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Espuma dos dias — As premissas falsas que estão na base do alarmismo dos [alguns] europeus sobre uma ‘guerra contra a Rússia . Por Alastair Crooke

Seleção e tradução de Francisco Tavares

5 min de leitura

As premissas falsas que estão na base do alarmismo dos [alguns] europeus sobre uma ‘guerra contra a Rússia

 Por Alastair Crooke

Publicado por  em 28 de Setembro de 2026 (original aqui)

 

Os últimos dias viram as classes políticas europeias aumentarem o volume ao máximo com notas verbais claramente concertadas — e partilhadas: ‘a guerra com a Rússia está a chegar; a Rússia pretende atacar a NATO; temos de nos preparar; armazenar água engarrafada, comida enlatada e estar prontos para oferecer os seus filhos ao recrutamento militar’ – ‘muitos morrerão; mas é seu dever defender o seu país‘.

Que insensatez! Para transmitir a mensagem, os líderes europeus, nomeadamente o Alto Representante da UE Kallas e o chanceler alemão Merz, recentemente vestiram-se deliberadamente com camuflado de campanha para sinalizar “prontidão de defesa” durante a Cimeira Europeia do Árctico em 14 de setembro. (Estes políticos europeus podem ser vistos com uniformes militares aqui).

Parecem absurdos. No entanto, isso não pode prejudicar a questão — o que é exatamente essa histeria que se apodera dos tecnocratas europeus?

À primeira vista, a mensagem unificada de que a Rússia está prestes a atacar a Europa e que a guerra está a chegar não faz sentido. A Europa não tem nem os homens, nem as munições, nem as finanças, nem a capacidade industrial para travar uma guerra contra o que hoje pode ser considerado uma grande potência militar, bem como o estado que possui o maior inventário de armas nucleares.

ZeroHedge observa que,

“Entre os fornecedores mais barulhentos desta narrativa infundada [de ameaça de ataque russo] estão os líderes dos Estados Bálticos. Por exemplo, esta semana, o presidente da Letónia Edgars Rinkevics chegou a dizer que os ‘ataques’ russos à UE e à NATO já começaram. As nações bálticas estão até a emitir planos de preparação para emergências para as suas populações, alegando um cenário ao estilo Amanhecer Violento”.

“Não estamos a falar de uma guerra convencional. Estamos a falar de todo o tipo de provocações, de todo o tipo de actos de sabotagem, de todo o tipo de testes, e definitivamente isso é algo que já está a acontecer enquanto falamos”, disse o líder da Letónia.

O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, afirmou esta semana que a Rússia poderia lançar ataques esporádicos que finge serem “acidentais” para “paralisar ou pelo menos enfraquecer a motivação dos países da NATO”, como citado na Associated Press. “Há um risco real de que drones ou outros tipos de projéteis entrem no território de um ou vários países no flanco oriental e até causem destruição”, acrescentou Tusk, alertando: “Moscovo pode ir tão longe a ponto de lançar um ataque aéreo de alguma forma no território da NATO nos próximos meses para mostrar que o artigo 5 da aliança militar compromisso de defesa comum é pouco mais do que algumas palavras num pedaço de papel.”

No entanto, contra todas as provas acumuladas, os líderes europeus estão, no entanto, a empolgar-se para estarem psicologicamente preparados para puxar o gatilho do artigo 5º contra uma grande potência com armas nucleares.

Na sequência deste exagero, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia Sergey Lavrov advertiu explicitamente:

“Gostaria de sublinhar que não temos interesse em empenharmo-nos nisto [atacar a Europa], mas se a Europa, que está a falar diariamente em preparar-se para a guerra contra a Rússia, atacar a Rússia, será uma guerra completamente diferente – e será muito curta”.

O que está por trás deste aparente absurdo? Por um lado, é evidente que as camadas dominantes de Bruxelas vêem os seus erros estratégicos (apoio irrestrito à Ucrânia, o sacrifício do modelo empresarial europeu no altar da pressão sobre a Rússia, o seu apoio à guerra do Irão e a sua indiferença para com o sofrimento no Médio Oriente) a voltarem-se contra eles mesmos, com consequências negativas inevitáveis.

A sua propagação do medo em relação à Rússia cheira a desespero, em vez de uma reflexão cuidadosa e a devida diligência sobre os riscos muito reais de alardear a guerra desta forma. O poder estabelecido vê, sem dúvida, que a crise energética decorrente da guerra EUA-Israel contra o Irão já não está “a chegar”, mas sim que já chegou.

