Seleção e tradução de Francisco Tavares
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Putin, a doutrina nuclear, a nova dissuasão: ultimato à Europa
Publicado por
em 23 de Novembro de 2024 (original aqui)
Por quanto tempo a Europa seguirá a idiocracia Ocidental? Não chegou o momento de escolher estar do lado certo da história?
Uma nova doutrina de dissuasão nuclear. Esta é a resposta da Federação Russa à nova provocação da NATO, que autorizou e iniciou a utilização de sistemas de mísseis de longo alcance em território russo, atacando o país.
Na lógica mais simples e elementar, isso chama-se ‘mais uma declaração de guerra’. Na doutrina militar, trata-se de uma provocação destinada a verificar certas posições do inimigo em relação a certos elementos necessários na equação estratégica. Tudo está à beira do absurdo, porque numa fase tão delicada como a transição entre os governos Biden e Trump, o establishment americano parece não ter nada melhor a fazer do que lançar toda a Europa no precipício da destruição. Mas eles são mais inteligentes em Moscovo.
De doutrina em doutrina
Vamos primeiro dar uma olhadela na doutrina militar anterior sobre armas nucleares e dissuasão, emitida em junho de 2020 por decreto executivo do presidente Vladimir Putin.
O decreto define os princípios básicos da política estatal de dissuasão nuclear, pedra angular da estratégia de defesa do país, delineando a visão oficial da Rússia sobre o uso de armas nucleares, identificando os riscos, ameaças e condições específicas que poderiam levar ao seu uso, bem como estabelecendo diretrizes para a gestão da dissuasão.
A dissuasão nuclear é definida como um conjunto de medidas políticas, militares, económicas e diplomáticas coordenadas para dissuadir um potencial adversário de tomar medidas hostis contra a Rússia e os seus aliados. A política, de natureza declaradamente defensiva, visa preservar a soberania nacional, a integridade territorial e a segurança do estado, mantendo um nível suficiente de capacidade nuclear para prevenir agressões e conflitos armados. No caso de um conflito militar, esta política visa evitar uma escalada e levar as hostilidades a uma conclusão aceitável para a Federação Russa.
A Rússia considera as armas nucleares um instrumento de extrema necessidade, cuja utilização é reservada a situações críticas. A decisão de as utilizar cabe exclusivamente ao Presidente, que pode, se necessário, informar outras nações ou organizações internacionais da sua vontade ou decisão de o fazer. As condições de utilização incluem a resposta a um ataque nuclear ou ADM contra a Rússia ou os seus aliados, uma agressão convencional que ameace a existência do estado ou um ataque a infra-estruturas críticas que comprometa as capacidades de resposta nuclear.
O decreto identifica depois várias ameaças que exigem dissuasão nuclear, nomeadamente o desenvolvimento e implantação de sistemas avançados de armas por estados considerados adversários, a expansão de alianças militares hostis e a proliferação descontrolada de armas nucleares. Outras preocupações incluem o envio de armas ofensivas perto das fronteiras russas e o potencial uso do espaço para fins militares.
Os princípios orientadores da dissuasão nuclear russa incluem a adesão aos compromissos internacionais de controlo de armas, a continuidade das actividades defensivas, a adaptabilidade da estratégia às ameaças emergentes, a centralização do controlo estatal e a manutenção de um arsenal nuclear mínimo mas suficiente para garantir a segurança nacional. A dissuasão baseia-se numa combinação de forças nucleares terrestres, marítimas e aéreas, mantidas em constante estado de prontidão.
A responsabilidade pela implementação desta política é distribuída entre vários órgãos estatais. O Presidente orienta a estratégia global, enquanto o governo lida com aspectos económicos, diplomáticos e tecnológicos para sustentar o potencial nuclear. O Conselho de Segurança coordena as actividades das instituições envolvidas e o Ministério da Defesa supervisiona o planeamento e a execução das medidas militares.
Existe um compromisso declarado da Federação Russa de reduzir as tensões internacionais e de prevenir e desarmar os conflitos, reservando-se ao mesmo tempo o direito de se defender por todos os meios necessários, incluindo a força nuclear, contra qualquer ameaça existencial.
O novo anúncio de doutrina de dissuasão nuclear
Putin anunciou a nova doutrina de dissuasão nuclear, ainda não tornada pública nos canais governamentais, mas disponível em tradução não oficial nos canais Sputnik.
As diferenças mais importantes, ou melhor, as especificações acrescentadas no novo decreto executivo, dizem respeito aos seguintes pontos:
- A natureza do inimigo, que pode ser único ou uma aliança ou bloco, alargando a sua definição, em perfeita coerência com os repetidos anúncios de funcionários do governo russo sobre os ataques da NATO e dos seus países membros;
- Os tipos de ameaças identificadas, que se estendem a uma vasta gama de Sistemas Estratégicos, integrando também tecnologias espaciais;
- O mapeamento dos domínios, redefinindo a proximidade com a Federação Russa e os seus sistemas militares.
A racionalização e actualização da doutrina da dissuasão nuclear constitui um aviso importante para todo o Ocidente: a Rússia está pronta para uma guerra nuclear. O presidente fez referência a sistemas de mísseis hipersónicos russos, anteriormente não revelados, o Oreshnik, que não foi uma pequena surpresa para o Ocidente, que, em vez disso, se concentrou em informações que o Kremlin havia divulgado para distrair da sua preparação para conflitos diretos. Um sistema, o Oreshnik, capaz de atingir Mach 10, excedendo os sistemas de defesa ocidentais que conhecemos.
O anúncio foi reiterado pelas palavras de Putin em 21 de novembro, quando ele falou ao mundo dando um verdadeiro ultimato:
“Repito: estamos a testar o sistema de mísseis Oreshnik em condições de combate, em resposta às acções agressivas dos países da NATO contra a Rússia. A questão da nova implantação de mísseis de alcance intermédio e de curto alcance será decidida por nós em função das acções dos EUA e dos seus satélites. Os alvos a serem atingidos durante novos testes dos nossos mais recentes sistemas de mísseis serão determinados por nós de acordo com as ameaças de segurança à Federação Russa. Consideramos-nos autorizados a utilizar as nossas armas contra as instalações militares dos países que permitem à Ucrânia utilizar as suas armas contra as nossas instalações e, em caso de escalada de acções agressivas, responderemos de forma igualmente decisiva e arriscada. Recomendo às elites dominantes dos países que tencionam utilizar os seus contingentes militares contra a Rússia que pensem seriamente nisso”.
À loucura da hegemonia americana, Putin responde apelando aos países europeus, que estão bem conscientes de que são eles que serão sacrificados numa guerra fratricida sem precedentes. Por quanto tempo a Europa seguirá a idiocracia Ocidental? Não chegou o momento de escolher estar do lado certo da história?
Por conseguinte, a Rússia responde com um contra-ataque e uma promessa: continuamos a usar armas ‘convencionais’, porque reservamos a sobremesa nuclear para um momento melhor. A escolha do menu fica para o Ocidente.
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O autor: Lorenzo Maria Pacini é Professor Associado de Filosofia Política e Geopolítica, UniDolomiti de Belluno. Consultor em Análise Estratégica, Inteligência e Relações Internacionais.




Curiosa a demonização de alguns diante de outros nazistas…
Veja isto, entre outras barbaridades nazistas do homem no pseudo comando estadunidense:
https://www.cartacapital.com.br/mundo/trump-diz-que-eua-tomarao-o-controle-da-faixa-de-gaza/