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Espuma dos dias — O escândalo dos ‘espiões russos’ em Itália revela que a Europa está pronta para a guerra . Por Lorenzo Maria Pacini

Seleção e tradução de Francisco Tavares

8 min de leitura

O escândalo dos ‘espiões russos’ em Itália revela que a Europa está pronta para a guerra

Por Lorenzo Maria Pacini

Publicado por  em 13 de Julho de 2026 (original aqui)

 

 

A Itália juntou-se às fileiras de países que a Rússia deve levar em conta num cenário de guerra europeia, escreve Lorenzo Maria Pacini.

 

Não se trata de dinheiro

Quatro mil euros por dossier. Este é o montante que, de acordo com documentos da investigação conduzida pelo ROS Carabinieri [Raggruppamento Operativo Speciale], o oficial da GRU [serviço de inteligência russo] Mikhail Astakhov pagou ao ex-Marechal Raoul Gavino Piras, 59 anos, que anteriormente serviu no SISMI [Servizio per le Informazioni e la Sicurezza Militare] e depois no AISI [American Iron and Steel Institute], e está aposentado desde 2012. Os encontros — quatro em 2025 — tiveram lugar em locais de província: o miradouro da Via di Trapasso em San Clemente, Bracciano e Piazza Trieste em Santa Marinella. O russo teria entregue folhas de papel com pedidos dos seus superiores; o italiano tê-los-ia avaliado no local, e em seguida, recolhido o pagamento.

O detalhe digno de atenção, no entanto, não é o esquema nem a soma — que foi, de qualquer forma, modesta — que comprou doze anos de colaboração, mas sim a “lista de compras”. Porque o que Moscovo pediu a Piras revela, com uma precisão que nenhuma declaração oficial possui, o que a Federação Russa atualmente considera importante saber sobre a Itália. E a resposta é: o seu rearmamento.

Na residência em Ladispoli, os investigadores encontraram material que espelha, ponto a ponto, as “notas” entregues por Astakhov: planos de compra de mísseis de cruzeiro de Longo Alcance Storm Shadow e Scalp; os planos de rearmamento italiano, europeu e Atlântico; as perspectivas de desenvolvimento das Forças Armadas; as prioridades e objetivos da defesa da União Europeia; apoio à Ucrânia na produção de mísseis de longo alcance; e uma avaliação da eficácia dos ataques contra instalações nucleares iranianas. De acordo com as escutas telefónicas, Piras também discutiu com o seu interlocutor o SAMP/T, o sistema de defesa aérea ítalo-francês transferido para Kiev, especificando que a Itália havia fornecido o complexo de lançamento e a França os mísseis. Em outros lugares, são mencionados os sistemas Grifo e Aster, juntamente com o interesse italiano no tanque T-90 e um exercício em La Spezia envolvendo um veículo subaquático autónomo desenvolvido por Leonardo [n.t. antiga Finmeccanica, é um conglomerado italiano e um dos maiores grupos globais de defesa, aeroespacial e segurança].

A par disto está o aspecto mais tradicional do trabalho: os nomes. As identidades dos agentes da AISE e da AISI; o oficial de contrainteligência que investiga um suposto agente russo residente em Matera; perfis sobre a ROS e a cibersegurança policial; e notícias sobre a missão italiana na Bulgária. De acordo com os dossiers, Astakhov solicitou explicitamente dados pessoais sobre o pessoal militar e sobre as próprias fontes de Piras, com a clara intenção de recrutá-los.

Deve notar-se desde já que estes são elementos de uma investigação em curso, comunicada pelos investigadores e ainda não examinada em tribunal. No entanto, para efeitos desta análise, o que importa não é a responsabilidade penal dos indivíduos, mas a estrutura das necessidades de informação reveladas pelos pedidos. Essa estrutura é clara e segue uma lógica.

Um serviço de informações militares não gasta dinheiro nem gasta recursos humanos por mera curiosidade. O GRU reúne o que é necessário para o planeamento militar russo. Se o GRU pede à Itália o seu calendário de aquisição de mísseis, os seus planos de defesa plurianuais, um mapa do apoio industrial a Kiev e os nomes dos que trabalham na contra-espionagem anti-russa, isso significa que, no planeamento militar russo, a Itália já não é um factor secundário.

O que emerge da investigação é algo maior do que uma simples história de espionagem digna de um romance emocionante.

 

Não olhe para o dedo; olhe para a lua

Vale a pena fazer esta distinção, porque nem todas as informações solicitadas têm o mesmo peso.

