Depois de publicar o meu texto “Livros e Literatura”, senti o desejo de partilhar convosco um pequeno episódio da minha vida profissional que permaneceu dentro de mim como um pedacinho da minha estrutura sentimental. Passou-se logo a seguir ao 25 de Abril, naquele período de contestação de programas, de conteúdos, de métodos, de reclamação de direitos, mais do que aceitação de deveres, período nada fácil para os professores que tinham de controlar os eflúvios salutares, mas difíceis da juventude. Logo no primeiro dia de aulas dei conta de que me coube em sorte uma turma de iniciação de Alemão do décimo ano, com alunos um tanto exóticos, de aspecto rebelde, que pareciam ter sido escolhidos a dedo. Cabelos compridos, soltos ou apanhados, barbas longas, camisolas de alças, botas com solas a abanar, colares de cabedal e outros adereços do mesmo estilo. Naquele momento, uma colega minha passava pelo corredor frente à entrada da sala de aula e segredou-me : estás tramada, parecem saídos da pré-História.
Eu tinha por método dar trabalhos de casa, mais voluntários do que obrigatórios, de acordo com as necessidades de cada aluno, sugerindo muitas vezes que os trabalhos se configurassem à escolha deles próprios. Havia alguns alunos que me apresentavam poemas. Na adolescência, era muito frequente gostarem desse atrevimento. Sempre que escreviam um poema, composição literária cuja fronteira entre o ridículo e o sublime pode parecer ténue, como todos sabemos, eu ficava um tanto perplexa e apreensiva, porque não os queria desiludir ou magoar. Quando não tinha por onde lhes pegar, o que naturalmente podia acontecer, lá tentava contornar a situação com a máxima pedagogia possível. Na disciplina de Inglês, na qual já tinham muitos anos de escolaridade, o exercício seria mais facilitado. A língua é também muito mais flexível do que o Alemão. Dizia um professor meu da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra que o Inglês era um carro ligeiro manobrado numa rua larga e o Alemão era um carro pesado manobrado numa rua estreita. É realmente uma língua difícil de manobrar.
Aconteceu que, mais ou menos a meio do ano de iniciação do estudo da língua, um desses alunos, o Gustavo, rapaz muito alto e magro, de longas barbas e cabelos compridos, fazendo-me lembrar Jesus Cristo, não só pela figura, mas também pelo ar de bondade e complacência, me apresentou um poema em Alemão. Fiquei de boca aberta a pensar como iria descalçar a bota e sair daquele embaraço. Levei o trabalho para casa e demorei algum tempo a ganhar coragem para o ler. Cheio de erros, como era de esperar, mas lindo!… e para meu espanto, com uma musicalidade e um ritmo inacreditáveis. Imaginei-o logo poeta, músico e sei lá que mais. Uma surpresa daquelas que nos fazem humedecer os olhos. Aquele trabalho serviu-me para levar à turma uma das lições mais lindas de que me recordo. Que pena eu tenho de o não ter guardado em lugar seguro e de o deixar perder-se da memória.
Mais tarde, o Gustavo veio a ser músico, excelente compositor e guitarrista, Professor na Escola Superior de Educação. Viveu com a Sabine, uma alemã de quem teve um filho, o Robin. Ainda me lembro de ter ajudado a Sabine com aulas de Português, em minha casa. Há cerca de dois anos estive com o Robin que já tem um filho.
O meu querido aluno Gustavo morreu muito novo, na casa dos quarenta. Na minha memória permanece indelével, a preto e branco, a imagem da descida do seu caixão à terra, ao som triste de uma flauta tocada pelo seu filho Robin.
Adivinhei-o poeta e não me enganei. E com este tão belo poema do Gustavo, aprendi que a poesia pode dar muito trabalho a criar, mas também pode nascer como a água da fonte quando a nascente está dentro do poeta. Tentei não o esquecer, gravando um singelo texto e uma florinha sem cor, no livrinho que escrevi e dediquei à minha Escola e aos meu alunos, “Era uma vez em Outubro”, ilustrado pelo meu sobrinho Manel Cruz.