Seleção de Júlio Marques Mota
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Os equívocos económicos de Trump
Em 30 de Março de 2026
Em artigo anterior escrevemos sobre o legado económico de Trump e o proteccionismo. O objectivo foi analisar as implicações económicas da sua politica tarifária. Desta vez procuramos continuar a analisar as implicações económicas, mas resultantes da guerra, neste caso da intervenção armada sobre o Irão.
Quando Trump foi eleito havia a convicção que mesmo com o seu espirito errático e difícil de prever, de um modo geral seria bom para a Economia, ou não fosse ele oriundo do meio empresarial.
O primeiro desapontamento em relação a esta convicção inicial, com impacto mundial, foi a chamada guerra das tarifas, deixando todo o mundo “à beira de um ataque de nervos”. A história é conhecida e já escrevemos amplamente sobre o tema. Apesar da maior resiliência do que a esperada da economia mundial, a que também não foram alheios os sucessivos recuos, os efeitos estão aí. A OCDE, por exemplo, estima que a economia mundial poderá ter uma redução de cerca de 0,3%, à medida que os efeitos plenos das taxas sobre o comércio começam a ser sentidos. A Allianz Trade estima que o valor das exportações globais possa cair 135 mil milhões de dólares, resultando na perda de 4% do crescimento esperado das exportações para 2025-2026. Estudos do Federal Reserve de Nova York e da Brookings Institution indicam que cerca de 90% do custo das tarifas foi suportado por empresas e consumidores americanos através de preços mais altos, e não pelos exportadores estrangeiros, como Trump prometeu. Apesar das tarifas, a economia mundial demonstrou grande robustez em 2025 devido, sobretudo, a investimentos em Inteligência Artificial e políticas fiscais e monetárias de apoio, permitindo que os EUA crescessem cerca de 2,3% até ao terceiro trimestre de 2025.
O outro grande impacto, agora com implicações bem maiores na Economia mundial, na nossa opinião, é a intervenção armada no Irão, independentemente do que se possa pensar sobre a intervenção num regime execrável, uma ditadura teocrática repressiva que assassina milhares de iranianos [1]. As implicações económicas têm a ver com a importância do país e da região no panorama energético mundial.
Já tinha havido uma intervenção sobre a Venezuela, mas bastante mais limitada, quer pela facilidade militar da operação quer pelo alcance pretendido. No caso da Venezuela, até agora, o que resultou foi a substituição do presidente Maduro, declaradamente hostil aos EUA e de grande cumplicidade com a China e com a Rússia, por uma liderança, que no essencial fazia parte do governo de então, mas mais alinhada com os interesses americanos. Pode dizer-se que face aos objectivos, a missão foi cumprida com êxito.
Acontece que a operação sobre o Irão é bem mais complexa. Desde logo, pela distância, o que envolve meios logísticos bem mais significativos e custos muito mais elevados. Depois, o Irão é um país bem mais poderoso, incluindo sob o ponto de vista militar, dispondo inclusive de tecnologia militar bastante desenvolvida e, claro, o substracto cultural é diferente nos dois casos. Apesar da diferença de poderio, e do governo do Irão estar bastante fragilizado pela forte contestação interna, a operação era à partida bem mais complicada, como se veio a verificar.
Independentemente do sucesso, ou não, da operação “Fúria épica” (designação da operação americana no Irão), era óbvio que ela iria desencadear perturbação nos mercados, com a subida imediata dos preços do petróleo e o do gás natural, para além dos efeitos duradoiros na economia mundial, mesmo descontando alguns exageros bem típicos na Comunicação Social.
