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Espuma dos dias… Encruzilhada da esquerda criada por ela própria — “Em toda a Europa, está-se a formar um cordão sanitário contra a esquerda”. Por Francesca De Benedetti

Nota prévia:

Vive-se politicamente um momento complicado, complicadíssimo mesmo, quer a nível nacional quer a nível internacional.

Fiquemo-nos pelo nosso burgo, com eleições à porta e a classe política manchada pela corrupção explícita ou implícita, uma situação que vemos tanto na Madeira como a vemos aqui, no continente. No caso da AD e no continente temo-la a esconder que não tem quadros políticos de qualidade para uma resposta à situação criada e porque os não tem, irá fazer uma campanha terrível de má qualidade, de insultos sobre insultos aos adversários, ou então substitui Luis Montenegro por Passos Coelho, o homem da Troika, o homem pró Chega, o homem que se desfez das joias da coroa portuguesa. Aqui, a história do Pilha-Galinhas do Chega enfraquece este implícito acordo de coligação, mas de uma maneira ou de outra é de esperar que pela Direita iremos assistir a uma campanha extremamente suja.

A tese suave da Direita de que a crítica a Luís Montenegro significa que a esquerda acha que só políticos sem nada na sua conta bancária é que podem ascender ao poder, vai ser utilizada até ao extremo. Mas repare-se naquilo que está implícito nesta suave tese: chegar a uma certa idade e ser materialmente despossuído de tudo é sinal da mais pura incompetência. E pelos vistos o que a esquerda quererá agora, contra Luís Montenegro, será então políticos incompetentes, na vida e na política !

Outra tese, mais suave que a anterior, para a campanha eleitoral, mas menos coerente, é dizer que Luís Montenegro foi burro, burríssimo, porque bastava ter transferido a sua quota na empresa para os filhos e não teria havido problema nenhum. Dito de outra forma, o Luís Montenegro foi burro porque não soube contornar a lei! E aqui quanto à ética, passa-se uma esponja sobre ela, esquece-se o que é que ela representa e faz-se da lógica uma batata.

Quanto à Esquerda, e uma vez que o PS é o partido nela mais relevante, e digo isto porque hoje podemos considerar o PS como um partido de centro-esquerda, ao contrário do PS dos tempos de António Costa que mais parecia um partido com um discurso de um partido colocado ao centro do espetro político e uma prática política de centro direita do que outra coisa, esta Esquerda tem de ter muito cuidado na forma como pode estabelecer a campanha, tem de lutar contra a ideia enraizada no imaginário coletivo de que o PS é um partido como os outros. E isso tem sido verdade até à saída de António Costa, mas hoje tudo aponta para que isso deixou de ser verdade. Mas não há nada mais difícil que lutar contra teses enraizadas na mente popular e confirmadas durante muitos anos. Esperemos, pois, que o PS de Pedro Nuno Santos saiba descortinar as linhas de ataque contra a direita que o possam levar a ele, e a todos nós, à aventura de redescobrir, no exercício do poder, o espírito de Abril. Repare-se que pessoalmente considero o PS como o partido mais relevante na possibilidade de criar um ponto de viragem nas próximas eleições, uma vez que o Bloco de Esquerda vive mais a aquecer-se não nas lutas populares, mas sim na utilização das bandeiras utilizadas pela comunidade LGBT, o Livre vive à procura de se encostar a uma ou outra bandeira empunhada firmemente pelo PS e o PC, apesar de muitos valores politicamente seguros está a sofrer de um problema de comunicação.

Para vos mostrar a gravidade da situação, apresentamos alguns exemplos externos ao caso português, mas com paralelos de situação evidentes, que nos mostram os contextos em que a esquerda tem sido cilindrada. Para que cada um de nós possa refletir nestes exemplos e recolocá-los no quadro da nossa política nacional.

Os textos que aqui vos deixo hoje e nos próximos dois dias são:

  1. Branko Milanovic sobre a Sérvia: A ruptura do sistema representativo e o caminho para a ditadura. Um título e uma situação que dizem tudo.
  2. Mary Harrington: Cuidado com a geração do confinamento. As teses defendidas neste texto ajudarão a perceber em parte a votação em crescendo na Iniciativa Liberal.
  3. Francesca de Benedet: Em toda a Europa, está-se a formar um cordão sanitário contra a esquerda. Um texto que nos dá indicações sobre o comportamento da direita por essa Europa fora, comportamento esse que iremos vê-lo nas próximas eleições tanto pela AD como pela Iniciativa Liberal.

