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Espuma dos dias — As tarifas de Trump e o trumpismo. Por Manuel Ramalhete

Nota de editor

Na sequência de outros textos já publicados sobre a política de tarifas de Trump, nomeadamente O Acordo comercial da UE é uma capitulação perante a América de Thomas Fazi (ver aqui) e Um olhar mais atento ao Acordo Comercial de Trump com a EU de Robert Kuttner (ver aqui), publicamos hoje um texto de Manuel Ramalhete, As tarifas de Trump e o trumpismo, que embora escrito em Abril passado, “mantém alguma atualidade” como diz o seu autor.

Precisamente anteontem, este tema foi abordado por António Oliveira – Carta de Braga “de maus presságios”  (ver aqui) – onde cita a última crónica de Carlos Fortea [escritor e professor nas universidades de Salamanca e Complutense de Madrid]:

‘A Europa não só perdeu a oportunidade de demonstrar que é um gigante económico, como também deixou aqueles que agora deveriam ser seus aliados naturais, sozinhos no confronto com Trump’, e recordando ter crescido acompanhado pelo velho ditado de a Europa ser um gigante económico, mas um anão político, o mesmo que esteve num campo de golf da Escócia, ‘para se vergar às imposições de um sátrapa caprichoso’.

De seguida apresentamos a mensagem de Manuel Ramalhete a Júlio Mota que acompanhou o texto que agora publicamos.

FT


Júlio.

Como te disse, a Associação dos reformados da GALP “cravou-me” para fazer uns artigos para a revista. Para teu conhecimento, aí vai o último, que aliás é sobre uma matéria que tu tens estudado ao longo dos anos ao contrário de mim, que não sendo propriamente um especialista na matéria, e dado o público a que se destina, procurei dar a visão de um generalista.

O artigo foi escrito em Abril, embora só agora publicado, pois a revista é trimestral, e entretanto muitas coisas já aconteceram depois disto. Mas penso que a análise mantém alguma actualidade.

No que à Europa diz respeito, já foi acordado entre a EU e os EUA um novo regime tarifário, e já muita gente se pronunciou, apenas umas notas em complemento ao artigo em anexo.

Este sistema, como tem sido padrão da nova administração americana, resultou de um longo processo de avanços, recuos e “bleuffs”, com visitas de cada uma das partes ao território da outra parte, com o acordo final a ocorrer em terreno aparentemente neutro – Escócia – ainda que numa estância do grupo Trump (Trump Turnberry Golf Resort), o que também não deixa de ser sintomático.

Sem querer entrar em detalhes sobre o acordo, ressaltam duas mensagens diferentes, correspondentes a cada um dos lados. Do lado europeu, a exaltação da importância deste acordo para a estabilidade e previsibilidade das relações comerciais entre os dois blocos, ainda que alguns líderes europeus tenham falado em submissão inaceitável (França). Do lado americano enfatizaram o estabelecimento de um acordo comercial histórico e que se insere no processo de “libertar a América de práticas comerciais injustas”.[1]

Para além da enorme incerteza que não acaba com este acordo, dada a natureza do comportamento de Trump, capaz de mudar facilmente o que está acordado, incluindo direitos aduaneiros, em função da sua agenda no momento, já se algo não lhe agrada é capaz de ameaçar com direitos adicionais, como é capaz de recuar se o oponente lhe faz frente (como foi o caso da China), ao ponto de ser generalizado a expressão TACO (Trump Always Chickens Out), que em tradução livre significa que Trump  se acobarda sempre que lhe fazem frente.

Portanto, estabilidade e previsibilidade estão longe de estar garantidas, tal como não estão garantidas, na minha opinião, condições para um maior crescimento na Europa, nem nos EUA. Não é preciso citar Adam Smith e a sua obra, “An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations”, e a sua crença que o protecionismo poderia levar a uma alocação ineficiente de recursos, prejudicando o crescimento econômico. Já a liberdade de comércio incentivava a competição, inovação e o benefício mútuo entre as nações, promovendo uma economia mais próspera e dinâmica.

Finalmente, quando estiveres com insónias, talvez seja altura ideal para leres, sempre poderá funcionar como terapia de substituição.

Abraço,

Manuel Ramalhete, 07/08/2025

[1] O acordo dispõe genericamente que os direitos aduaneiros aplicáveis à maioria dos bens exportados da UE para os EUA serão de 15%; em contrapartida, os produtos provenientes dos EUA não terão direitos ao entrarem no espaço europeu.

