Seleção e tradução de Francisco Tavares
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Genocídio em Gaza: Rompendo com o pensamento de rebanho nos meios de comunicação social
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O fracasso dos meios de comunicação ocidentais em relatarem a realidade de Gaza não começou em 7 de outubro. Foi sempre assim. Eis por que razão os jornalistas não lhe contam a verdade sobre a Palestina.
[Esta é uma adaptação de uma palestra que o autor apresentou em “Reportando Gaza: Trabalho, Vida e Morte”, um evento organizado pela União Nacional de Jornalistas do Sul do País de Gales, realizado no Templo da Paz em Cardiff, em 10 de novembro de 2025. Uma leitura deste artigo pode ser encontrada aqui.]
Os últimos dois anos testemunharam um fracasso catastrófico por parte dos jornalistas ocidentais na cobertura do que equivale a um inegável genocídio em Gaza. Este foi um ponto baixo, mesmo para os padrões já deploráveis da nossa profissão, e mais um motivo para que o público continue a desconfiar cada vez mais de nós.
Existe um argumento reconfortante — especialmente reconfortante para aqueles jornalistas que falharam tão escandalosamente durante este período — que procura explicar e justificar esse fracasso. A exclusão de repórteres ocidentais por Israel, segundo essa alegação, tornou impossível determinar exatamente o que está a acontecer em Gaza.
Existem várias réplicas óbvias a isto.
Em primeiro lugar, porque razão daria algum jornalista a Israel o benefício da dúvida em Gaza — como temos feito — quando é Israel que está a impedir a entrada de repórteres? A premissa dos media deve ser a de que Israel nos excluiu porque tem muito a esconder. A obrigação deve ser que Israel demonstre que está a agir por necessidade militar e de forma proporcional. Esse não pode ser o ponto de partida, como tem sido, da cobertura dos media ocidentais.
Quando uma das partes, Israel, nega aos jornalistas a oportunidade de reportar, a nossa responsabilidade primordial é adotar uma postura de extremo ceticismo em relação às suas alegações. É submeter essas alegações a um escrutínio rigoroso — ainda mais quando o mais alto tribunal do mundo decidiu que a própria presença de Israel em Gaza configura uma ocupação ilegal, e que Israel deveria ter deixado os territórios palestinianos há muito tempo.
Em segundo lugar, e de forma igualmente óbvia, esta explicação desconsidera arrogantemente o trabalho de centenas de jornalistas palestinianos que arriscaram as suas vidas para nos mostrar precisamente o que está a acontecer em Gaza. Trata-se de considerar a contribuição deles – mesmo enquanto são massacrados por Israel em números sem precedentes -, como, na melhor das hipóteses, inútil e, na pior, como propaganda do Hamas. Trata-se assim de dar força às justificações convenientes de Israel para assassinar os nossos colegas – e, assim, estabelecer um precedente que normaliza a perseguição a jornalistas no futuro.
Trata-se também de tratar esses jornalistas palestinianos com o mesmo desprezo colonial demonstrado pelos aristocratas britânicos há um século, quando prometeram a pátria palestina aos judeus europeus, como se a Palestina fosse uma possessão da qual a Grã-Bretanha tivesse o direito de dispor como bem entendesse.
E em terceiro lugar – e este é o ponto que quero abordar esta noite – a presença de jornalistas ocidentais em Gaza não teria feito qualquer diferença significativa na forma como o massacre de palestinianos foi apresentado. O público continuaria a receber uma versão higienizada do genocídio. O fracasso está intrínseco na cobertura dos media ocidentais sobre Israel e a Palestina. Sei disso em primeira mão, com base em 20 anos de reportagens na região.
Suicídio profissional
Quando se trata da ferida purulenta no que outrora foi a Palestina histórica, o papel dos jornalistas ocidentais é obscurecer, tergiversar, distorcer e justificar. Foi sempre assim. Explicarei os motivos um pouco mais adiante.
