CARTA DE BRAGA – “de Garcia Márquez a Miguel Torga” por António Oliveira
clara castilho
Em Maio de 67, já lá vão mais de 50 anos, um colombiano de bigode generoso, sorriso franco e aberto, e uma escrita próxima da gente, publicou um livro a contar estórias de gente nossa, daquela que podíamos imaginar (sem armas) numa aldeia perto da uma serra, de uma qualquer coisa que não fora uma cidade, apesar da lentidão e da ‘austera, apagada e vil tristeza’ que então se vivia por cá, mesmo alguns séculos depois do Poeta!
Alguém me recordou há dias, (ou li em qualquer lado) um episódio daquele fabuloso romance, ‘Cem anos de solidão’, em que Garcia Márquez dizia de um padre, Nicanor de seu nome, a levar uma caixa com um jogo de damas para jogar com José Buendia, o patriarca e fundador da aldeia de Macondo, homem sábio e de princípios firmes, mas que, ao ver o jogo logo rejeitou a proposta, por não poder entender uma disputa, (mesmo num simples jogo de damas), entre dois contendores que estavam em completo acordo nos seus princípios.
Era fabuloso que nos pudéssemos encontrar todos a viver em ‘Macondos’, desde as cidades maiores às mais pequenas aldeias, onde houvesse pessoas como José Buendia ou parecidos, para não haver gente que cuidasse apenas de fomentar divergências, separar e isolar comunidades, países e até associações de países, para perseguir sonhos imperiais ou de grandeza, sempre a envolver ouros e bombas e, obviamente, fomentar ódios, mortes e razias de povos e aldeamentos, quando não cidades e regiões inteiras, por e para ‘inventar’ rivais e inimigos, e os marcar depois, como alvos a abater.
E as coisas estão a atingir uma dimensão grave, perigosa e mesmo catastrófica –veja-se a organização que tem por nome NRx, um movimento da direita mais reaccionária, nascido nos EUA da era Trump– que procura acabar com os direitos sociais, enquanto defende o autoritarismo, o negacionismo, a supremacia branca e o respeito cego às hierarquias sociais e autoritárias. A lógica deste prontuário é aparentemente simples: se antigamente era subversivo confrontar os esquemas morais ditados pela Igreja, ‘rebelde é agora atacar com o que eles chamam neodireitos’. Tudo o que ultimamente foi conseguido por parte da esquerda, como a igualdade de género ou direitos das pessoas ‘trans’, são vistos como ameaças aos valores tradicionais.
Para o historiador Pedro Angosto, ‘Desprezou-se, durante décadas, a educação dos valores cívicos e as disciplinas humanísticas, mormente Literatura, Filosofia e História, de tal maneira que se conseguiram formar magnificamente milhares de economistas, engenheiros, bioquímicos e informáticos, sem a mais pequena preparação humana. Só assim se pode entender como aparecem em lugares de mando pessoas como Musk, Zuckerberg, Bezos, Meloni, Trump, Milei ou Le Pen, gente que está a contribuir para um mundo mais nocivo do que havia quando nasceram, em que só tenham direitos os que também têm capacidade de consumo, e o resto da população excendentária, entregue à contingência dos ventos’.
E o cronista José Becerra, afirma no ‘elDiario.es’, a 28 de Janeiro, a propósito do apoio do Musk ao AfD, o partido da extrema direita alemã, ‘Um neonazi é um aspirante a nazi, ou um nazi vegetariano a quem faltam recursos (em sentido militar) para executar a vontade de submeter e acabar com o ‘inferior’, ou um nazi ‘naif’ que se apoia na observação dos actos nazis onde quer que aconteçam, por não ser um nazi de facto, mas de direito’.
Voltando aos pensamentos de Angosto, lembro-me das redacções que o professor Rabaça, que me ‘fez’ da primeira à quarta classe, ainda as carteiras da escola tinham um tinteiro cravado no tampo, (em cima e do lado direito), a pedir-nos redacções a propósito de qualquer coisa, falar das livrarias para quando arranjássemos umas moedas, de o meu pai nos levar as bandas desenhadas e pequenos livros de estórias, que até nos ensinavam a descrever e a olhar o mundo do lado de cá, como se só fossemos só testemunhas, e o professor a dizer às vezes, ‘Está tão pobrezinho! És capaz de fazer melhor!’
E levávamos para casa, refazíamos, trocávamos ideias e um dia entrei numa livraria que também vendia jornais, fui tratado como mais um cliente, até me atrevi a tirar um livro da estante –ainda tinha o preço escrito a lápis na primeira página, logo depois da capa–. Depois disseram-me que havia ‘livros de bolso’ mais baratos, também de bons autores, e ali voltei mais vezes, fiz amizade com o empregado, e vim as descobrir que a cultura também era também uma questão de ter ou não ler nem ter livros ou dinheiro para os comprar. Mas depois até comprei ‘a pagar depois’, porque o dono também tinha filhos e… as guerras culturais que a nova direita está a fomentar através das políticas educativas de não ler, trazem saudades de todos os professores Rabaça, que houve neste país, até no tempo da ‘Numa casa portuguesa fica bem…’
E, por tudo isto, ‘A vida afectiva é a única que vale a pena. A outra apenas serve para organizar na consciência o processo da inutilidade de tudo’, escreveu Miguel Torga no ‘Diário XIV’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impo