Esta estória li-a numa revista lá de fora, mas resumo-a agora, por já nem me lembrar das palavras exactas, nem da sequência escolhida pelo autor. Mas recordo muito bem o nome do ‘herói’ por também se chamar António, talvez espanhol, porque o apelido nada tinha de português, mas também se me foi.
O António trabalhava como porteiro num edifício de um bairro populoso de Paris e, sempre que subia ao terraço, olhava para o céu, à espera de ver voar um par de falcões, saindo de um ninho no cimo de outro edifício ali próximo. Partiam, perdiam-se num parque não muito longe e costumavam voar tranquilos por cima das ruas do bairro. Todos os anos criavam e alimentavam um falcãozinho, que depois acompanhavam nos primeiros voos e, assistir aos voos daquele par de falcões e da sua cria, passou a ser um espectáculo diário e compensador, principalmente durante o confinamento determinado pelo covid.
Talvez eles se tivessem habituado à sua presença, ali sozinho no terraço, por muitas vezes, lhe passarem a rasar a cabeça, sem ele fazer qualquer gesto, mantendo-se imóvel, para não os assustar. Havia já alguns meses, contava ainda António, que os não via, por muito que olhasse os céus à procura deles, mas a ruína do ninho e a falta dos seus gritos, enchia-o de tristeza, porque aquele par de falcões até dava ao bairro ‘uma pincelada da natureza e, agora, nem apetece olhar a cidade, lá do terraço, por me parecer menos habitável’.
Decorei esta frase do António, talvez espanhol, mas cidadão do mundo, pela atenção dada a um par de falcões daqueles que também se vão notando nas nossas cidades. António é mais um dos muitos que já reparam também, como os céus se vão ‘esvaziando’ de pássaros, daqueles pássaros que até são um dos barómetros da conservação de vida no planeta que nos serve de morada há largos milhares de anos, mas em que a vida é uma corrente que se rompe se falha qualquer um dos elos e, por infortúnio nosso, nem sequer ser um dos elos mais chamativos.
Mas não só os céus se esvaziam de vida, também os campos se vão enchendo de silêncios, –nem sequer falo do badalar dos sinos pelas Trindades– mas pelo lento desparecer dos grilos e das cigarras, ao mesmo tempo que os governos também se vão atolando em instituições disto e daquilo, secretariados, comissões, e outros factos, sorvedouros de dinheiros, paciências e votos.
O problema será quando esses silêncios se tornarem atroadores, especialmente quando ‘Sua Excelência fala, mas já ninguém o escuta!’.
Disse um dia o dramaturgo e Prémio Nobel italiano Dario Fo, ‘Escutem esse silêncio, o grandioso ruído que ele carrega; e não serve de nada cobrir as orelhas!’
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor


