Na parte mais alta do terreno que circunda a casa que foi dos meus avós paternos, que eu e as minhas irmãs herdámos do tio José, o irmão mais velho do nosso pai, havia uma nespereira que era um dos meus encantos, não pela sua beleza ─ haverá alguma árvore que seja feia? ─, mas pelas belas e doces nêsperas que produzia todos os anos e que eu ia comendo diariamente e de que nunca me fartei, enquanto duravam.
No Verão, os tios Zé e Deolinda, passavam cerca de um mês na aldeia onde nasci, ficando na casa da avó Maria do Rosário, que ficou destinada ao tio Zé após a morte do avô José Maria ─ que morreu bem antes do meu nascimento ─, no processo de partilhas que a avó Maria do Rosário determinou logo que ficou viúva; ao outro filho, Antonino, o meu pai, outros bens foram destinados.
Em frente à casa da avó Maria do Rosário está a casa que foi dos meus pais, onde nasci, rodeada por terreno bem maior do que o que pertencia e pertence à casa da avó, embora a exploração de uma pequena parte desse terreno fosse pertença da avó Maria do Rosário, o que aconteceu até à sua morte.
Numas férias dos tios Deolinda e José fiquei a saber que a nespereira iria ser cortada, pois estava a prejudicar umas três ou quatro oliveiras que a rodeavam, o que me levou a protestar, apesar dos meus sete ou oito anos. Pedagogicamente, o tio Zé tentou explicar-me que assim teria de ser, pois o azeite que a produção de azeitonas permitia era mais útil à avó Maria do Rosário do que as nêsperas. Percebi a razão, mas apenas aceitei a decisão quando a avó Maria do Rosário, com as palavras firmes, mas cheias de amor como sempre, me confirmou que assim teria de ser.
Chegou o dia em que a nespereira foi cortada e eu, como represália, procurei reduzir ao mínimo possível o tempo que diariamente passava junto dos tios na sua permanência na aldeia, que era desde que tomava o pequeno-almoço até chegar a hora de ir para a cama.
Mas o amor que unia o sobrinho que eu era aos tios venceu e a «zanga» não durou mais do que um dia, mas o tempo mostrou que o facto ocorrido foi para mim marcante e, ainda hoje, quando vou à aldeia, uma das primeiras coisas que faço é olhar para o local onde a «minha» nespereira existiu e logo sou «apanhado» pela percepção doce das nêsperas na minha boca… mas agora apenas há saliva, que se produz em abundância. Até as cinco sementes que cada nêspera continha me sabem a doce, embora não me lembre de que alguma vez tenha trincado uma delas.
Lendo agora o último livro de Eva Cruz, ONDE A ÁGUA CANTA E A SAUDADE CHORA, fiquei a saber que a «minha» nespereira era uma nespereira japonesa e que os seus frutos têm a designação de magnórios, mas sinto que nem tal facto atenua a «dor» de não ver a «minha» nespereira no local que era o seu.