 

Júlio Mota, 21/03/2025


5 min de leitura

Em toda a Europa, está-se a formar um cordão sanitário contra a esquerda 

 Por Francesca De Benedetti

Publicado por Le Vent se Lève em 13 de Março de 2025 (original aqui)

Publicado originalmente por  (ver aqui; tradução de Alexandra Knez para francês).

 

Steve Bannon, propagandista da extrema-direita próximo de Donald Trump estendeu a sua ofensiva à Europa . © Gage Skidmore

 

Em todos os cantos da Europa, os partidos centristas estão cada vez mais a retratar a social-democracia, mesmo moderada, como uma ameaça de “extrema-esquerda”. A retórica ultrajante sobre o perigo de esquerda tem um objetivo claro: justificar alianças com partidos de extrema-direita que antes eram desaprovados.

 

Em janeiro, o homem mais rico do mundo ofereceu uma plataforma global ao líder da Alternativa para a Alemanha (AfD), um partido de extrema-direita. Ex-membro da sociedade Hayek, consultora financeira e ainda seguidora fervorosa do neoliberalismo, ela não se absteve de proferir obscenidades como “Hitler era comunista, socialista”.

Os comentários feitos pela presidente da AfD, Alice Weidel, no site X com Elon Musk podem parecer extremos. No entanto, isso ilustra o que é agora uma tendência fundamental na Europa.

Há anos que assistimos à classe política tradicional derrubar os últimos obstáculos que se colocam contra a extrema-direita. Na quarta-feira passada, no Bundestag, os democratas-cristãos (CDU) e a AfD de Weidel votaram em conjunto uma moção pedindo uma restrição da imigração. Mas, hoje, a situação é tal que já não podemos falar apenas em levantar estas barreiras. Com efeito, o famoso cordão sanitário está agora ativamente contra a esquerda.

Por “esquerda” não me refiro apenas a partidos com vocação social, como vimos recentemente com a diabolização da Nova Frente Popular em França e a exclusão dos social-democratas das negociações governamentais na Áustria. Porque este amordaçamento estende-se também aos movimentos sociais, ativistas do clima, ONG’s, sindicatos e, de um modo mais geral, a uma sociedade civil vital capaz de reagir contra a aliança inescrupulosa de neoliberais e populistas de direita.

 

Exclusão do poder

Os efeitos desta tendência são particularmente acentuados na Áustria, onde nunca houve um verdadeiro cordão sanitário contra a extrema-direita. Aqui, o primeiro governo liderado pelo conservador partido do povo (ÖVP), incluindo o partido da Liberdade pós-Nazi (FPÖ), remonta a 2000. Mas as posições relativas dessas forças mudaram. No início do ano, Herbert Kickl, o líder do FPÖ, iniciou negociações para liderar um governo em que o partido de extrema-direita seria o líder e o tradicional partido de centro-direita, o ÖVP seria então o parceiro minoritário [Nota do editor LVSL: as negociações entre o ÖVP e o FPÖ  não foram finalmente bem sucedidas e este governo já não parece estar na ordem do dia, no entanto, a crescente proximidade entre os dois partidos permanece].

O ÖVP tinha anteriormente rejeitado este cenário, iniciando discussões com o Partido Social Democrata (SPÖ) antes de interrompê-las abruptamente no início deste ano. O ex-líder e Chanceler do ÖVP, Karl Nehammer, explicou o ponto de rutura nestes termos: “em algum momento, o líder social-democrata Andreas Babler mudou para uma retórica de luta de classes e com uma proposta antiquada da social-democracia”. Assim, mesmo o tradicional centro-esquerda é mais demonizado do que os pós-Nazis. A chamada centro-direita está agora a procurar um acordo com a extrema-direita em nome da prossecução de uma agenda favorável às empresas sem elementos disruptivos, e é assim que as propostas do SPÖ sobre justiça fiscal e social são apresentadas desfavoravelmente.