 


7 min de leitura

As tarifas de Trump e o trumpismo [1]

 por Manuel Ramalhete

Em 15-04-2025

 

O progresso da humanidade baseia-se principalmente na livre troca de bens e serviços entre as pessoas, em que cada uma se especializa na produção em que tens vantagens relativas, e vende essa produção para comprar os restantes bens e serviços que necessita. Aplicado a países, como o fez David Ricardo, vemos que na base do crescimento económico, em grau acentuado na segunda metade do século passado, está a intensificação do comércio internacional e o fenómeno da globalização.

Dizia Adam Smith, em A Riqueza das Nações, “Esta divisão do trabalho, da qual derivam tantas vantagens, não é, na sua origem, efeito de uma qualquer sabedoria humana, que preveja ou pretenda a opulência generalizada a que dá azo. É a necessária, embora deveras lenta e gradual, consequência de uma certa propensão da natureza humana que não tem em vista tal utilidade abrangente: a propensão para negociar, regatear e trocar uma coisa por outra”.

Não existem, pois, dúvidas de que a troca, ou comércio, é um motor fundamental para o desenvolvimento das pessoas e dos países. A longo prazo o aumento do comércio e uma maior produtividade fazem com que aumentem os níveis de vida de todos os países. De forma gradual, a evidência empírica tem mostrado que a abertura das suas economias ao sistema de comércio global é o caminho mais seguro para a prosperidade.

Portanto, como tem sido salientado por todos os analistas internos e externos, esta “jihad” lançada por Trump contra o comércio livre através de tarifas é um rude golpe. Existe praticamente unanimidade na critica e no salientar dos efeitos nefastos sobre a economia americana e também sobre a economia mundial, dado o enorme efeito daquela sobre esta.

É evidente que as tarifas a serem aplicadas de acordo com a propaganda oficial, vão reduzir importações, mas também vão reduzir as exportações, já que utilizam inputs mais caros. Alguma produção interna vai aumentar, mas a procura vai diminuir e os produtos vão ficar mais caros (já se fala no retorno da estagflação) e o investimento vai ser direcionado para áreas menos produtivas. Ou seja, uma economia a funcionar de forma bastante menos eficiente, e alguns ganhos obtidos nunca serão compensados pelas perdas obtidas.

Se Trump achava que havia desigualdade de tratamento nalguns casos, e admitimos que sim, então o caminho era pressionar os países em que isso ocorria a baixarem as suas tarifas, e não aplicar cegamente uma fórmula que ridiculamente até “engloba” ilhas desabitadas, ou habitadas apenas por pinguins.

Se o seu problema era corrigir défices comerciais, tinha outras vias, bem mais eficazes e menos nefastas para a economia americana e mundial, como desvalorizar a moeda, fazer desvalorização fiscal e reduzir o défice público, por exemplo, e outras medidas de contenção do consumo. Mas não, Trump quis mostrar que os défices existiam por que os outros estavam a viver “á custa” dos Estados unidos da América (EUA) e que tinham de pagar por isso, criando a ideia que são os estrangeiros que vão pagar quando sabemos que a maior parte recairá sobre os americanos e a primeira factura virá a com a inflação interna.

Claro que o proteccionismo sempre existiu, não é uma novidade “trumpiana”, e outros países, em maior ou menor grau, o praticam, mas deve ser em geral como excepção e transitório e em casos excepcionais, como por exemplo, para proteger indústrias nascentes e de forte inovação, algumas áreas estratégicas, e por vezes na limitação exportação de tecnologias criticas, ou em situações de forte recessão, e de forte desemprego, em que será recomendável politicas nesse sentido, mas não como regra, e de forma transitória. Mas nem sequer foi o caso na economia americana.

Tudo isto foi dito e redito na enorme quantidade de artigos na imprensa nacional e internacional, e por isso não vamos insistir na repetição do que foi dito, e que em geral concordamos. Reservamos o resto da análise para aspectos absurdos de tal decisão e para as implicações politicas e sociais que arrastou. É o que faremos de seguida, começando por uma frase emblemática com 50 anos de existência.

“Eu só cometi o erro de acreditar em vocês, os americanos. “

Esta frase circulou nas redes sociais, sobretudo no sudoeste asiático, a seguir ao chamado, por Trump, “Dia da libertação”. Mas estamos em crer que em muitos outros lugares do mundo, e em particular na Europa, ela foi sentida por muitos cidadãos desiludidos, ainda que, sobretudo na Europa, com alguma dose de hipocrisia á mistura.

Curiosamente esta frase, no seu original, é já antiga, e foi pronunciada, em Abril de 1975, pelo príncipe Sirik Matak, em carta dirigida ao embaixador americano John Gunther Dean, quando da tomada de assalto do Cambodja pelos kemeres vermelhos. Mas não deixou de ser relembrada a seguir ao que Trump chamou de “dia da libertação” americana.

