EPISÓDIO 10/10 — A democracia é uma responsabilidade de todos
Que mensagem deixar às atuais gerações sobre democracia, participação cívica e serviço à comunidade é a pergunta mais difícil de responder na decorrência desta minha modesta intervenção.
Nunca fui pessimista, mas confesso que atualmente a minha desilusão é quase total.
Começaria por dizer às atuais gerações que não corram tanto e parem um pouco para pensar.
A vida é curta, muito curta, e por vezes muito feia em relação ao que sobre ela sonhámos.
Este mundo global, cenário de um desenvolvimento desigual, problemático e contraditório, dissolve espaços e tempos e impõe padrões e valores profundamente controversos.
Centrado numa competição onde só intervêm os grandes grupos económicos, com desmesurado poder de controlo do capital, dos mercados e das mentalidades, sempre envolveu grandes riscos e ameaças, não só para os trabalhadores de todo o mundo, mas para a humanidade em geral.
Esmaga os anseios sociais, sacrifica a diversidade e a soberania, globaliza tudo à custa das economias nacionais, à custa do que é local, do diferente e do singular.
Sob o eufemístico prisma do desenvolvimento, promove-se todo um conjunto de relações excludentes e politicamente totalitárias, gerando um infernal sistema progressivamente concentrador e destruidor.
Quanto mais desmesurados são a riqueza e o poder, maior a desigualdade, maior a injustiça, maior a ingerência no coração dos povos soberanos, maior o potencial de desordem e violência, como estamos a ver todos os dias.
Não pode haver democracia, digna deste nome, quando tal agressão à liberdade e à consciência transforma a interdependência em dependência, grande catalisador da exclusão social.
Quanto ao serviço à comunidade, dou a palavra aos massacrados e chacinados por esse mundo fora.
Que o digam todos os que, como nós, sentimos diariamente a nossa consciência espezinhada e a verdade enforcada em todos os passos da nossa existência.
Às gerações atuais diria novamente: parem um pouco para pensar a sério, e não como eles vos obrigam a pensar, sobre o que se passa por esse mundo fora, onde impera a invasão, o assalto, o domínio, o roubo e a morte.
Parem um pouco para pensar nesse horrendo genocídio da Palestina que me faz duvidar de mim mesmo e da minha existência humana.
Temo sobretudo a ingénua e ignorante aceitação de muitos dos factos, como legítimos, por parte de pessoas que nos parecem lúcidas e conscientes.
Lamento sobremaneira o não reconhecimento do verdadeiro inimigo e a maldosa e irresponsável conclusão de que são todos iguais.
Repugnam-me as falas mansas de comentadores e palestrantes cuja cara e cuja vida não enganam ninguém.
Repugna-me a complacência das autoridades nacionais e mundiais, a colaboração consciente de todos os governos lacaios.
Uma boa parte da humanidade está obtusa, egoísta, hedonista e alienada, o que faz com que tenha vindo a transformar-se numa massa amorfa, presa fácil de toda a mentira, de todo o mercantilismo sem valor e de todos os obscurantismos políticos e religiosos.
Tudo isto é tão terrível, tão bárbaro e tão cruel, que eu penso que estes satânicos assassinos perderam toda a espécie de sentimentos ditos humanos, transformando-se noutra espécie, que nem animal merece ser chamada.
Uma degenerescência humana, uma excrescência ou um tumor maligno, a que poderíamos chamar carcinoma da mente, com grande poder contagioso e invasivo, atingindo cada vez mais pessoas através dos neurónios da subserviência, da indiferença, da desumanidade e da cumplicidade.
Felizmente, ainda há milhões e milhões de seres humanos de todas as gerações, com o coração a bater muito forte, embora abafado pela desinformação globalizada.
Neles reside a minha esperança de, mais tarde ou mais cedo, conseguirmos abrir o luminoso caminho de um Mundo Novo.