Enquanto as negociações com os social-democratas ainda estavam em curso, Harald Mahrer, presidente da Câmara Federal austríaca de economia e membro da equipa de negociação do ÖVP , admitiu que “algumas pessoas namoriscam com o programa económico do FPÖ  por ter sido parcialmente copiado do nosso e do da Federação das indústrias austríacas”, referindo-se ao principal grupo patronal do país. A retirada da Nova Áustria e do Fórum Liberal (NEOS) destas primeiras negociações – o gatilho, se não a causa absoluta do seu fracasso – e a rutura definitiva anunciada pelo ÖVP imediatamente depois, foram ambas motivados pelos interesses e pressões do mundo empresarial.

“O que importa para nós é que o orçamento seja reformado apenas do lado da despesa pública”, disse Georg Knill, presidente da Federação das indústrias austríacas. Em paralelo com a extrema-direita, o ÖVP rapidamente se associou a este ponto de vista. “Com os social-democratas, isso teria sido impossível”, concluiu Knill. Em nome da defesa dos mais ricos, o ÖVP assimila o que sabe ser um partido de origem nazi, pró-Moscovo, pró-AfD, pró-Viktor Orban — usando este partido como vigarista, desde que sirva aos seus próprios interesses — e está agora aberto à ideia de ter Kickl como chanceler.

Em França, uma tendência semelhante também é evidente há algum tempo. As forças neoliberais, como o Partido Renascença de Emmanuel Macron, estão prontas para se darem bem com a extrema-direita – até jantam juntas, como revelou no verão passado a Libération, que noticiou encontros secretos entre personalidades do campo do Presidente e os líderes da Rassemblement national, Marine Le Pen e Jordan Bardella – enquanto tentam demonizar e excluir a esquerda do poder. Aqui, a dinâmica política é combinada com uma mudança perturbadora no discurso público, o que torna a tendência ainda mais alarmante.

 

Nas origens da diabolização

“No fim de contas ninguém ganhou”. Numa carta datada de julho passado, o presidente francês informou os eleitores que acabavam de fazer da Nova Frente Popular de esquerda o maior bloco da Assembleia Nacional que as eleições legislativas de facto não produziram resultados conclusivos.

Desde então, durante meses de crise política sem fim que ele próprio iniciou, Emmanuel Macron não hesitou em confiar o governo a figuras políticas de forças ultra-minoritárias, como Michel Barnier dos Republicanos, e até imaginou governos dependentes do apoio externo de Marine Le Pen. Em suma, Macron tudo fez para excluir a esquerda de qualquer acesso ao poder. Ele chegou a negar que a Nova Frente Popular tinha saído por cima nas eleições. Como é que ele pôde fazer isto?

Como escreveu o semiólogo francês Roland Barthes, “as grandes mutações não estão ligadas a acontecimentos históricos solenes, mas ao que se poderia chamar de rutura discursiva”. Já durante as eleições legislativas anteriores, em 2022, Macron implementou plenamente a sua estratégia de diabolizar France Insoumise e o seu fundador Jean-Luc Mélenchon. Foi o mesmo tipo de diabolização que ele usou com sucesso contra Marine Le Pen em 2017. O termo “extrema-esquerda” impôs-se no discurso público, onde tem a mesma conotação negativa, ou pior ainda, do que a extrema-direita que, entretanto, se tornou cada vez mais banalisada. No verão de 2022, o Rassemblement national de Le Pen conseguiu que dois membros fossem eleitos para a vice-presidência da Assembleia Nacional, graças ao apoio dos deputados Macronistas.

Após as eleições de 2024, a estratégia de diabolização de Macron visava, em primeiro lugar, boicotar a união da esquerda, tentando excluir France Insoumise  do que o presidente francês interpreta como sendo a “frente republicana”. A dinâmica política da exclusão do poder está intimamente ligada a este ataque semântico. De acordo com o filósofo Michaël Foessel, “a palavra República perde o seu significado original. Inicialmente, a República designava um conjunto de princípios que garantem a liberdade constitucional e a igualdade. A partir de agora, qualquer um que questione a lógica dominante é qualificado como anti-republicano e, portanto, por essa ressonância, também os movimentos de protesto”. A esquerda teve a sua linguagem roubada: “passámos da República dos princípios, com a sua vocação social, para a República dos valores, que está a tornar-se exclusiva e disciplinar”.