Tudo isto porque países como o Camboja, Laos e Vietnam, por exemplo, foram contemplados com anúncios de tarifas, respectivamente, de 49%, 48% e 46%. E tudo isto porquê?  Por que foi uma retaliação a uma politica altamente protecionista em relação aos EUA? Não! Porque, como mostra a conta oficial dos EUA, se inventou uma fórmula que começa não com tarifas, mas com os excedentes comerciais registados por cada parceiro comercial. Este excedente foi então dividido pelo comércio bilateral total, para obter uma medida do desequilíbrio.

No discurso de Trump, esta é uma medida do grau em que o que cada país estava “a arrancar à América”. Porque o presidente queria enviar uma mensagem, mas também mostrar a sua magnanimidade, os EUA aplicaram então uma taxa de desconto de 50% à “tarifa”, chegando ao que chama de “tarifas recíprocas”, a menos que a tarifa mínima de 10% fosse maior, caso em que essa é a taxa que se aplica.

Note-se que estamos a falar de países pobres. Para termos uma ideia da dimensão social da insensatez em presença, temos os seguintes rendimentos, medidos pelo PIB, per capita em Paridade de Poderes de Compra, em 2023:

Para o presidente Trump, a medida, baseada numa fórmula onde é difícil descortinar racionalidade económica social e política, indicava o grau que cada país estava a “arrancar à América”. Espantado? É natural, pois seria improvável não ficar espantado com o que assistimos.

As taxas para o Vietname, Laos e Camboja são tão elevadas porque têm um grande desequilíbrio comercial com os Estados Unidos e resultaram da aplicação cega da fórmula. Mas isto não é o resultado de qualquer proteccionismo excessivo, nem de qualquer descriminação violenta em relação às importações americanas. Isto acontece por serem países relativamente pobres e os EUA não produzirem muitos bens que lhes sejam relevantes para eles importarem. E eles têm modelos de crescimento baseados em exportações, com foco em mercados ricos como os EUA, muitas vezes baseados em mão de obra barata. O Vietname, em particular, emergiu como um centro de cadeia de abastecimento por excelência, sobretudo para o fabrico de produtos eletrónicos de consumo e vestuário.

O caso do Vietnam é muitas vezes referido como um “entreposto” de exportações da China e é uma forma de a China contornar alguma pressão que tem sofrido dos EUA, sendo por isso um canal para a indústria e o comércio a partir da China. Pensamos existir algum fundo verdade nesta asserção, já que existe uma correlação notável entre as importações vietnamitas provenientes da China e as exportações para os EUA. Mas pensamos não traduzirem a verdade completa, já que o Vietnam está a emergir como um elo fundamental nas cadeias de abastecimento globalizadas, nas quais a China desempenha, obviamente, um papel descomunal.

Isto é tanto assim que não foram apenas as exportações do Vietname para a América que cresceram nos últimos anos. Também as exportações deste país para o resto do mundo aumentaram, e ainda mais, já que atingiram os 89 mil milhões de dólares em 2018, quando para os EUA foram de 72 mil milhões de dólares no mesmo ano. Portanto, do volume de importações do Vietnam a partir da China, a maior parte foi para o resto do mundo.

O que se conclui é que o Vietnam está a emergir como centro produtor do sudoeste asiático, mas grande parte é proveniente de grandes empresas americanas, cujo caso mais saliente é o do gigante Nike. Com efeito, nos últimos vinte anos, esta multinacional transferiu a produção de calçado da China, que representava 40%, para o Vietname, que representa agora 50% da sua produção.

Segundo Adam Tooze, a Nike tem 155 fábricas a trabalhar para si no Vietname, sobretudo no sul do país, em torno da cidade de Ho Chi Minh (antiga Saigão), e segundo o mesmo autor, emprega mais de meio milhão de pessoas no Vietname.

Para termos ideia da dimensão do que estamos a falar, basta notar que em 2024, a General Motors (GM) tinha cerca de 92 000 empregados nos EUA, a Ford empregava cerca de 86 000 e a Stellantis tinha cerca de 95 000 empregados na América do Norte.

Mas façamos outra comparação interessante: a força de trabalho da Nike no Vietname equivale a pôr este país ao lado dos dez principais estados dos EUA em termos de força de trabalho fabril. Aproximadamente ao mesmo nível da Carolina do Norte ou do Wisconsin.

Imagine-se então que esse complexo industrial é atingido por uma tarifa de 46%. E imaginem esse choque a repetir-se empresa após empresa.

Estes números dão uma ideia da dimensão do impacto económico do trumpismo, e levanta a questão: será que Trump e a sua equipa tinha consciência disto?

