CARTA DE BRAGA – “dos relógios de sol aos de areia” por António Oliveira

Ainda garoto e logo nos primeiros anos da escola, mostraram-me -e com algumas mais me encontrei anos depois- aquelas pedras rectangulares com números romanos destacados, e uma espécie de ponteiro em pedra ou metal, normalmente virado a sul, cuja sombra terminava, também e sempre, num daqueles números. Havia-os em casas mais apalaçadas, nas igrejas mais antigas e ainda noutras casas, aproveitadas muito depois, para serviços diversos.

Eram uns encantos aqueles antigos relógios de sol, por isso virados a sul -aprendi depois que o sol ao meio dia estava a sul- e, quando a sombra estava quase a terminar, logo se ouviam as trindades, os sinos a anunciar o final de um dia de cansaço e labuta -tempos em que era a igreja a determinar a duração do trabalho- pensava eu e até havia e via, algumas pessoas a desbarretar-se e agradecer aos céus, terem andado um dia inteiro agarradas a uma enxada.

Descobri depois também, que apostar numa vida diferente para além desta, não deveria ser uma ocupação muito recomendável, atendendo ao peso e à importância do negócio que, disse alguém que já não sei, se trata apenas de ‘negar o ócio’, mas acrescentando a seguir ‘uma vida calaceira com as necessidades bem protegidas, é a melhor das prendas que alguém poderá ter’.

Esta é uma sociedade bem complicada, pois uma pessoa sozinha, sem ninguém a quem apelar, é bem mais frágil que uma outra doente, particularmente notório por estarmos a viver num ambiente global completamente novo, com ameaças que não se conheciam por não existirem então, quando se crescia no ambiente da família, do bairro, da tribo ou da comunidade, bem diferentes do mundo virtual que agora nos vai rodeando por todos os lados.

Até há pouco tempo, estávamos dependentes da ‘Sociedade do espectáculo’ e seus malabarismos –tão bem definida e explicada por Guy Debord- dando especial importância à alienação dos públicos, devido ao fetichismo dado à mercadoria, à espectacularização da informação, e à orientação e controlo da opinião pública.

Parece que também essa sociedade estará a desaparecer, substituída pela ‘Sociedade dos charlatães’, como foi explicada por um cronista, antigo director de um jornal europeu, dizendo da importância dos influencers no mundo dos ecrãs, grandes ou pequenos, ‘Podendo um só ter milhões de seguidores, um actor de novela ser mais escutado que um prémio Nobel, e um ignorante aparecer revestido com a autoridade de um erudito, por tudo se ter tornado relativo e volátil’; leia-se e vejam-se os gadelhudos tais como os milei, trumpa, boçalnaro, wilders e outros com menos gadelhas, para avaliar a importância dos corta-cabelos.

Aparentemente este facto não terá muita importância, mas foram quebradas as relações naturais com o ‘outro’, a dar razão àquela previsão de Bertolt Brecht, abalado já em Agosto de 1956, ‘São tempos difíceis, em que há que lutar pela verdade mais evidente, como se fosse uma revelação inédita e desafiante’, e, quando os historiadores um dia analisarem estes tempos, ficarão espantados como uma sociedade que foi tão dominada por falsificadores, e os terem deixado livres de responsabilidades, bem como ‘A política e os media, pela desestruturação da sociedade e derrocada dos seus princípios’.

Até houve um tempo em que todos queríamos ser americanos, graças ao poder do cinema, dos Gary Cooper, Errol Flynn, dos Bogart e também das Crawford, Bacall e das Hayworth que nos enchiam as tardes –nem era preciso saber, nem sabíamos o nome dos realizadores– mas, e pensando bem, o trumpa e quejandos sempre estiveram por lá, eram os maus, os que queriam tudo para si, os que não queriam nem pensavam em negociar, os que sempre contratavam ‘pistoleiros’ para os heróis aparecerem depois.

Hoje os pistoleiros são peritos em dígitos, em milhões, em fazer e ordenar escravos, não se limitando às imagens do Colorado, ou do Mississippi, mas em dominar céus e Terra, com satélites, e viaturas, sem se questionarem dos actos, das razões, nem das vítimas. E ainda se viam por lá, relógios espetados nas paredes, a aproveitar a luz do sol –havia sempre sol naqueles filmes– e lembro-me do encanto que tais relógios deram à minha meninice.

Ainda me agradam os relógios de parede, como me agrada a areia da ampulheta, o relógio de bolso com corrente de ouro a atravessar o colete que disfarçava a barriga do meu tio Relvas, ou o meu primeiro relógio de pulso com bracelete de metal, apesar de até poder pensar que a ampulheta poderá estar de volta, mesmo só a imaginar virtual cada grão de areia daquele invento.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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