Como referiu Luís Aguiar Conraria (LAC), para a Comunicação social e para muitos especialistas, “sempre que há um choque negativo, é o pior de sempre”. Quando se registam temperaturas mais elevadas, acima da média, temos o verão mais quente de que há registo, quando vem mais frio ou chuva, temos o pior inverno desde que há registos. Ainda recentemente tivemos o “maior desastre natural de que há memória”. Com algum exagero caricatural, é mais ou menos isto que ouvimos na Comunicação Social. Com a invasão do Irão e o bloqueio do estreito de Ormuz a história repete-se. Alguns comentadores, incluindo um editorial no “Público”, já comparam o impacto desta crise ao choque petrolífero de 1973, afirmando-se mesmo que “a de 1973 foi a primeira, a de 2026 está a caminho de ser a pior”. Claro que situação é grave, e pode piorar se o conflito se prolongar, mas não é preciso perder a sensatez. Com efeito, em Setembro de 1973 o petróleo cotava-se (como agora, as cotações variam diariamente) em cerca de 3 US$ por barril. No inicio de Outubro desse ano começou a guerra do Yom Kippur e poucas semanas depois os países árabes decretaram um embargo petrolífero, que se estendeu a 1974. Claro que mais dependentes do petróleo do médio oriente do que hoje, os preços subiram imediatamente atingido cerca de 12 US$ por barril em janeiro de 1974, ou seja, cerca de mais 400%, estabilizando no patamar de 13-14 US$, em média, nos anos seguintes, para voltar novamente a subir em 1979, depois da revolução iraniana, tendo chegado a atingir posteriormente os 40 US$ por barril, ou seja, praticamente triplicou. Com estes dois choques tivemos então um aumento superior a 1300%, aumentos por enquanto muito distantes dos actuais e que alguns mais alarmistas já anteveem como o cenário mais provável.
Mas, que fique claro, isto não significa não dar importância às consequências económicas, e esse é o objectivo desta crónica, com reflexo no dia a dia das pessoas, e na gravidade da situação, apenas se procura contextualizá-la adequadamente.
Não restam dúvidas que o impacto económico da guerra com o Irão em 2026 é considerado mais severo e imediato do que o das tarifas, devido ao choque direto nos preços da energia e na segurança das rotas comerciais globais. E o efeito será seguramente mais duradouro. O coração do sistema petrolífero, incluindo petróleo, gás e derivados, está fortemente abalado, sofreu um “enfarte” agudo, mas não é só isso.
Os efeitos económicos desta guerra são já irreversíveis, independentemente do seu resultado e da sua duração, apenas determinantes na sua maior ou menor dimensão. Não é apenas o choque energético, o comércio marítimo está em forte convulsão e, mais grave do que o abastecimento de petróleo, e sobretudo de gás, vai ser o impacto na inflação e no crescimento. Pelo golfo pérsico passa uma grande fatia dos fertilizantes mundiais, produzidos nestes e obtidos a partir do gás natural e de outras matérias primas aí existentes, pelo que podemos estar á beira de uma crise alimentar com consequências devastadoras sobretudo sobre os países mais pobres.
Em reportagem recente, o Financial Times alertava para este aspecto, e apontava as reclamações dos agricultores do Punjab, terra fértil da India, que têm de pagar os fertilizantes mais caros na altura das sementeiras do arroz, até aos produtores de trigo do Minesota que se queixam do mesmo. E adiantava o jornal, “os danos causados nos mercados globais da energia com o fecho do estreito de Ormuz foram previstos com antecipação (excepto, talvez, na sala oval)”. E, prossegue o jornal, o mesmo não aconteceu “sobre o facto de o estreito ser vital para produtos químicos, metais e fertilizantes”. Segundo o mesmo jornal, o Programa Mundial da Alimentação alertava que mais alguns milhões de pessoas podem ser empurradas para a fome se continuarem as perturbações nos transportes marítimos, já que “dezenas de milhares de toneladas de ajuda alimentar aos países mais pobres estão bloqueadas pelo conflito. A que poderíamos juntar o abastecimento desses países, altamente deficitários em muitos produtos industriais e sobretudo alimentares.