Israel conseguiu cometer genocídio em Gaza impunemente porque, durante as décadas anteriores, os media ocidentais recusaram-se a noticiar — ou responsabilizar Israel por — as suas operações de limpeza étnica contra os palestinianos, amplamente documentadas, e o seu brutal regime de apartheid sobre eles.
Alguns dos nossos jornalistas mais íntegros tentaram noticiar esses acontecimentos em tempo real. Mas pagaram um preço alto e público por isso. Qualquer colega que porventura tivesse pensado em seguir os seus passos aprendeu a lição necessária: que imitar esses jornalistas seria um suicídio profissional.
Permitam-me documentar brevemente o caso de dois ilustres correspondentes estrangeiros em Jerusalém que foram usados como exemplos, e depois apresentar exemplos mais recentes dos meus próprios desentendimentos com editores ocidentais.
No livro Publish It Not (1975), Michael Adams, correspondente do The Guardian em Jerusalém no final da década de 1960, descreve as suas dificuldades para convencer o jornal a acreditar nos seus relatos sobre a brutalidade sistemática de Israel após a ocupação militar dos territórios palestinianos em 1967. Os seus editores, assim como nos restantes media, preferiam acreditar na alegação de Israel de que a sua ocupação era “a mais esclarecida da história”.
Quando Adams tentou contestar essa suposição, ao relatar a limpeza étnica de três aldeias palestinianas promovida por Israel sob o pretexto da guerra de 1967 — as aldeias foram destruídas e mais tarde tornar-se-iam uma área verde para israelitas chamada Parque Canadá — ele foi demitido do jornal. Ele conta que o seu editor lhe disse que “nunca mais publicaria nada que eu escrevesse sobre o Médio Oriente”.
Depois, houve Donald Neff, chefe da sucursal da revista Time na década de 1970. Ele foi afastado após uma reportagem publicada em 1978 sobre soldados israelitas a espancarem brutalmente crianças palestinianas em Beit Jala, uma comunidade na Cisjordânia perto de Belém. Era uma reportagem bastante branda para os padrões atuais, visto que hoje temos imagens reais de soldados israelitas cometendo crimes contra a humanidade, muitas vezes publicadas nas suas próprias redes sociais. Mas, naquela época, uma reportagem como aquela tinha o poder de chocar.
A equipa de Neff na redação — todos judeus israelitas — reagiu com aberta revolta à sua reportagem. Fontes oficiais israelitas recusaram-se a falar com ele. O lobby israelita nos EUA iniciou uma campanha pública contra Neff e a revista Time. Os seus editores não o apoiaram, e a reportagem foi ignorada por outros meios de comunicação estado-unidenses. Isolado e exausto pelos ataques, Neff deixou o cargo.
Tornando-se um pária
Só tomei conhecimento dos problemas enfrentados por estes ilustres repórteres algum tempo depois de ter vivido experiências semelhantes cobrindo a região como freelancer — algo que fiz durante 20 anos. No início da minha carreira, deparei-me repetidamente com as mesmas pressões editoriais e resistência que Adams e Neff enfrentaram mais de um quarto de século antes. Senti-me igualmente isolado, sitiado, marginalizado — e acabei por abandonar qualquer esperança de continuar a trabalhar para os principais meios de comunicação ocidentais.
Enviei reportagens tanto para o The Guardian — onde trabalhei como jornalista durante muitos anos — como para o International Herald Tribune, agora reformulado como International New York Times.
Permitam-me ilustrar rapidamente um exemplo que eu tive com cada um deles.
O jornal The Guardian repetidamente esquivou-se a publicar uma investigação que eu tinha conduzido, que revelava como um atirador israelita assassinou deliberadamente o oficial britânico da ONU, Iain Hook, na cidade de Jenin, na Cisjordânia, em 2002. Eu fui o único jornalista a viajar para Jenin para ver o que havia acontecido. Chris McGreal, o correspondente do jornal em Jerusalém, recém-chegado à cidade, intercedeu em meu nome para que a matéria fosse publicada. Após semanas de protelação, o jornal finalmente concordou, e a contragosto, em publicar a reportagem numa página inteira.
