Viver em Gaza e na Palestina: A vida, o horror que não é imaginável à distância, sob o peso da escassez e do medo – por Carlos Pereira Martins
António Gomes Marques
Viver em Gaza e na Palestina: A vida, o horror que não é imaginável à distância, sob o peso da escassez e do medo
por Carlos Pereira Martins
Nos dias actuais, viver em Gaza ou em partes da Cisjordânia é sobreviver entre escombros — físicos e emocionais. A região, marcada há décadas por conflitos recorrentes, enfrenta uma crise humanitária profunda que atinge todos os aspectos da vida civil. Independentemente de narrativas políticas, os factos humanitários falam por si: noutras situações, dir-se-ia que há vidas sendo vividas em condições extremas de carência, insegurança e trauma constante. Hoje, em Gaza e na Palestina, todas as vidas, tudo o que ainda é vivo, vive com carência de tudo, sem nada a não ser o horror de cada hora e cada minuto que passa.
Em Gaza, uma das áreas mais densamente povoadas do mundo, a população sofre com falta crónica de electricidade, água potável, medicamentos e alimentos. O sistema de saúde já há muito que colapsou com os poucos hospitais que ainda não foram arrasados pelas bombas, superlotados, com falta de anestésicos, equipamentos quebrados e profissionais exaustos. Ferimentos que em outras partes do mundo seriam tratados com agilidade tornam-se sentenças de dor prolongada, quando não de morte a breve prazo.
O fornecimento de água potável é um dos problemas mais graves. A maioria da água disponível é imprópria para consumo humano, e o acesso a fontes seguras é muito limitado ou quase nulo. Pessoas percorrem longas distâncias, muitas vezes sob bombardeios ou restrições de circulação, para tentar encher garrafas e baldes. A higiene diária ou momentânea torna-se um desafio, aumentando o risco de doenças, pragas e calamidades.
A alimentação é outra angústia diária. Muitos vivem com racionamentos mínimos. Famílias dependem da ajuda humanitária que nem sempre chega. Quando chega, pode ser interrompida por bloqueios, combates ou falta de coordenação. Crianças crescem com fome, sem escola, expostas a ruídos de guerra que marcarão as suas infâncias para sempre.
O dia a dia é imprevisível. Explosões, toques de recolher e deslocamentos forçados fazem parte da rotina. Escolas viram abrigos. Casas deixam de ser refúgios. Muitas pessoas já perderam tudo — os familiares, vizinhos, as suas casas e a esperança de uma vida normal. Viver assim é viver com medo constante, com terror. É não saber se o dia seguinte vai chegar.
Apesar disso, há vontade de resistir. As pessoas continuam a cuidar umas das outras, a buscar educação mesmo rodeadas ou no meio dos escombros, a manter a dignidade mesmo em situação de desespero extremo. Há médicos que trabalham em turnos ininterruptos, voluntários que ajudam no resgate de feridos, professores que improvisam aulas no meio das ruínas.
Contar o que acontece em Gaza e na Palestina hoje não é tomar partido, é simplesmente reconhecer a dimensão da tragédia humana que ali se desenrola. É lembrar que por trás dos números, das manchetes e dos discursos, há seres humanos — com sonhos, com famílias, com o direito de viver em paz.