Aliás, fala-se muito no impacto sobre o petróleo, mas esse nem sequer é o caso mais crítico, já que por exemplo, a Arábia Saudita, maior exportador mundial, consegue fazer escoar cerca de 7 milhões de barris-dia pelo pipeline leste oeste, Petroline, com saída no mar vermelho, ou seja, a maioria das suas exportações, a que se junta um pipeline semelhante nos Emiratos Árabes Unidos (EAU), chamado ADCOP, com capacidade para 1,8 milhões de barris-dia. O caso do gás natural é bem mais grave, já que está menos diversificado e parte das instalações de liquefacção do Qatar estarão danificadas e levarão 2 a 3 anos a recuperar. A juntar a isto, temos os fertilizantes, já que a região é vital no fornecimento de ureia e amoníaco para fertilizantes nitrogenados que sustentam metade da produção mundial de alimentos. Se a isto juntarmos o impacto no hélio e semicondutores, já que o Qatar detém cerca de um terço do fornecimento global de hélio, crucial no fabrico de semicondutores e para o funcionamento de máquinas de ressonância magnética (MRI), e o enxofre, essencial na limpeza de semicondutores e na mineração de diversos metais críticos, do qual 45% é proveniente desta zona, a situação pode mesmo complicar-se bastante se as infraestruturas forem fortemente danificadas e o conflito se arrastar.
Segundo dados mais recentes da OCDE e da BBC, as economias asiáticas e europeias são as mais vulneráveis devido á dependência energética, mesmo sendo a Europa quem mais investiu na transição energética, o que prova a relativa ineficácia das politicas nesse sentido. Assim, por exemplo, em relação às previsões de Dezembro de 2025, O Reino Unido (não UE) tem uma correcção (para baixo) de 0,5% (de 1,2% para 0,7%), a UE tem uma correcção de 0,4% (de 1,2% para 0,8%). Também a inflação foi revista em alta, com os países do G20 a fazerem subir as previsões para 4%, isto é, um aumento de 1,2 pontos em relação á previsão anterior.
Aliás, a Europa não tem vivido tempos fáceis nos últimos quase 20 anos, cujos falhanços já apontamos em artigo anterior, mas que ajudam também a explicar estes mesmos falhanços a juntar às causas próprias. Em 2008 foi afectada pela crise financeira, chamada do subprime, seguiu-se a crise das dívidas e do euro, mais tarde, no fim da segunda década, a crise pandémica (da covid 19), seguindo-se, em 2022 a invasão russa da Ucrânia, e agora esta. Se a isto juntarmos uma hostilidade latente do presidente de seu mais importante aliado, os EUA, digamos que, como referia Teresa de Sousa no Público, os seus dirigentes “rezam desde o primeiro dia por uma guerra rápida, tentando contrariar a ansiedade sobre as suas piores consequências económicas”.
Mas numa altura em que Europa parece estar um pouco sozinha no apoio à Ucrânia, já que perdeu parte do apoio do seu outrora fiel aliado, as consequências não são apenas económicas, digamos que uma “desgraça nunca vem só”. Com efeito, Putin vê como uma bênção algumas das consequências deste conflito, pois vê os preços do petróleo e do gás, aliados á condição de grande exportador de fertilizantes, a darem um novo impulso a uma economia fortemente depauperada pela guerra, enquanto ao mesmo tempo beneficia de um alivio das sanções económicas. Depois de ter aliviado as sanções à Rússia, mais paradoxal é Trump ter aliviado as sanções ao Irão no que concerne às exportações de petróleo como forma de acalmar os mercados energéticos.
