Espuma dos dias — Um triângulo com apenas dois lados: o movimento de Trump com Zelensky a favor de Putin. Por Lorenzo Pacini

 

Seleção e tradução de Francisco Tavares

5 min de leitura

Um triângulo com apenas dois lados: o movimento de Trump com Zelensky a favor de Putin

 Por Lorenzo Pacini

Publicado por  em 24 de Agosto de 2025 (original aqui)

 

 

Já não lutamos como no passado. Acima de tudo, as conquistas e as vitórias devem agora ser interpretadas de forma diferente.

 

A geometria não é uma questão de opinião

É praticamente tudo o que se fala: após a cimeira realizada em 15 de agosto de 2025, em Anchorage, Alasca, entre Donald Trump e Vladimir Putin – o primeiro encontro deste tipo em solo americano em anos – houve uma discussão aberta sobre a possibilidade de organizar uma cimeira trilateral subsequente com a participação do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.

Trump havia declarado que havia começado os preparativos para tal reunião, embora a cimeira do Alasca não tivesse levado a um acordo formal ou a uma trégua, apesar das tentativas de mostrar desenvolvimentos positivos. Ao mesmo tempo, o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, sublinhou a necessidade de reuniões preliminares para preparar o terreno diplomático.

O encontro foi agora um dado adquirido, e chegaram felicitações de todo o mundo por este evento histórico. Então, no entanto, algo aconteceu. Primeiro vieram os rumores, depois a confirmação oficial: Trump estava a retirar-se das negociações. O triângulo EUA-Ucrânia-Rússia foi quebrado.

A geometria não é uma questão de opinião, como a matemática. Um triângulo precisa de três lados. Nenhuma reunião trilateral, haverá apenas dois componentes. Então?

Antes de discutirmos a importância do movimento de Trump, vejamos a situação na Europa.

Como é sabido, após a Cimeira de Anchorage, os líderes europeus, os chamados “voluntários”, voaram para Washington, tendo vivido um dos momentos mais baixos da história da política europeia. Foi um momento de real redefinição geométrica, em que o equilíbrio de poder foi colocado sobre a mesa e reafirmado com proporções diferentes daquelas que os líderes europeus haviam apoiado anteriormente.

Não, a Europa política não é o que nos dizem os meios de comunicação europeus. E não, as instituições europeias já não contam para nada. Elas têm valor e eficácia apenas para os cidadãos europeus que ainda não compreenderam que temos diante de nós a oportunidade do século de nos livrarmos de uma classe política insubstancial e corrupta, liquidando o monstro chamado União Europeia, o verdadeiro instrumento de controlo e dominação do eixo anglo-francês, a nível político, e do eixo anglo-americano, a nível estratégico.

De facto, os líderes dos países que têm interesses em jogo na Ucrânia foram a Washington. Nem todos os líderes da UE, apenas aqueles “que realmente importam”, como escreveu a imprensa. E o que é que eles importam? Pelos investimentos militares que fizeram, pela assinatura dos pacotes de sanções contra a Rússia, pela sua constante e mórbida retórica russofóbica, e por alimentar o medo, o terror e a guerra, enquanto milhares de ucranianos morreram, forçados e chantageados a travarem uma guerra decidida por outrem.

De facto, foram precisamente esses dirigentes que se fizeram figura ridícula em Washington, sofrendo uma enorme humilhação, quando lhes foi dito que os seus planos estão destinados a ser reduzidos, que os Estados Unidos deixarão de apoiar a sua loucura como antes e que, em última análise, todos deveriam pensar por si próprios.

O maior golpe foi dado à França, com Emmanuel Macron, que tem sido um grande promotor da corrida armamentista e das falsas tentativas de diplomacia com Moscovo. Mas também o alemão Friedrich Mertz, que mal conseguiu manter o país à tona lançando uma economia de guerra, dando um salto de cem anos para trás na história. E depois, é claro, há Keir Starmer, o engraxador de sapatos da coroa, que representa os interesses da NATO, a Aliança do Atlântico Norte que, lembremo-nos, sempre foi politicamente liderada pela Europa. A seguir a todos estão os restantes, nomeadamente Ursula Von der Leyen, a medusa da Comissão Europeia, que desta vez não conseguiu interpretar a bruxa soberana que ameaçava todos com a sua magia negra, mas teve de se sentar em silêncio e receber as más notícias.

Más, sim, muito más, porque Trump disse mais ou menos à Europa que a partir de agora terá que comprar as suas armas pelo preço total, que a assistência militar deixará de ser a mesma de antes, mas também que as tarifas estão bem onde estão e que ele não se importa muito com as políticas europeias porque ele tem que pensar nos EUA em primeiro lugar.

Por outras palavras: Europa, chegou a tua hora. O teu tempo de sucumbir.

 

Não olhes para a ponta do dedo, olha para a lua, para aquilo que importa

A maioria dos analistas concentrou-se no dedo em vez de olhar para a lua. Trump voltou a jogar a carta americana: ele disse A mas fez B. Era de se esperar, os americanos são astutos.

Trump está a jogar póquer. Ele fez bluf.

Mas o que é que isso significa?

Para compreender este movimento, temos de tentar ligar a Cimeira de Anchorage à Cimeira de Washington. Trump deixou Zelensky nas mãos de Putin. Ou melhor, ele atraiu Zelensky para uma armadilha que ele não poderia recusar, caso contrário ele teria feito uma terrível figura ridícula de si mesmo. Depois, uma vez confirmado, deixou-o sozinho diante de Putin e de todo o mundo, para que se revelassem as verdadeiras cores de Zelensky, juntamente com as suas responsabilidades nesta guerra absurda e, acima de tudo, quem está a puxar os cordelinhos nos bastidores – os mestres de marionetes europeus -, quais os países que têm interesses e o que farão agora que as cartas estão sobre a mesa.

Putin, por outro lado, como um bom russo, é um jogador de xadrez habilidoso.

Putin sabia que ir ao Alasca seria um movimento útil, porque lhe permite tomar muitas outras medidas mais adiante. Ele mostrou que a Rússia não está isolada, mas sim no centro do mundo, que está aberta, disposta a dialogar e que os resultados objectivos que alcançou são inegáveis, mesmo pelo seu grande inimigo histórico.

Perante esta situação, a Europa de hoje não pode fazer nada.

Trump também fez o movimento mais útil para Putin, que agora tem carta branca para fazer o que é necessário.

Não sabemos o que os dois presidentes disseram um ao outro durante a sua reunião no Alasca. Mas estamos a ver os primeiros efeitos concretos de uma mudança na geometria de que falavam. O tabuleiro de xadrez internacional está a entrar numa fase de guerra híbrida de quinta e sexta geração, na sua totalidade. As doutrinas militares clássicas, as doutrinas das relações internacionais e da geopolítica que conhecemos há anos, estão a colidir com a transformação que está em curso, que é imparável e inegável.

Já não lutamos como no passado. Acima de tudo, as conquistas e as vitórias devem agora ser interpretadas de forma diferente.

Trata-se de uma pequena amostra de algo que poderá ter uma série de efeitos importantes nos próximos meses, especialmente em outubro e novembro, nomeadamente para a Ásia Ocidental (Médio Oriente) e, naturalmente, para o terrível destino da Europa.

 

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O autor: Lorenzo Maria Pacini é Professor Associado de Filosofia Política e Geopolítica, UniDolomiti de Belluno. Consultor em Análise Estratégica, Inteligência e Relações Internacionais.

 

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