Storm Shadow e Scalp são o mesmo míssil, desenvolvido conjuntamente pelo Reino Unido e pela França, com um alcance declarado superior a 250 quilómetros e a capacidade de penetrar em infra-estruturas endurecidas. São as armas que a Ucrânia usou para atacar profundamente os alvos russos na Crimeia e fora dela. Conhecer os planos de aquisição da Itália significa duas coisas. A nível táctico, permite-nos estimar quantas dessas armas podem acabar em Kiev e quando. Estrategicamente, permite-nos avaliar qual a capacidade de ataque profundo que a Itália tenciona desenvolver por si própria — isto é, se Roma está a construir uma capacidade autónoma de ataque profundo ou se continua a depender de fornecimentos franceses e britânicos.

O SAMP/T pertence a outra categoria. É um sistema de defesa aérea de longo alcance, o único sistema produzido na Europa comparável ao Patriot estado-unidense. O seu significado, do ponto de vista russo, é simples: saber quantos sistemas existem, onde estão implantados e qual é o seu desempenho real em relação a alvos balísticos significa saber quanto custaria saturar essas defesas. Isto aponta para a inteligência, não para a curiosidade política.

Os planos nacionais e europeus de rearmamento, por outro lado, servem a um propósito mais elevado. Eles não respondem à pergunta “Como faço para atacar”, mas sim “quanto tempo tenho”. Um plano de aquisição plurianual é uma declaração, em termos contabilísticos, de quando um exército estará pronto. Quem o lê sabe em que ano se encerra a janela de vantagem relativa. Na literatura de estudos estratégicos, este é o problema clássico do “encerramento da janela de oportunidade”: a percepção de que o adversário está a recuperar capacidades é historicamente uma das condições que torna um ataque preventivo mais provável, não menos.

Finalmente, os nomes. As identidades do pessoal de inteligência têm um valor que não é informativo, mas operacional: servem para construir redes, neutralizar a contra-espionagem e — em cenários degradados — para atacar. O facto de o GRU os ter solicitado à Itália, e não apenas à Polónia ou à Roménia, é um ponto digno de nota.

Não olhe para o dedo; olhe para a lua. A partir das escutas telefónicas publicadas, parece que a Itália está quase pronta para entrar em conflito directo com a Rússia. Este é o ponto mais importante de todos.

Para entender porque razão Moscovo está a olhar para Roma, é preciso examinar o que Roma fez nos últimos quatro anos.

A Itália passou de gastos com defesa cronicamente abaixo do limiar da NATO — cerca de 1,4% do PIB em 2021 — para uma trajetória de alinhamento com a meta de 2% e, após a Cimeira de Haia em junho de 2025, para um compromisso de longo prazo em direção a um limiar geral de 5%, dividido entre gastos militares em sentido estrito e infraestrutura de dupla utilização. Os métodos contabilísticos utilizados para cumprir este compromisso — e, em particular, a decisão da Itália de incluir elementos como as infra-estruturas de transporte e a segurança costeira no cálculo — são uma questão de debate legítimo, mas a orientação é clara.

Mais significativo do que o número é a mudança de doutrina. Até 2022, as Forças Armadas da Itália estavam otimizadas para uma tarefa específica: projetar a estabilidade no Mediterrâneo mais amplo — ou seja, missões de manutenção da paz, treino, controle marítimo e combate ao tráfico ilícito. Um exército construído para o Afeganistão e o Líbano, não para o Donbass. A guerra na Ucrânia trouxe de volta ao foco conceitos que a Europa acreditava serem coisa do passado: defesa coletiva contra um adversário simétrico, combate de alta intensidade, consumo de munições em escala industrial e logística de teatro de guerra.

O documento plurianual de Política de Defesa reflecte esta mudança com uma linguagem que teria sido impensável em 2015. Refere-se à defesa aérea integrada, às capacidades de ataque profundo, ao reabastecimento e à sustentabilidade de um conflito prolongado. O programa Aster, o refinanciamento da defesa antimísseis, a aceleração dos sistemas anti-drones, a revitalização da componente blindada através do programa Leopard e o GCAP [Global Combat Air Programme, desenvolvimento de um caça furtivo de sexta geração] com o Reino Unido e o Japão: todas estas são escolhas que fazem sentido dentro de um único cenário de implantação — e esse cenário é europeu, não mediterrânico.

 

A militarização da Europa e o pilar europeu da NATO

A Itália não está a agir sozinha, e é aí que o caso Piras assume uma dimensão que ultrapassa as fronteiras nacionais.

