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CARTA DE BRAGA – “Stendhal à terça feira” por António Oliveira

Escreveu um dia o filósofo Daniel Innerarity no ‘La Vanguardia’, ‘A democracia é caracterizada pelo facto de se colocar o poder à disposição de muitos, porque muitos podem fazer pouco, ao contrário das sociedades não democráticas, onde poucos podem fazer muito. Isso pode ser um incómodo para quem governa, mas trava (!?!) os mais poderosos e permite a sua mudança. Numa eleição, apesar da centralidade do governo, os actos maiores da democracia são resistir, e não eleger’.

Na verdade, na diversidade da sociedade democrática, não há acção que não corresponda a uma qualquer resistência, ou a uma iniciativa sem oposição. Tudo se baseia no conjunto de experiências, reciprocidades, dependências, equilíbrios, mais os diversos tipos de pressão, organizada e por vezes penada, para alcançar as convenções em que vivemos. Viver assim também é um acto de partilha, daquele viver em comunidade que, nestes dias, tanto custa a grande parte da população, atarefada que anda com os minúsculos teclados dos telemóveis, de onde parece depender toda a sua vida.

Vem isto a propósito de um amigo que já não via há uns meses, e me contou a estória que resumo aqui, tentando ser tão fiel quanto possível, ao diálogo que estão tivemos, e me obrigou a procurar e comprar, mais um livro.

Começou ele por me contar que uma Escola qualquer de Economia de Londres, se propôs, havia já algum tempo, ainda nem se falava da pandemia, elaborar um estudo sobre qual seria o pior dia da semana. Agora, depois da tal pandemia, mas com a possibilidade real de uma guerra, o resultado poderia ser diferente, mas tal estudo, conseguido através de mais de vinte mil chamadas telefónicas, chegou à conclusão que o pior dia da semana seria, naquela altura, a terça-feira. Uma descoberta já antes assinalada registada por Anton Tchekhov, quando escreveu algures, ‘A terça é só uma outra palavra para dizer segunda’, e outro autor que já nem lembro, até chamava ao Inverno, uma ‘terça-feira sem fim’, por ser algo ingrato que nunca mais acabava!

E na continuação da conversa, o meu amigo perguntou, mesmo sem esperar resposta, ‘Sei bem sei que ainda só é terça-feira, mas não haverá maneira de fazeres que o fim-de-semana comece amanhã? se pudesses era muito bom; perante o meu ar espantado acrescentou, ‘amanhã digo nunca mais é quinta, na quinta nunca mais é sexta e na sexta… tenho dentista no sábado de manhã!

Depois da gargalhada, diz a sorrir ‘Gostava de ter o poder de criar, para mim, alguns dos privilégios de Stendhal, alguma coisa que me pudesse fazer esquecer durante algum, ou muito tempo, as pequenas embrulhadas desta vida, que até nem está fácil agora’. Abre depois o saco de trazer ao ombro, e de lá tira um livrinho, com a capa a mostrar dois fulanos de chapéu, a olhar para alguma coisa que um deles aponta no céu, ‘está aqui a relação dos privilégios de Stendhal! Não os quero todos, só te vou ler alguns!

Anda umas páginas para a frente, parece conhecer muito bem o livrinho e, ‘Diz aqui que o privilegiado que puser dois minutos no dedo, um anel que tenha metido na boca apenas um instante, ficará invisível o tempo que tiver estipulado’.

Salta uma página mais para a frente e, ‘Todos os dias à duas da manhã, encontrará no bolso um napoleão em ouro, mais quarenta francos da moeda corrente do país onde estiver’.

E diz mais um privilégio, por não querer ler mais, ‘Dez vezes por ano, poderá ser transportado para o local que quiser, à razão de cem léguas por hora, e dormirá durante o transporte’.

Termina e, ao guardar o livrinho, diz tranquilo, ‘Não sei se o Stendhal ouviu isto a alguém, se limitou a explorar as visões do seu irreal e onírico mundo, do seu eu-recriado, ou da peça de teatro em que transformou a própria vida!

Anda por aí muito privilegiado, com nós todos a ter de o carregar! Mas porque te lembraste do bom do Stendhal?

Por mais uma vez não me ter saído o milhões, e por também me ter lembrado de Marco Aurélio, Aqueles que vivem mais tempo e os que vivem menos, perdem a mesma coisa, por o presente ser a única coisa que pode ser perdida, por ser tudo o que possuímos!

– O presente só conta dessa maneira para os pastores e camponeses. Eles consideram que o esforço hoje é para salvar o ambiente, e consideram também isso absolutamente necessário e mesmo natural. Por isso mesmo ajudam no que podem! Uma espécie de animismo, apenas o respeito pela vida! Quem me dera que os poderosos mandões deste mundo soubessem e se lembrassem disso!

– E não sabem? Sabem, mas não te esqueças que o neoliberalismo faz desandar as economias, e até deixa as sociedades como os automóveis que, hoje (disseram-me) até já se vendem sem pneu de socorro! Não sei qual será a solução, mas vou-me enfrascando com os privilégios do meu bom Stendhal, porque nunca mais é sábado!

-Ainda só é terça feira!

 António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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