Viver em Gaza e na Palestina: A vida, o horror que não é imaginável à distância, sob o peso da escassez e do medo – por Carlos Pereira Martins

Viver em Gaza e na Palestina: A vida, o horror que não é imaginável à distância, sob o peso da escassez e do medo

por Carlos Pereira Martins

 

Nos dias actuais, viver em Gaza ou em partes da Cisjordânia é sobreviver entre escombros — físicos e emocionais. A região, marcada há décadas por conflitos recorrentes, enfrenta uma crise humanitária profunda que atinge todos os aspectos da vida civil. Independentemente de narrativas políticas, os factos humanitários falam por si:  noutras situações, dir-se-ia que há vidas sendo vividas em condições extremas de carência, insegurança e trauma constante. Hoje, em Gaza e na Palestina, todas as vidas, tudo o que ainda é vivo, vive com carência de tudo, sem nada a não ser o horror de cada hora e cada minuto que passa.

Em Gaza, uma das áreas mais densamente povoadas do mundo, a população sofre com falta crónica de electricidade, água potável, medicamentos e alimentos. O sistema de saúde já há muito que  colapsou com os poucos hospitais que ainda não foram arrasados pelas bombas,  superlotados, com falta de anestésicos, equipamentos quebrados e profissionais exaustos. Ferimentos que em outras partes do mundo seriam tratados com agilidade tornam-se sentenças de dor prolongada, quando não de morte a breve prazo.

O fornecimento de água potável é um dos problemas mais graves. A maioria da água disponível é imprópria para consumo humano, e o acesso a fontes seguras é muito limitado ou quase nulo. Pessoas percorrem longas distâncias, muitas vezes sob bombardeios ou restrições de circulação, para tentar encher garrafas e baldes. A higiene diária ou momentânea torna-se um desafio, aumentando o risco de doenças, pragas e calamidades.

A alimentação é outra angústia diária. Muitos vivem com racionamentos mínimos. Famílias dependem da ajuda humanitária que nem sempre chega. Quando chega, pode ser interrompida por bloqueios, combates ou falta de coordenação. Crianças crescem com fome, sem escola, expostas a ruídos de guerra que marcarão as suas infâncias para sempre.

O dia a dia é imprevisível. Explosões, toques de recolher e deslocamentos forçados fazem parte da rotina. Escolas viram abrigos. Casas deixam de ser refúgios. Muitas pessoas já perderam tudo — os familiares, vizinhos, as suas casas e a esperança de uma vida normal. Viver assim é viver com medo constante, com terror. É não saber se o dia seguinte vai chegar.

Apesar disso, há vontade de resistir. As pessoas continuam a cuidar umas das outras, a buscar educação mesmo rodeadas ou no meio dos escombros, a manter a dignidade mesmo em situação de desespero extremo. Há médicos que trabalham em turnos ininterruptos, voluntários que ajudam no resgate de feridos, professores que improvisam aulas no meio das ruínas.

Contar o que acontece em Gaza e na Palestina hoje não é tomar partido, é simplesmente reconhecer a dimensão da tragédia humana que ali se desenrola. É lembrar que por trás dos números, das manchetes e dos discursos, há seres humanos — com sonhos, com famílias, com o direito de viver em paz.

 

 