O quadro em que Roma opera é o de uma reconstrução acelerada do aparelho militar europeu. O plano ReArm Europe e o instrumento SAFE disponibilizaram centenas de milhares de milhões de recursos através de empréstimos e de flexibilidade orçamental. A Alemanha alterou a sua constituição fiscal para isentar as despesas de defesa do seu travão da dívida. Os gastos com defesa da Polónia situam-se em cerca de 4,5% do PIB. A Comissão Europeia — uma instituição criada originalmente para o carvão e o aço — está agora a discutir as reservas de munições e a mobilidade militar.

A NATO, entretanto, redesenhou o seu quadro operacional. Os novos planos regionais aprovados em Vilnius em 2023 trouxeram a Aliança de volta ao planeamento geográfico de teatro de guerra — uma prática ausente desde 1991 — atribuindo a cada aliado tarefas específicas dentro de cenários definidos. O novo modelo de força exige mais de 300.000 soldados em alerta máximo. Isso — e não a retórica dos comunicados de imprensa — é o que significa o reforço do Pilar Europeu: Não uma emancipação dos EUA, mas uma redistribuição de encargos dentro de uma estrutura que permanece de natureza Atlântica e cuja lógica operacional voltou à de defender o território aliado contra um ataque russo convencional.

Neste quadro, a Itália ocupa uma posição que não é de modo algum periférica. E é uma posição que Moscovo tem boas razões para querer compreender.

A doutrina estratégica de hoje coloca a Itália no flanco sul da Aliança, e o pressuposto implícito é que o flanco sul está longe das linhas de frente. Trata-se de um pressuposto erróneo, e os pedidos do GRU confirmam-no.

Numa guerra de alta intensidade na frente oriental, o papel da Itália não estaria na linha de frente. Seria na retaguarda estratégica, que em termos militares é mais importante, não menos. As bases de Sigonella, Aviano, Ghedi, Nápoles, Camp Darby e La Maddalena constituem a infra-estrutura através da qual passariam fornecimentos, aeronaves e pessoal. O comando das Forças Conjuntas aliadas está sediado em Nápoles. A logística Atlântica no Mediterrâneo passa pelos portos italianos. Num conflito prolongado, a capacidade de sustentar a frente depende do escalão da retaguarda pelo menos tanto quanto das forças destacadas, e a história militar do século 20 não oferece exemplos de Exércitos que venceram longas guerras com escalões da retaguarda vulneráveis.

Soma-se a isto a dimensão industrial. Leonardo, Fincantieri, Avio, Elettronica e MBDA Italia são nós-chave na cadeia de abastecimento europeia em sectores (helicópteros, aviónicos, torpedos, mísseis, guerra electrónica) onde a reposição não é um processo rápido. A referência nas escutas telefónicas a um exercício em La Spezia que envolve um sistema subaquático não tripulado é coerente com este interesse: a guerra submarina e a protecção de infra-estruturas críticas no fundo do Mar Mediterrâneo — cabos e gasodutos — são áreas em que a Rússia está activa e em que a Itália possui capacidades.

Qualquer um que planeie um confronto com a NATO deve saber o que visar para desacelerar a máquina aliada. E quem quiser saber o que visar na Itália deve primeiro saber o que a Itália possui, onde e quando terá mais.

 

E então?

Chegamos ao ponto mais sensível, que deve ser abordado sem ir por atalhos.

O facto de a Itália estar a equipar-se com as ferramentas para um conflito convencional de alta intensidade com a Federação Russa é um facto que pode ser deduzido dos seus programas de aquisição, da sua doutrina e dos exercícios de planeamento associados. O facto de a Itália ter decidido travar uma guerra deste tipo não é um facto oficialmente declarado, mas os documentos de investigação — pelo menos até onde foram divulgados — revelam que o país está a responder a ordens muito específicas, que não é o único a preparar-se e que a força motriz por detrás de todo este complexo mecanismo é a intenção de participar num conflito de grande escala.

A teoria da dissuasão prospera precisamente nesta ambiguidade. Para que a dissuasão funcione, a capacidade militar deve ser real, visível e credível: uma arma que o adversário não acredita que você seja capaz de usar não impede ninguém; mas uma capacidade real, visível e credível é, objetivamente, indistinguível da preparação para um ataque. Um observador externo não tem acesso às intenções, apenas às capacidades. Este é o dilema da segurança, tal como formulado por John Herz, e não é uma falha corrigível no sistema internacional, uma vez que é a própria estrutura do sistema.