Quando foi publicada, porém, havia sido cortada pela metade sem aviso prévio. O cerne da investigação, que mostrava como o atirador havia matado Hook, tinha sido removido. Os editores alegaram que foram forçados a publicar um anúncio de última hora — algo que eu sabia ser impossível, pois havia trabalhado anteriormente na área de produção do jornal. Eles nunca tiveram a intenção de publicar a investigação. Enganaram não só a mim, mas também o próprio chefe da sucursal de Jerusalém.
No jornal Tribune, passei grande parte do primeiro semestre de 2003 a tentar convencer o editor de opinião a publicar um artigo que eu havia escrito, argumentando que o muro de aço e betão de 1.000 km que Israel estava a construir na Cisjordânia era uma apropriação de terras, tomando terras agrícolas vitais das comunidades palestinianas. Parece quase risível agora imaginar que essa era uma opinião controversa. Mas, naquela época, era considerado controverso até mesmo referir-se ao muro da separação como um “muro”, em vez de um termo mais amigável como “cerca”.
O editor de opinião finalmente cedeu, mas apenas porque o presidente George W. Bush acabara de fazer um discurso no qual alertava que o muro não deveria tornar-se uma apropriação de terras. Logo ficou claro por que o jornal estava tão receoso de publicar a matéria. Recebeu o que um editor júnior me disse ser “a maior pilha de cartas da sua história” repleta de reclamações. A Liga Antidifamação, um poderoso grupo de lobby pró-Israel nos EUA, organizou uma campanha de cartas.
A Camera, um grupo de lobby pró-Israel nos media, escreveu uma longa reclamação listando 10 supostos “erros” no meu artigo de opinião. Tive que escrever à pressa uma defesa extensa para os editores — mais parecida com uma pequena dissertação, com notas de rodapé — antes que concordassem em não publicar uma retratação. No entanto, o jornal cedeu e dedicou toda a sua página de cartas às críticas ao artigo.
A revista Camera e outro grupo de pressão mediática, o Honest Reporting, protestavam sempre que o meu nome aparecia no IHT. Logo depois fui demitido.
Eu poderia contar muitas outras histórias como essas.
Regressão dos media
A experiência de Chris McGreal em Jerusalém nesse período também foi reveladora. Ele havia sido um correspondente de grande destaque na África do Sul para os jornais The Independent e The Guardian durante a era do apartheid, tendo recebido diversos prémios.
Ele chegou a Jerusalém para trabalhar no The Guardian em 2002 e reconheceu imediatamente que Israel operava um sistema de apartheid semelhante. No entanto, foi somente quando ele deixou o cargo, no início de 2006, que o jornal concordou em publicar uma longa reportagem em duas partes sobre as semelhanças entre as versões sul-africana e israelita do apartheid.
Esses dois artigos são às vezes citados como exemplo de como os media ocidentais podem ser extremamente críticos em relação a Israel. Mas essa não é a conclusão correta. Os dois artigos de McGreal foram excepcionais em todos os sentidos.
Nenhum jornal, exceto o The Guardian — e especificamente o The Guardian daquela época — teria publicado as reportagens de McGreal sobre o apartheid. Nenhum outro jornalista, além de McGreal, teria permissão para escrevê-las. Mesmo assim, o jornal esperou até que ele deixasse Jerusalém antes de ousar publicar, sabendo que ele se tornaria persona non grata, perdendo todo o acesso às autoridades israelitas.
E, quando os artigos foram publicados, McGreal e o jornal enfrentaram uma enxurrada de acusações de antissemitismo. Passaram muitos meses a travar uma batalha defensiva para lidar com as consequências.