 

Uma tendência europeia

Para além do colapso da barreira protetora contra a extrema-direita, a projeção do cordão sanitário contra a esquerda corresponde a uma tendência europeia. Isso também pode ser visto ao nível das instituições da UE. Sophie Wilmès, ex-primeira-ministra belga e atual vice-presidente do Parlamento Europeu, disse recentemente numa entrevista: “os liberais também aplicarão o cordão  sanitário contra a extrema-esquerda”. Esta tendência está longe de ser recente, e o primeiro a apresentá-la foi o principal grupo Democrata-Cristão, o Partido Popular Europeu (PPE).

Em 2021, o presidente do PPE, Manfred Weber, firmou uma aliança tática com a líder pós-fascista Giorgia Meloni; ao mesmo tempo, iniciou uma batalha política e semântica contra a esquerda. Embora a primeira reação virulenta do grupo dos Socialistas e Democratas (centro-esquerda) no Parlamento Europeu só tenha ocorrido há alguns meses, quando Manfred Weber desencadeou as forças do PPE contra a vice-presidente socialista da Comissão Europeia, Teresa Ribera, o ataque já tinha começado muito antes. A primeira eleição de Roberta Metsola como presidente do Parlamento Europeu, em 2022, teve lugar com o apoio da extrema-direita, enquanto grupos de esquerda e os verdes foram marginalizados nas negociações. Já há anos antes, a conservadora Metsola não escondia que tinha mais em comum com os amigos do partido Fratelli d’Italia de Meloni do que com a esquerda, que ela até repreendeu recentemente por cantar o hino antifascista “Bella ciao” no Salão do Parlamento.

Se os socialistas de centro-esquerda esperavam ser poupados do ataque do PPE, podem agora ver, através da estratégia agressiva de Weber, que deixar as forças de direita dividirem as forças progressistas acaba por tornar todos mais vulneráveis, em Bruxelas como em Paris.

A aliança entre as forças neoliberais e a extrema-direita é também acompanhada por uma tendência cada vez mais acentuada para suprimir a dissidência. Neste sentido, o cordão sanitário opõe-se não só aos partidos de esquerda, mas também aos sindicatos, às ONG, aos movimentos ambientalistas e à sociedade civil em geral, quando estas forças tentam expressar e organizar a dissidência.

Poucas pessoas assinalaram que o PPE tentou usar o Catargate (um escândalo de corrupção que rebentou no Parlamento Europeu em 2022) para introduzir uma política de criminalização das ONG. O líder do PPE Weber demonstrou mais zelo em querer impor restrições às ONG do que em pressionar por reformas radicais contra os interesses das empresas. Isto constitui outro fator de harmonia com a extrema-direita.

Recordemos que o ex-ministro francês do interior, Gérald Darmanin, tentou mesmo criminalizar a Liga dos Direitos do Homem, bem como as associações ambientais. E é impossível não mencionar a brutal repressão dos movimentos sociais, ambientais e dos protestos contra a reforma das pensões em França. A criminalização dos movimentos ambientais é uma tendência que afeta também toda a Europa. Nos últimos anos, vários governos (Itália, Hungria, Reino Unido, França) tentaram repetidamente limitar o direito dos trabalhadores à greve.

Os governos que toleram excessos autoritários, como vemos em Itália, com Giorgia Meloni, e como vimos na Hungria, com o Orban, também tendem a suprimir a dissidência. Combinados, o levantamento de barreiras contra a extrema-direita e a imposição de uma lógica de exclusão contra a esquerda amplificam-se mutuamente com resultados devastadores. A Europa está banhada numa atmosfera sufocante.

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A autora: Francesca De Benedetti é editora sénior da Domani, onde é especializada na cobertura dos Assuntos Europeus. Além disso, De Benedetti contribui com colunas sobre política europeia para a Vanity Fair e Jacobin. É também co-fundadora do European Focus newsletter. A sua perspicaz escrita sobre a política italiana tem sido apresentada em publicações como Libération, Balkan Insight, o International Press Institute e vários outros meios de comunicação internacionais.

 

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