Claro que nem tudo atinge esta dimensão e haverá até casos em que existem razões para uma politica tarifária mais equitativa, e os EUA até terão algum capital de queixa a seu favor. É sabido que a China é um país mercantilista que fecha “ferozmente” as suas fronteiras económicas e exporta “à bruta” tudo o que produz, utilizando as palavras de Luciano Amaral. Embora viva de outros mercados, sobretudo do americano, abre o seu mercado a muito pouco. Se a UE acha que poderá ter aqui uma alternativa aos EUA, é melhor ir perdendo as ilusões.

A própria Europa também tem sido bem mais protecionista do que os EUA, antes desta “turbulência trumpista”. Muito provavelmente Trump veio levantar um problema para o qual terá algumas razões de queixa, mas fê-lo de forma generalizada, “à bruta”, sem critérios selectivos, com as consequências que se conhecem. Mas Trump é um politico transacional, não relacional, vê tudo numa perspectiva de negócios, quase como um comerciante de feira, em que se começa por pedir muito, como ponto de partida, para depois ajustar por um valor bastante mais baixo. Dado o seu perfil, não é de espantar que isto corresponda a uma estratégia negocial. Veremos. Para já as consequências são fundamentalmente nos mercados financeiros com as bolsas a sofrerem fortes quedas, as maiores desde a covid19, com enorme volatilidade e mais parecendo uma montanha russa em função dos avanços e recuos de Trump. Para já, um dos seus “enfants terribles”, Elon Musk, não consegui escapar á enxurrada, que embateu na “sua” Tesla, provocada pela tempestade que ele ajudou a criar,

De momento não há nada que leve a pensar que Trump se preocupe com as consequências dos seus actos. Ele detesta défices comerciais, e tem uma equipa de bajuladores que está disposta a ajudá-lo, criando uma fórmula que, por mais idiota que seja, preenche esses requisitos. Por capricho matemático da sua aplicação, países como o Vietnam, Laos e Camboja ficaram no topo, juntamente com Myanmar e Madagáscar, e outros bem perto, como a Tailândia. É difícil descortinar alguma seriedade comercial ou algum fito estratégico, mas as consequências são devastadoras, em primeiro para esta gente que procura sair da pobreza, ainda por cima ultimamente dilacerados por cataclismos naturais, mas também os consumidores americanos que terão acesso a bens de primeira necessidade a preços bem mais elevados. E os efeitos serão duradoiros.

Depois disto, Evan Feigenbaum (especialista em assuntos do extremo oriente), dizia que os EUA estão acabados estrategicamente no sudoeste asiático e isto remete-nos para a questão inicial “Eu só cometi o erro de acreditar em vocês, os americanos.”, sentimento que perpassa por muitos seres humanos do sudoeste asiático. Faz lembrar a célebre afirmação de Marx, a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.

Umas notas finais para referir que este movimento não é apenas uma manifestação obsessiva de Trump com as tarifas a tentar fazer regressar os “velhos” EUA ao período áureo do desenvolvimento industrial. Isto faz parte de um movimento mais a geral que poderíamos chamar de cultural, fortemente autoritário, e que tem como principais linhas de força um nacionalismo exacerbado, racismo sem sentido, combate a todas as formas de imigração, incluindo aquela sem a qual a economia americana tem dificuldades em funcionar, e outras manifestações de intimidação e poder fortemente concentrado num líder populista. O ataque ás Universidades e a pressão, inclusive sobre a justiça, desafiando os próprios tribunais [2], fazem parte do menu. Isto ajuda a explicar o fascínio de Trump por ditadores e a sua simpatia por pessoas como Putin. Para isso uma estratégia de medo e de “terror” ajuda a manter todos na ordem, a fazer lembrar os westerns de Hollywood, em que o “chefe” e o seu bando entram no saloon e provocam o pânico apenas para que fique bem claro “quem manda na cidade”. A frase grotesca de que “estão todos a beijar-me o rabo e desejosos de negociar comigo” ilustra esta estratégia. Resta-nos aguardar que os celebres “checks and ballancies” do sistema politico americano funcionem.

 

O autor não segue o novo acordo ortográfico

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[1] O artigo previsto para esta edição [da revista da Associação dos reformados da GALP] era outro, que seguirá na próxima, mas dada a decisão de Trump sobre tarifas e a enorme turbulência que provocou nos mercados mundiais, optamos por aproveitar a oportunidade para falar neste tema actual.

[2] O artigo de Timothy Snyder, “The State Terror – a bief guide for the americans”, é ilustrativo deste clima.

 


O autor: Manuel Ramalhete é professor de Investigação Operacional no ISEG e foi Diretor de Planeamento Estratégico da Galp Energia.

 

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