Notemos também o seguinte: o fim da Segunda Intifada, por volta de 2006, provavelmente representou um ponto alto para meios de comunicação social liberais ocidentais como o The Guardian na sua abordagem crítica a Israel. Porquê? Porque os media tradicionais estavam a lutar para manterem a hegemonia narrativa diante da chegada de rivais como a Al-Jazeera, que ganharam destaque com a nova tecnologia digital. O The Guardian sentiu a necessidade de competir nesse novo terreno digital inexplorado.
Resumidamente, o The Guardian respondeu democratizando o ambiente online, permitindo que uma gama muito maior de vozes jornalísticas se manifestasse por meio do seu blog “Comentários são Grátis” e dando aos leitores a liberdade de comentar abaixo dos artigos. Logo, esses avanços seriam revertidos. O Guardian desativou o blog e encerrou os comentários em todos os artigos, exceto nos mais moderados. E, à medida que os guardiães da informação digital se tornavam mais sabedores, descobriram uma série de técnicas secretas para sufocar a nova onda de dissidência, desde o banimento velado até manipulações algorítmicas.
Paradoxalmente, desde então, a Human Rights Watch, a Amnistia Internacional e o próprio grupo de direitos humanos israelita B’Tselem concluíram que Israel é um estado de apartheid. O seu veredicto é corroborado por uma decisão do ano passado da Tribunal Internacional de Justiça.
Mas, em muitos aspectos, os media ocidentais regrediram desde meados dos anos 2000, mesmo com a realidade das violações do direito internacional por Israel a tornar-se cada vez mais evidente. Os media já não estão dispostos a referir-se a Israel como um estado de apartheid agora do que estavam há 20 anos
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Porquê tanta cobardia?
A grande questão é porquê. Eis um resumo das várias pressões, algumas práticas e outras estruturais, que mantêm os media ocidentais tão submissos a Israel.
Repórteres partidários: Historicamente, a maioria das publicações — especialmente as estado-unidenses — colocou repórteres judeus no comando das suas sucursais em Jerusalém, partindo da premissa, provavelmente correta, de que, dada a ideologia política tribal do sionismo em Israel, esses repórteres teriam melhor acesso às autoridades israelitas. O que, por sua vez, nos mostra que esses jornais estão interessados principalmente no que as fontes israelitas têm a dizer, e não no que os palestinianos dizem. Na verdade, os media ocidentais não exercem fiscalização. Eles não questionam o desequilíbrio de poder existente, eles reproduzem-no.
Muitos desses repórteres judeus não esconderam o seu profundo apego e partidarismo em relação a Israel.
Há muitos anos, um amigo jornalista judeu radicado em Jerusalém escreveu-me depois de eu ter tornado este ponto público pela primeira vez, afirmando:
“Consigo pensar numa dúzia de chefes de sucursais estrangeiras, responsáveis pela cobertura tanto de Israel como dos palestinianos, que serviram no exército israelita, e outra dúzia que, como [Ethan] Bronner [na época chefe da sucursal do The New York Times], têm filhos no exército israelita.”
Imagine, se puder, o The New York Times empregando um palestiniano como correspondente em Jerusalém — eu sei, é inconcebível. Mas não só isso: empregá-lo enquanto o correspondente tem um filho a trabalhar para a Autoridade Palestina ou, ainda mais apropriadamente, um filho a lutar numa brigada militar do Fatah.
Entretanto, a BBC apoia abertamente o seu editor online para o Médio Oriente, Raffi Berg, mesmo que os seus próprios funcionários, que denunciaram irregularidades, o tenham acusado de distorcer a cobertura da emissora sobre Israel e Palestina. Berg não esconde a sua própria ligação com Israel. Numa entrevista sobre o seu livro “de bastidores” sobre a agência de espionagem israelita Mossad, Berg afirma que “como judeu e admirador do Estado de Israel”, sente “arrepios” de orgulho ao ouvir falar sobre as operações do Mossad.
