Guantánamo também causaram pânico na opinião pública. No entanto, os refugiados haitianos não ficaram sem os seus defensores nos EUA, entre eles Jesse Jackson, Arthur Ashe e Magic Johnson. Acossada por essas pressões, em maio de 92, a Casa Branca de Bush mudou a política dos EUA, passando a repatriar os haitianos tout court e fechar o centro de processamento em Guantánamo – não haveria dúvida que não haveria asilo político. Buchanan saudou a decisão do governo. Bill Clinton criticou Bush por “uma política cruel de repatriar refugiados haitianos no quadro duma ditadura brutal sem uma audiência sobre a concessão de asilo”. Claro que isso não o impediu de manter a mesma política quando tomou posse, em janeiro de 1993.

 

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Notas

[1] Nota do tradutor.  Como assinala Joyce Vance num artigo seu sobre o debate:

“ Greg Sargent, que muitas vezes nos atira com  essas coisas mortas no nariz, teve uma observação sobre o absurdo ridículo de “imigrantes haitianos a comerem  gatos” que Donald Trump tem vendido e repetido na noite passada e que JD Vance repetiu numa entrevista pós-debate.

Não é só porque a história haitiana seja ridícula. Não é só porque seja mentira. Trata-se de ambas as coisas, mas é mais do que isso; é também perigoso. Desumanizar as pessoas é o que torna possível o tratamento desumano delas. É assim que se justifica a política de separação familiar que arrancou as crianças dos seus pais, alguns deles tão jovens que a reunificação ainda é ilusória mais de cinco anos depois. Em casos extremos, a desumanização é um caminho para o genocídio, a forma como os nazis chamavam os judeus na Alemanha de vermes e afirmavam que espalhavam doenças e usavam o sangue de crianças não judias em rituais como prelúdio do Holocausto. Trump está a utilizar uma linguagem semelhante como um prelúdio para as deportações em massa propostas de migrantes que ele e o projeto 2025 (que ele afirmou na noite passada que nunca leu) pedem. Trump e Vance estão a criar  uma sociedade onde as atrocidades contra outros seres humanos podem ser justificadas desumanizando-os primeiro

[2] Nota do tradutor. John Ganz refere-se aos anos 80-90,  período este  sobre o qual incide a sua obra rscente When the Clock Broke, onde localiza a origem de muitos dos graves problemas com que hoje nos debatemos.


O autor: John Ganz é editor e escritor independente. Licenciado em História pela Universidade de Michigan e mestre em Belas-Artes pela Universidade de Columbia. Dirige o sítio Unpopular Front.

 

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