Seleção e tradução de Francisco Tavares
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Pode Trump salvar a América de si mesma? (1/2)
Publicado por
Brave New Europe em 12 de Janeiro de 2025 (original aqui)
Nesta semana, Lavrov [ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia] rejeitou as propostas de paz da equipa Trump para a Ucrânia como insatisfatórias. Essencialmente, a visão russa é de que os apelos a um conflito congelado precisamente não captam o essencial: do ponto de vista russo, tais ideias – conflitos congelados, cessar-fogo e forças de paz – não começam a qualificar-se como o tipo de acordo ‘global’ baseado em tratados que os russos têm defendido desde 2021.
Sem um fim sustentável e permanente do conflito, os russos preferirão contar com um resultado no campo de batalha – mesmo sob o alto risco de a sua recusa trazer escalada contínua – até mesmo nuclear – da arriscada política dos EUA.
Em vez disso, a questão é: a paz sustentada entre os EUA e a Rússia-é mesmo possível?
A morte do ex-presidente Jimmy Carter recorda-nos a turbulenta ‘revolução’ política dos anos 1970, que ficou encapsulada nos escritos de Zbig Brzezinski, ocnselheiro de Segurança Nacional de Carter – uma revolução que atormenta as relações EUA-Rússia desde então, até hoje.
A era de Carter viu um grande ponto de inflexão com a invenção de Brzezinski do conflito identitário armado, e sua adoção das mesmas ferramentas identitárias – aplicadas mais amplamente – a fim de colocar as sociedades ocidentais sob o controle de uma elite tecnocrática “[praticando] vigilância contínua sobre todos os cidadãos … juntamente com a manipulação [pela elite] do comportamento e funcionamento intelectual de todas as pessoas ...”.
Os livros seminais de Brzezinski, em suma, defendiam uma esfera identitária cosmopolita gerida, que substituiria a cultura comunal – isto é, os valores nacionais. É na reacção hostil a esta visão tecnocrática de ‘controlo’ que podemos erradicar os problemas de hoje que surgem em todos os lugares, em todas as frentes globais.
Dito de forma clara, os acontecimentos actuais são, em muitos aspectos, uma repetição da turbulenta década de 1970. A marcha de hoje em direcção a normas antidemocráticas começou com o seminal A Crise da Democracia (1975) da Comissão Trilateral – o precursor do Forum Económico Mundial (Davos) e do grupo Bilderberg – com (nas palavras de Brzezinski) os bancos internacionais e as empresas multinacionais a serem coroados como a principal força criativa no lugar do “Estado-nação como a unidade fundamental da vida organizada do homem”.
A percepção tendenciosa de Brzezinski sobre a Rússia não era novidade. Remonta ao Instituto Hudson na década de 1970 e ao senador Henry “Scoop” Jackson, duas vezes candidato à nomeação democrata para as eleições presidenciais de 1972 e 1976. Jackson (de ascendência norueguesa) simplesmente odiava o comunismo; odiava os russos e tinha tido muito apoio dentro do Partido Democrata.
Brzezinski, polaco de origem, partilhava a russofobia de Jackson. Ele persuadiu o presidente Carter (em 1979) a inserir uma cultura de identidade jihadista radicalizada no Afeganistão para atacar a cultura socialista secular de Cabul, que Moscovo [então] estava a apoiar. O resultado da guerra afegã posteriormente foi retratado como uma enorme vitória americana (o que não foi).
No entanto – e este é o ponto – a reivindicação da vitória, no entanto, sustentava a noção de insurgentes islâmicos serem os ‘solucionadores’ ideais em projetos de mudança de regime (e ainda é, como testemunhamos na Síria hoje).
Mas Brzezinski tinha ainda mais conselhos a dar ao presidente Carter.No seu Grande Tabuleiro de Xadrez de 1997, Brzezinski argumentou que a América e Kiev poderiam potencialmente alavancar antigas complexidades culturais e linguísticas (como foi feito no Afeganistão) para formar a charneira em torno da qual o poder da região central poderia ser dissolvido ao negar à Rússia o controle da Ucrânia:
“Sem a Ucrânia, a Rússia nunca se tornaria a potência da região central; mas com a Ucrânia, a Rússia pode e seria [uma potência da região central]”, insistiu ele. A Rússia precisava de ser enredada num atoleiro de identidade cultural ucraniano semelhante, defendeu.
Por que foi essa decisão política tão prejudicial para as perspectivas de paz definitiva entre os EUA e a Rússia? Foi porque Kiev, instigada pela CIA, promoveu a afirmação identitária inteiramente falsa de que “a Europa termina na Ucrânia” – e que, além dela, estão “os eslavos”.