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Berg tem emoldurada uma carta do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu e uma foto sua com o ex-embaixador de Israel no Reino Unido penduradas na parede da sua casa. Ele considera um ex-alto funcionário do Mossad um amigo próximo. E quando o jornalista Owen Jones escreveu uma peça revelando a quase revolta da equipe da BBC contra o papel de Berg, o primeiro pensamento de Berg foi buscar ajuda jurídica de Mark Lewis, ex-chefe da organização UK Lawyers for Israel, conhecida por usar estratégias jurídicas agressivas como forma de intimidar e silenciar críticos de Israel.
Podemos imaginar a BBC nomeando um palestiniano ou um árabe para esse mesmo cargo hipersensível e depois apoiando-o quando se descobriu que ele tinha uma carta emoldurada do líder político assassinado do Hamas, Ismail Haniyeh, e uma foto com Yasser Arafat penduradas na parede da sua casa?
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Equipa de redação partidária: Considera-se perfeitamente normal para os media ocidentais empregarem judeus israelitas partidários como equipa de apoio. Como Neff observou, eles exercem pressões subtis, e às vezes nem tão subtis, sobre os correspondentes para que sejam mais simpáticos com as narrativas israelitas.
Uma investigação de Alison Weir, da organização If Americans Knew, descobriu, por exemplo, que em 2004 funcionários israelitas da sucursal da agência de notícias AP em Jerusalém se recusaram a usar ou devolver imagens de vídeo enviadas por um cinegrafista palestiniano que mostravam soldados israelitas a dispararem no abdómen de um jovem desarmado. Em vez disso, destruíram a fita.
Grupos de lobby dos media, como a Camera e a Honest Reporting, operam como uma dupla de cães pastores dos media, conduzindo jornalistas agressivamente à sua linha. Como descobri, eles podem tornar a sua vida muito difícil: podem mobilizar um grande número de apoiantes fanáticos de Israel para bombardear publicações com reclamações, podem prejudicar a sua credibilidade com os seus próprios editores e podem alertar as autoridades israelitas para que você seja incluído numa lista negra dos media. A maioria dos repórteres considera-as organizações muito perigosas para poderem ser enfrentadas.
Acesso: Uma falha comum na pretensão do jornalismo de fiscalizar o poder — lembrem-se, nos autodenominamos o Quarto Poder — é que os repórteres invariavelmente precisam de acesso a autoridades de alto escalão, seja para obter matérias, informações ou comentários. Um jornalista com essa fonte é visto pelos editores como muito mais útil e confiável do que um sem fonte. Isso aplica-se a qualquer área de atuação, seja crime, política, desporto ou entretenimento.
No entanto, o acesso inevitavelmente tem um preço: a independência. Ninguém com uma fonte de alto nível quer antagonizar essa fonte — e perder o acesso — fazendo críticas excessivas à organização da qual a fonte tem conhecimento privilegiado.
Os correspondentes em Jerusalém são possivelmente ainda mais dependentes de acesso — no caso deles, de autoridades israelitas — do que outros repórteres, visto que matérias críticas sobre Israel têm maior probabilidade de gerar reclamações oficiais, ameaças de ações judiciais e perda de acesso.
Lembre-se: nenhum editor estará disposto a publicar uma matéria crítica em relação a Israel antes de conceder às autoridades israelitas o direito de resposta. Nesta etapa, Israel, ou os seus lobistas, muitas vezes conseguem abafar a matéria com eficácia. Se Israel indicar que reagirá com veemência, causando problemas para a publicação — ou se o meio de comunicação presumir que isso acontecerá —, é provável que os editores retirem a matéria em vez de arriscar um confronto grave.
Pressões da sede: Observe também que as sedes dos meios de comunicação nos EUA e na Europa estão sujeitas a outra camada de pressão de grupos de pressão – desta vez através da associação feita por esses grupos entre críticas a Israel e antissemitismo. Grupos como a Liga Antidifamação (Anti-Defamation League) ou o Conselho de Deputados Britânicos (Board of British Deputies) estão presentes, alegando representar as comunidades judaicas locais, que, segundo eles, ficam “chateadas”, “assustadas”, “intimidadas” ou “ansiosas” sempre que Israel é criticado.
