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CARTA DE BRAGA -“de hoje e dos caminhos do futuro” por António Oliveira

Já lá vão alguns desde que se costumava ouvir falar nos ‘elevadores sociais’, que passava sempre pelos ‘discursos’ que os mais velhos nos faziam, às vezes a partir das pequenas coisas que nos enchiam e lhes enchiam a vida, por ‘a vida ser feita de pequenos nadas’, como ainda se ouve às vezes, na voz do Sérgio Godinho, mas que sempre incluíam duas palavras, formação e trabalho, por esta ordem ou na inversa.

Pratiquei intensamente qualquer delas, especialmente a segunda, até fiz um ‘intervalo’ para ir à guerra, mas o elevador social nunca me tirou aquele sentimento do bairro e da solidariedade onde cresci e, mesmo quando professor, sempre me preocupei em chamar a atenção dos meus alunos, do secundário ao superior, ao perguntar-lhes amiúde, ‘vocês não se preocupam com o dia de amanhã?’ e, não foram poucas as vezes em que tive como resposta, ‘oh professor, quando lá chegar, logo vejo!’.

Às vezes chego a pensar que alguns deveriam ter razão, por todos os dias se ouvirem ou lerem histórias de jovens acabados de se licenciar, que partem para outros destinos ou para novas sortes, por não quererem continuar em casa dos pais, em quartos conjuntos e em empregos pagos a pouca distância do ordenado mínimo ou, com um pouco mais de sorte, como caixa num super, ou num hiper.

E leio, vejo e ouço, cada dia, das aulas que começam sem professores, de alguns forçados a ‘emigrar’ umas centenas de quilómetros, de alunos para quem a História e a Geografia, vão apenas um pouco mais dos sítios onde o Ronaldo jogou, da Filosofia que é uma disciplina chata que só fala de uns tipos que disseram coisas há muitos anos, e ‘ainda nos mandam ler uns livros grossos que não consigo ler três páginas de seguida’.

Que importam, pois, a memória e os livros, coisas do passado? Para os jovens está prometido um amanhã que canta cada vez mais alto nos altifalantes de uma torre cibernética, que emite em decibéis incalculáveis, o ruído excitante que impede o pensamento, a lentidão, a sensibilidade’, pergunta e comenta no livro ‘O Fim da Educação’, o professor e poeta António Carlos Cortez.

Lembro-me também que já vivi esses tempos, os dos privilégios baseados no nascimento, do local onde se nasceu e da ‘família’ onde tinham caído, pelas ligações à ordem, à política ou à Igreja, que, estavam então profunda e visceralmente ligadas. Mas hoje vivem-se ou dever-se-iam viver outros costumes, hábitos e perspectivas, para proporcionar soluções viáveis, que não encalhassem naquelas ligações, donas das orientações neoliberais ou afins, adoradoras ou sustentadoras daquele ‘ídolo laranja’, o melhor símbolo do chamado ‘mercado livre’, sustentado por tarifas estrambóticas.

Já não é tempo dos tais elevadores, mas de pedir à solidariedade das comunidades, ou dos seus representantes, para se encontrarem outras e novas soluções para a gente nova, aquela dos também novos cursos e aptidões, para se conseguir acabar com o poder das consultorias e similares, que nos deixam um modelo de sociedade onde ninguém se entende, por restarem onde a voltar à superfície, modelos enterrados há mais de 80 anos.

Nada de elevadores sociais, mas de capacidades inventivas, sociais e éticas, para se encontrarem novos caminhos, onde o mais importante esteja em termos como respeito e dignidade e todos consigam repetir, como se fosse um mantra sociológico, ao encontrar quando alguém de um diferente status, ‘sou livre quando tu fores livre’, resumindo nestas poucas e parcas palavras a filosofia de Emmamuel Lévinas, a respeito de ‘o outro’.

E já lá vão uns anos também, desde o dia em que me sentei numa espécie de muro de terra a circundar um campo daquela agricultura aldeã e pouco variada, já caía a tarde e o sol, lá para os lados do mar, quando vejo chegar o senhor João, agarrado a uma saca onde trazia a parca colheita do dia, se calhar o necessário para a janta dele a da ‘patroa’, como dizia sempre que referia à senhora com quem casara há mais de cinquenta anos: favas, feijão verde, cebolas e meia dúzia de batatas.

Costumava dizer que aquele lugar tinha sido uma prenda do pai, que herdou por ser filho único, mas tinha medo de o vir a perder, porque as terras em volta estavam cheias de restos de ramos, partidos ou caídos das árvores, da vegetação rasteira que há anos não cortavam e, a casita onde vivia, estava do lado de lá do caminho e, ‘qualquer dia chego aqui e nem o cão se safa!’.

A falta dos tais elevadores e o abandono e despovoamento do interior, lugares como o do senhor João que ali vive quase sozinho, a olhar os pardais quando as andorinhas abalam para desenhar o futuro; mas um futuro distante deste lugar e, dizia Almada Negreiros, ‘Isto não é um país, é um sítio. E ainda por cima mal frequentado’, mas não desesperem –quem ó afirma é Miguel Torga, ‘Não podemos mudar a hora da chegada, Nem talvez a mais certa/ A da partida/ Mas podemos fazer a descoberta/ Do que presta/ E não presta/ Nesta vida”.

Acordem! Se fazem esse favor!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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