Eles podem ver os custos de vida a aumentar, os empregos que se evaporam e o próximo colapso nos mercados — principalmente no mercado de títulos (cujo nível de taxa de juros define o valor de todos os outros ativos de risco). Vendo isso, esses políticos ameaçados podem ter concluído que desencadear o medo é a única maneira de se desviarem dos seus próprios fracassos e talvez permitir-lhes a esperança de que possam sobreviver ao ciclo eleitoral.

A sobrevivência é uma motivação fundamental, mas provavelmente também a psique das elites é sustentada por duas proposições que são falsas, mas aparentemente soam como plausíveis para a classe política.

A primeira falácia é que a Rússia lançou uma guerra preventiva em fevereiro de 2022 para tomar Kiev e cerca de 60% da Ucrânia.

Acontecimentos anteriores na Síria explicam a realidade: a Rússia entrou oficialmente no conflito civil sírio em setembro de 2015, na sequência de um pedido do presidente Assad. A intervenção russa revelou-se de alcance limitado – um destacamento aéreo muito limitado (28 a 34 aeronaves) e o mínimo de forças especiais de combate (a contribuição da Rússia compreendia principalmente conselheiros militares, controladores aéreos avançados e Polícia Militar).

A presença da Rússia na Síria foi intencionalmente simbólica — uma declaração de intenção séria, em vez de um desejo de se envolver em guerra terrestre. De facto, o objectivo de Moscovo era evitar o combate directo no solo. No entanto, os ataques aéreos russos — com o apoio de tropas terrestres iranianas — ajudaram o Exército Sírio a expulsar as forças jihadistas de Aleppo. Isto levou a uma trégua mediada entre a Rússia e a Turquia no final de 2016 e ao início do processo de paz de Astana pouco depois.

A abordagem de Putin a Aleppo definiu claramente o modelo das suas tácticas iniciais em relação à Ucrânia. A Rússia enviou cerca de 15.000 a 30.000 homens fora e ao redor de Kiev, durante o ataque inicial no início de 2022. A narrativa europeia de que essa força pretendia tomar Kiev no início de 2022 é risível — 40.000 soldados podem encher uma praça da cidade, mas podem tomar uma cidade de mais de três milhões de habitantes? Ridículo.

No entanto, os comentadores europeus e americanos — nomeadamente o comentador estado-unidense Robert Pape — afirmam que, desde que a tentativa de tomar Kiev entrou em colapso, combinado com o corolário imputado de que Putin esperava que a sua demonstração simbólica de ‘intenção séria’ de fazer a NATO recuar, sugere — afirma Pape — que Putin está preso numa armadilha de escalada. Pape argumenta que Putin procurou uma vitória rápida em 2022, mas tendo falhado, está ‘preso’ por agora ter que subir uma escada de escalada com perspectivas de sucesso cada vez piores — daí Putin falhar. “É apenas uma questão de tempo”.

Longe de ser um fracasso, a demonstração de força de Moscovo na Síria, por mais pequena que fosse, funcionou — Astana foi o modelo extraído da Síria. No final de Março de 2022, o processo de Istambul produziu o Comunicado de Istambul, um quadro para um acordo com a Ucrânia. Esta última iniciativa falhou por uma única razão — Boris Johnson torpedeou-a — e a Rússia foi forçada a reagrupar-se, o que fez com sucesso, embora ao preço de uma longa guerra de desgaste e da perda desnecessária de centenas de milhares de vidas ucranianas.

Não, foi Boris Johnson quem levou a Europa a uma armadilha de escalada.

Os europeus, ao que parece, sustentaram a sua ‘história de sucesso’ para a guerra contra a Rússia, em primeiro lugar, na noção do fracasso imputado de Kiev e, em segundo lugar, na dependência exagerada de sanções financeiras. O ex-ministro francês das Finanças, Le Maire, declarou, num momento de euforia, “guerra económica e financeira total contra a Rússia“. Ele insistiu que as sanções sufocariam e colapsariam a economia russa — na prática, a Rússia depois de 2007 mudou para um modelo económico nacional (auto-suficiente) e ainda prospera.

Então, quem armadilhou quem? A premissa central imaginada pelo Ocidente de que a Rússia estava presa numa escalada a partir do momento em que o plano inexistente de tomar Kiev falhou, virou a situação ao contrário.

Foi a análise errónea do Ocidente que prendeu o Ocidente numa escalada de acções que arriscam inadvertidamente levar a Europa a uma guerra com a Rússia — uma guerra que nenhum Europeu quer.

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O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou reuniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).

 

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