Talvez Trump tenha confiado demasiado na enorme superioridade militar dos EUA, que é de facto incomparável à do Irão, e que isso seria suficiente para fazer colapsar o regime. Mas talvez percebendo isso, o Irão transformou a guerra num conflito económico (a guerra horizontal de que muitos falam) à escala mundial, e para potenciar o seu efeito tenta envolver os países árabes vizinhos, sabendo que nessa guerra Trump é bem mais vulnerável, e que é essa que fará Trump recuar. A prova disso é como Trump lida com a guerra em função das oscilações dos mercados financeiros e energéticos. Não percebeu, ou não antecipou, que a arma de destruição maciça do Irão não era uma bomba de urânio, mas o estreito de Ormuz, que o Irão prepara há 20 anos, e tenha já a ameaça de outra, embora de menor dimensão, o estreito Bab el-Mandeb, no mar vermelho, na fronteira do Iémen e do Djibouti, ao alcance de uma das suas “proxis”, os houthis. Claro que o estreito de Bab el-Mandab, e mesmo o de Ormuz podem ser conquistados e reabertos à força, mas com que custos? Para já as companhias de transportes e de seguros subiram a parada e estão pouco dispostas a arriscar, e todo o comércio mundial é afectado com custos proibitivos que até há pouco tempo ninguém antevia.
Entretanto o presidente da Finlândia, Alexander Stubb alertava para uma “autoinfligida recessão global”, lembrando que o mundo está profundamente interligado. “Tudo está relacionado com tudo: preços do petróleo, do gás, dos alimentos, dos fertilizantes, dos produtos farmacêuticos, e a lista continua”. Para terem uma ideia imaginem, como fez, Mattew Yeoman no livro “Oil” [2], um dia sem petróleo.
Para já Trump mantém o discurso habitual, impregnado de um narcisismo exacerbado, e de que o Irão por estar militarmente acabado (palavras dele) “implora” por um acordo, o que está muito longe da realidade, ainda que haja contactos através do Paquistão no sentido de substituir as armas pela diplomacia.
Como disse Larry Jonhson, ex-analista da Agência Central de Inteligência (CIA) e do Gabinete de Contra Terrorismo do Departamento de Estado, “O Golfo Pérsico é a massa de água mais consequente da economia global. A sua saída estreita — o Estreito de Ormuz, com apenas 33 quilómetros de largura no seu ponto mais estreito — funciona como uma válvula por onde flui uma quota extraordinária da energia e dos insumos agrícolas mundiais. Um encerramento prolongado dessa válvula pelo Irão desencadeará um choque económico com poucos precedentes históricos”.
Embora o choque afecte toda a economia mundial, uns serão mais afectados do que outros, já que nem todos enfrentam o mesmo nível de exposição. Alguns estão mesmo relativamente blindados para resistirem a um encerramento do Golfo, seja porque produzem a sua própria energia, seja por terem fornecimento diversificado ou por terem grandes reservas estratégicas. Estão neste caso os EUA, Canadá, Rússia, Noruega e Brasil (energia), mas a maioria restante está bastante vulnerável, pois o Golfo Pérsico não é apenas uma rota comercial importante, é um estreito estratégico que criou uma dependência estrutural integrada na economia global a partir de meados do século anterior. A perturbação simultânea dos fluxos de petróleo, GNL, matéria prima de fertilizantes, hélio e enxofre, sobretudo, temos os ingredientes para uma policrise de gravidade excepcional: um choque energético, um choque industrial e uma crise de segurança alimentar, que ocorrendo em simultâneo reforçam-se mutuamente, e desafiam a capacidade dos governos, instituições internacionais e mercados para responder.
E, claro as consequências sociais chegarão inevitavelmente: subida dos preços dos alimentos e a escassez de matérias-primas aumentam o risco de estagflação e instabilidade social, especialmente em países em desenvolvimento que já enfrentam dívidas elevadas.
O autor não segue o novo acordo ortográfico
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Notas
[1] Obviamente que a natureza repressiva do regime iraniano é a última das preocupações de Trump, se é que chega a ser uma preocupação, o que duvidamos.
[2] Matthew Yomans, “Oil”, Petróleo – Guia conciso do produto mais importante do mundo, D. Quixote, 2005.
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O autor: Manuel Ramalhete é professor de Investigação Operacional no ISEG e foi Diretor de Planeamento Estratégico da Galp Energia.