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Paradoxalmente, são os editores mais experientes que parecem mais assustados e ansiosos. Em 2011, o falecido académico de media Greg Philo citou um editor sénior da BBC que falou sobre “esperar com medo pelo telefonema dos israelitas”. As prioridades dos editores ocidentais ficaram muito claras nos últimos dois anos: uma sensibilidade desesperada para com aqueles que apoiam o massacre e a fome que Israel impõe ao povo de Gaza, enquanto demonstram total insensibilidade para com aqueles que se solidarizam com os palestinianos que estão a ser massacrados e mortos de fome.
O resultado é que o padrão estabelecido para a publicação de uma matéria crítica a Israel é muito mais alto do que para outras regiões. Basta pensar na facilidade com que os jornalistas atribuem atrocidades na Ucrânia à Rússia, em comparação com a relutância de jornalistas — às vezes os mesmos — em identificar crimes piores em Gaza como atrocidades e apontar Israel como o responsável.
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Censura do governo israelita: Muitas vezes não se compreende que Israel opera um sistema de censura militar que limita o que os jornalistas podem dizer. Isso é especialmente importante, visto que grande parte do que é escrito pelos correspondentes em Jerusalém está relacionado com a ocupação militar ilegal de Israel.
Na sua forma mais severa, isso significa que Israel simplesmente nega o acesso de jornalistas a certas áreas, como vem fazendo há dois anos em Gaza. Ou pode exigir que eles se integrem nas forças militares israelitas, como a BBC fez em diversas ocasiões durante o genocídio em Gaza. Ou pode exigir que os jornalistas não divulguem factos importantes sobre o que está a acontecer.
Durante a guerra de Israel contra o Líbano em 2006, por exemplo, eu fui o único jornalista que tentou, da melhor forma possível, mencionar o facto de que Israel estava a posicionar tanques disparando contra o sul do Líbano, dentro ou perto de comunidades palestinianas, transformando as populações locais em escudos humanos. Os jornalistas geralmente autocensuram-se para evitar problemas com a censura militar israelita.
Um raro exemplo de jornalista mencionando o sistema de censura foi Lucy Williamson, da BBC, quando teve permissão para acompanhar as tropas israelitas este mês para filmar a destruição de Gaza. Ela observou:
“As leis de censura militar em Israel exigem que o pessoal militar tenha tido acesso ao nosso material antes da publicação. A BBC manteve o controle editorial desta reportagem em todos os momentos.”
E eu tenho uma ponte para lhe vender [n.t. “enganar alguém, geralmente fazendo com que essa pessoa faça algo que não pretendia fazer”].
Controle do governo israelita: Israel licencia correspondentes estrangeiros emitindo-lhes um cartão do Escritório de Imprensa do Governo. Nos últimos 20 anos, Israel emitiu esses cartões apenas para jornalistas que trabalham formalmente para uma organização de notícias considerada “credenciada”. Esse sistema de licenciamento foi reforçado depois de novas plataformas de media digital terem oferecido aos jornalistas freelancers a oportunidade de alcançar públicos fora dos media estatais e controlada por bilionários. Israel efetivamente proibiu jornalistas independentes e freelancers, numa tentativa de garantir que as reportagens sejam filtradas por grandes organizações de notícias, cujas próprias limitações mencionei acima.
Reconstruindo a nossa visão de mundo
Estas pressões práticas ganham grande parte da sua força porque jornalistas e editores historicamente temem ser acusados de antissemitismo por Israel. É tentador superestimar essa pressão. Suspeito que seja melhor vê-la como uma desculpa, uma racionalização para justificar a falha dos jornalistas em desempenhar o seu trabalho adequadamente — como ilustrado pela relutância em reconhecer o genocídio em Gaza como tal.
Mas, além dessas pressões práticas, existe uma razão mais profunda para os media ocidentais evitarem críticas sérias a Israel.