Segue-se uma consequência desagradável: a saber, que a Itália pode armar-se com a intenção puramente dissuasora e ainda, aos olhos de Moscovo, ter o efeito de alimentar a percepção de um cerco que está a tomar forma. A Rússia pode interpretar o rearmamento europeu como uma ameaça existencial e reagir de forma a confirmar aos europeus a necessidade de rearmamento. A espiral alimenta-se de si mesma sem que nenhum dos actores tenha de tomar qualquer decisão. As duas interpretações — a defensiva e a ofensiva — não são mutuamente exclusivas, mas descrevem a mesma realidade material a partir de dois pontos de vista diferentes, e ambas são, a partir dos seus respectivos pontos de vista, racionais.

O caso Piras enquadra-se precisamente nesta dinâmica. A espionagem de alta intensidade sobre os planos de rearmamento de um adversário não é uma atividade típica de tempos de paz comuns, mas sim a actividade que caracteriza a fase que os estudiosos da concorrência entre as grandes potências chamam de “pré-conflito” – a fase em que a guerra ainda não foi decidida, mas entrou no domínio das hipóteses de trabalho para os planificadores, e em que cada lado precisa de saber o que o outro será capaz de fazer daqui a três anos. As redes de inteligência são construídas com antecedência porque, em caso de crise, não há tempo para construí-las. O facto de o GRU ter investido doze anos numa fonte italiana, e de nos últimos três anos as questões se terem tornado tão especificamente militares por natureza, é um indicador da forma como Moscovo está a calibrar os seus horizontes temporais, porque sabe que a Itália será um desses países a tomar uma posição caso o conflito — há muito prometido pelas autoridades europeias — surja.

Há uma ironia nesta história que fala mais alto do que muitas análises. Durante anos, a Rússia viu a Itália como o ponto fraco da Aliança: um país de simpatias generalizadas, laços energéticos, uma classe política permeável e um público relutante. Um alvo de influência, e não de inteligência militar. O tipo de país em que se investe em narrativas, não em planos de focalização.

Os pedidos apresentados num banco de jardim em Bracciano contam uma história diferente. Revelam que, aos olhos de Moscovo, a Itália se tornou um problema militar: um fornecedor de sistemas de longo alcance, um centro logístico Atlântico, um contribuinte industrial para as capacidades da Ucrânia e um interveniente cujas forças armadas estão a adquirir capacidades que não tinham — e não pretendiam ter — em 2013. Não se gasta quatro mil euros por dossier para compreender as opiniões de um país, mas para compreender as suas armas.

Isto, mais do que qualquer declaração do Palazzo Chigi [sede do governo italiano e residência do primeiro-ministro], mede o quão longe chegamos. Sem um debate público compatível com o significado da decisão, a Itália juntou-se às fileiras de países que a Rússia deve incluir num cenário de guerra europeia. Se este é um estado de coisas desejável, se o rearmamento promove a segurança ou a corrói, e se o país entendeu o que está a fazer — estas são questões que permanecem abertas e não podem ser resolvidas apenas através de uma análise das capacidades. Mas a questão preliminar — a que diz respeito ao facto em si — tem uma resposta. Alguém em Moscovo considerou que valia a pena descobrir. E alguém em Roma está pronto para tornar realidade todos os pressupostos dos analistas, levando a Itália a entrar em guerra contra a Federação Russa.

 

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O autor: Lorenzo Maria Pacini [1994 -] é Professor Associado na University UniCampus HETG de Geneve e Professor adjunto de Filosofia Política e Geopolítica, UniDolomiti de Belluno e na Universidade Livre de Bellinzona. Estudou Filosofia e Teologia na Universidade Pontifícia Santa Croce de Roma, especializando-se em Bioética no Ateneo Pontifício Regina Apostolorum de Roma. É licenciado em Filosofia Estética pela Università degli Studi di Ferrara. Preparou o seu doutoramento na UniToscana-Universidade Leonardo Da Vinci de Zurique em Filosofia Política, com um projecto sobre a metafísica política em A. Dugin. Foi também chefe do primeiro curso académico sobre a Quarta Teoria Política de Aleksandr Dugin e do curso geopolítica do mundo Multipolar. Trabalha frequentemente como consultor em defesa e inteligência para assuntos diplomáticos e agências privadas. Jornalista, editor, músico, Taekwondo e atleta de tiro com arco. Membro consultor da WABT-Academia Mundial de Ciências e tecnologias biomédicas; membro do Conselho de administração do OSS – Observatório contra a vigilância Estatal do ECSEL (Europen Center for Science, Ethics and Law). É um dos fundadores do centro de Estudos Internacionais sobre multipolaridade “Daria Dugina”. Atualmente, árbitro italiano do movimento eurasiano Internacional. Fundador e Diretor da http://www.ideeazione.com.

 

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