5 Comments

  1. O texto do Carlos Pereira Martins é cheio de boas intenções, mas deixa de lado questões fulcrais relacionadas com a verdadeira intenção e correspondente acção do Estado de Israel com a cumplicidade dos EUA, da Grã-Bretanha e, para desgosto meu, da União Europeia. Está a acontecer o genocídio do povo Palestiniano, com aquelas cumplicidades, fazendo destes cúmplices criminosos de guerra.
    Publicámos o texto do Carlos por o conhecermos e sabermos que o escreveu com as melhores intenções, mas, quando se fala deste conflito, não podemos ignorar a história e, por isso, não podemos deixar de responsabilizar todos os cúmplices no genocídio que está a acontecer.
    Também publicámos o texto do Carlos por não sermos sectários, não fazendo o que os órgãos de comunicação estão a fazer, nomeadamente a tentativa de calar a voz de quem melhor conhece o conflito israelo-palestiniano, a voz de Alexandra Lucas Coelho.
    Remeto os leitores para o meu texto sobre a mesma matéria, aqui publicado, destacando já a seguinte passagem:
    «Israel declarou a sua independência em 14 de Maio de 1948, os Estados árabes vizinhos atacaram no dia seguinte, de acordo com a sua rejeição da Resolução 181 da ONU, que partilhava a Palestina entre árabes e judeus. Os árabes nunca aceitaram a Resolução da ONU, dando origem ao primeiro conflito árabe-israelita. Desde então, aconteceram várias guerras entre Israel e os Estados árabes vizinhos, embora, em rigor, devêssemos considerar que a primeira guerra aconteceu no seguimento da já por mim referida Declaração Balfour.
    Mas um plano de extermínio dos Palestinianos elaborado pelos sionistas já vinha de antes desta declaração de independência, com Ben-Gurion à cabeça, plano esse ultimado na tarde de quarta-feira, dia 10 de Março de 1948, por um grupo de onze homens, composto por líderes veteranos sionistas e jovens oficiais militares judeus, o Plano Dalet, que foi posto em prática e tem vindo a ser executado sistematicamente, o que o criminoso primeiro-ministro de Israel Netanyahu neste momento já se sente à vontade para não esconder. Foi a quarta versão deste plano a aprovada, as versões anteriores foram muito discutidas na própria casa de Ben-Gurion.
    O nome dos onze homens que ultimaram o Plano Dalet (Plano D, em hebraico Dalet) foi apagado, mas as investigações do historiador israelita Ilan Pappé acabaram por nos dar a conhecer os nomes desses… organizadores (estou a ser simpático) do plano, onde se tornava claro que, segundo o historiador Simcha Flapan, citado por Ilan Pappé, «a campanha militar contra os árabes, incluída a “conquista e destruição das áreas rurais”, expôs-se no Plano Dalet da Haganah». Escreve Ilan Pappé, “o plano foi ao mesmo tempo o produto inevitável da ideologia sionista, que defendia um Estado exclusivamente judeu na Palestina, e uma resposta aos acontecimentos que ocorreram no terreno uma vez que o gabinete britânico tinha decidido pôr fim ao Mandato. Os choques com as milícias palestinianas locais proporcionaram o contexto e o pretexto perfeitos para implementar a visão ideológica de uma Palestina etnicamente limpa. A política sionista, que em Fevereiro de 1947 se baseava nas represálias pelos ataques palestinianos, transformou-se numa iniciativa para a completa limpeza étnica do país em Março de 1948.” (Ilan Pappé, 2023).»
    Deixo também o «link» para o meu texto:
    https://aviagemdosargonautas.net/2024/02/26/quando-se-apoia-israel-o-que-esta-realmente-a-apoiar-se-por-antonio-gomes-marques/

    1. Meu querido amigo António Gomes Marques, estou absolutamente de acordo com o que escreves no teu comentário e agradeço-te a atenção.
      Quem comigo priva de perto, sai sem qualquer dúvida o meu apego e apoio à causa Palestiniana, à Palestina e que condeno veementemente Israel, quem apoia Israel e o horror e dor que me causa o genocídio que está a ser cometido. Importante também, foi teres lembrado o silenciar que fizeram a Alexandra Lucas Coelho. Sabes, Antonio, algumas vezes o escrever ao ritmo a que a mão se move, depressa, leva-nos a convencermo-nos que ficou bem claro o nosso sentimento. E, por vezes, não fica. Fica para nós mas o que espelha para quem lê estando fora de nós, fica aquém. Obrigado pelas tuas palavras que subscrevo na íntegra. Abraços rijos para todos os que nos possam ler! Carlos Pereira Martins

  2. Lamento escrevê-lo, e também não posso aceitar comportamentos passados de determinados estados (ou grupos) árabes. Mas quem vem criando o problema desde há várias décadas? A Europa e Estados Unidos. Quem não quis ver há 50-60 anos o holocausto? A Europa e Estados Unidos. Quem está fomentando esta reedição agravada de holocausto? A Europa e Estados Unidos.

  3. Subscrevo o que diz J Almeida Serra. Para os que estamos vivos e temos memória o inacreditável está efetivamente a acontecer: um genocídio perante os nossos olhos! Diariamente! E os europeus, já para não falar dos norte-americanos (onde se reprime e censura tudo o que seja dizer mal ou protestar contra Israel), calados! Como é possível não recordar e associar o que Israel está a fazer (apoiado por EUA, UE e Reino Unido) com o Holocausto? Porque o que se está a passar em Gaza (e Cisjordânia) é um verdadeiro Holocausto!

  4. Devo acrescentar ainda: Porque assistir diariamente a um verdadeiro genocídio sem que se levante um clamor imenso (do mesmo tamanho ou maior do que aquele que aprendemos com a derrota do nazismo) só pode significar que estamos desligados da realidade…. e que há qualquer de errado com as escolhas que fazemos dos nossos dirigentes.

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