Esta manipulação por si só permitiu que Kiev se transformasse num ícone para uma guerra total de identidade cultural contra a Rússia, apesar do facto de a língua ucraniana (correctamente conhecida como rutena) não ser uma língua germânica. Também não há DNA viking (germânico) que possa ser encontrado entre os ucranianos ocidentais modernos.
No seu desejo de apoiar Kiev e de agradar a Biden, a UE agarrou-se a este revisionismo estratégico ucraniano: a ‘Ucrânia’ concebida como ‘valores europeus’ defendendo-se contra os valores ‘russos’ (asiáticos). Era um ponto, ainda que falso, em torno do qual se podia forjar a unidade europeia numa altura em que a realidade era a da unidade da UE a dissipar-se.
Será possível uma paz sustentável com a Rússia? Se fosse tentada em termos de procurar sustentar uma Ucrânia ruinosa como um istmo belicoso da ‘Europa e seus valores’ contra a ‘esfera eslava regressiva’, então a paz não é possível. Pois a sua premissa subjacente seria totalmente falsa e conduziria seguramente a um novo conflito no futuro. Moscovo quase certamente rejeitaria tal acordo.
No entanto, há uma crescente ansiedade entre o público americano de que a guerra na Ucrânia parece presa a uma escalada sem fim, com palpáveis receios públicos de que Biden e os ‘falcões’ no Congresso estejam a levar os EUA para um ‘holocausto nuclear’.
Será que nós – a humanidade – vamos continuar à beira da aniquilação se um ‘acordo’ de Trump – estreitamente confinado à Ucrânia – for recusado em Moscovo? É clara a urgência de travar a descida rumo à escalada; no entanto, o espaço de manobra política diminui continuamente, uma vez que não se esgota a compulsão dos falcões Washington-Bruxelas de lançar um ataque fatal contra a Rússia.
Mas, visto da perspectiva da equipa Trump, a tarefa de negociar com Putin é tudo menos simples. O público ocidental simplesmente nunca foi psicologicamente condicionado a esperar a possibilidade de uma Rússia mais forte emergir. Pelo contrário, eles suportaram ‘especialistas’ ocidentais a fazer troça dos militares russos; denegrir a liderança russa como incompetente; e a sua liderança a ser apresentada nas suas televisões como sendo puramente má.
Tendo presente a contribuição seminal de Brzezinski para a democracia, e a sua posterior ‘concentração’ numa ‘esfera identitária’ gerida tecnologicamente por uma elite, não é difícil ver como um país tão fragmentado como a América esteja de pé trás à medida que o mundo se desloca para uma multipolaridade baseada na cultura.
É claro que não é exactamente verdade dizer que a América não tem cultura comunitária, dada a grande diversidade de culturas de imigrantes nos EUA, mas é verdade que o que é visto como cultura tradicional tem estado sob assédio. Isto, afinal de contas, esteve no cerne das recentes eleições presidenciais – e das eleições em muitos outros países.
A noção de que, uma vez que os enviados de Trump tenham estado inicialmente em Moscovo, e tenham saído de mãos vazias, que Trump irá varrer para concluir um acordo com a Ucrânia, não reflete o que Moscovo tem vindo a sublinhar incessantemente. O que é necessário é um acordo baseado num tratado que estabeleça a arquitectura de segurança e as fronteiras entre a região central e os interesses de segurança da região que lhe é periférica com importância estratégica.
Mas será que tal acordo será visto por muitos americanos como ‘fraqueza’; como uma concessão da ‘liderança’ e ‘grandeza’ dos EUA? Claro, será percebido dessa forma – porque Trump estaria efetivamente selando a derrota da América e reposicionando os EUA como um estado entre iguais num novo concerto de poderes – ou seja, num mundo multipolar.
É uma grande “questão”. Pode Trump fazê-lo – engolir o orgulho americano? Um caminho viável a seguir seria voltar ao nó górdio original e desatar o nó: isto é, desatar o nó de não haver um tratado escrito pós 2ª guerra mundial que delimite o movimento sempre avançado da NATO e, ao fazê-lo, acabar com a pretensão de que a deslocação da NATO para onde quer que escolha não é da conta de ninguém, mas da sua conta.
Infelizmente, a outra maneira possível de ‘equilibrar’ a aparência da derrota americana e da NATO na Ucrânia, poderia ser vista pelos conselheiros falcão de Trump como consistindo em pulverizar o Irão – como um sinal de ‘virilidade’ Americana.
As negociações, em última instância, são sobre interesses, e a inteligência para resolver o enigma de duas partes percebendo como ‘o outro’ se vê sendo percebido – como fraqueza ou como força. Trump, se ficar travado num impasse literal sobre a Ucrânia, pode simplesmente escalar a escada metafísica para simplesmente dizer que só ele tem a visão de salvar a América da 3ª guerra mundial. Para salvar a América de si mesma.
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O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou reuniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).