Israel é parte integrante de um sistema colonial ocidental contínuo de projeção de poder no Médio Oriente, região rica em petróleo. Israel é o Estado cliente por excelência do Ocidente. As instituições ocidentais precisam que Israel seja protegido.
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Nada disto seria tão significativo, é claro, se a nossa tão celebrada “imprensa livre” fosse, de facto, tão livre quanto alega. Se ela realmente servisse como fiscalizadora do poder. Se ela realmente pressionasse a classe política. Se ela realmente funcionasse como um quarto poder. Então, os políticos não teriam onde esconder-se.
Mas não é isso que os media corporativos fazem. Em vez disso, eles ecoam e amplificam as prioridades do establishment político. Eles são, na verdade, o braço mediático do establishment.
Quando eu trabalhava no The Guardian, o editor de assuntos internacionais — hoje um importante colunista — disse-me certa vez que não gostava que os seus correspondentes passassem mais do que alguns anos em postos difíceis como o da sucursal de Jerusalém, porque, com o tempo, eles provavelmente “se adaptariam à cultura local”. Na época, não entendi o que ele queria dizer. Mas aprendi rapidamente.
Em 2001, mudei-me para Israel para cobrir o conflito Israel-Palestina como jornalista freelancer. Não tinha editores pressionando-me. Estabeleci-me em Nazaré, uma comunidade palestina dentro de Israel, pensando que adotar uma abordagem diferente — os meus colegas estavam em áreas judaicas de Jerusalém ou em Tel Aviv — tornaria o meu jornalismo distinto e interessante para os editores no meu país. Na verdade, a minha perspectiva diferente tornou-me muito menos interessante para eles. Aliás, como logo ficou claro, isso deixou-os extremamente apreensivos em relação a mim.
Mas a questão é a seguinte: apesar das minhas circunstâncias únicas, levei anos para me “desprogramar” completamente e emergir do outro lado relativamente ileso.
Primeiro, tive que desconstruir o condicionamento e o treino — tanto ideológico como profissional — que me levaram a presumir que os israelitas eram os tipos bons e os palestinianos… bem, eles deviam ser algo menos que os tipos bons.
E então tive que reconstruir a minha visão de mundo ideológica e profissional do zero — como uma criança, tentando dar sentido a todas as novas informações que absorvia. Embora eu tenha escondido isso na época, a verdade é que foi um despertar lento, assustador e doloroso. Tudo em que eu acreditava e confiava desmoronou-se.
Não é de surpreender que a grande maioria dos jornalistas nunca faça essa transição. É muito improvável que tenham a oportunidade de mergulhar profundamente na vida desses “nativos”. Raramente lhes é permitido sair da rotina exaustiva do jornalismo para desenvolver uma perspectiva mais ampla.
Eles estão cercados por familiares, amigos, colegas e chefes, que constantemente reforçam a sabedoria convencional ou impõem padrões “profissionais” que sustentam o consenso existente. São desencorajados a desviarem-se do caminho, pois têm um salário a ganhar, uma carreira a desenvolver, contas a pagar e uma família para sustentar.
E, por fim, é claro, existe a perspectiva de uma jornada aterradora pela frente, descendo um túnel escuro rumo a um destino desconhecido.
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O autor: Jonathan Cook [1965-] é um escritor britânico e jornalista freelance que esteve baseado em Nazaré, Israel, durante 20 anos. Regressou ao Reino Unido em 2021. Escreve sobre o conflito israelopalestiniano. Escreve uma coluna regular para The National of Abu Dhabi and Middle East Eye e colabora com numerosos meios de comunicação (ver aqui). É licenciado em Filosofia e Política pela Universidade de Southampton e mestre em Estudos sobre o Médio Oriente pela Universidade de Londres e o seu blog é aqui.
É autor de três livros sobre o conflito Israel-Palestina: Blood and Religion: The Unmasking of the Jewish State (2006); Israel and the Clash of Civilisations: Iraq, Iran and the Plan to Remake the Middle East (2008); Disappearing Palestine: Israel’s Experiments in Human Despair (2008).

